Às
vezes falta o assunto. E é bom que seja assim.
Falamos
demais. Pensamos mais ainda. Discutimos sobre muitas
coisas, sobre quase tudo, e não chegamos a lugar
nenhum. Andamos pela vida gesticulando, fazendo, dizendo,
achando, afirmando isso e aquilo... E onde estamos agora?
Estamos
aqui. Diante de uma tela de computador, entre quatro
paredes, em um dia qualquer, no tal ano, na tal cidade,
na tal rua, no tal número de casa e com o tal
número de telefone. Uma sucessão de tais,
um mapa de nossas vidas absurdas e fatais. Um dia de
Natal, mais um entre inúmeros Natais antes, durante
e depois de nós.
E
mesmo assim, queremos mais. Buscamos algo, consciente
ou inconscientemente, entre as linhas deste texto, em
nosso cotidiano atabalhoado, nos rios de pensamentos
que cuspimos ao acaso e dos quais nos esquecemos depois,
em nossos desejos furtivos e naqueles maciços,
que guiam os fios de nossas vidas de marionetes. E para
onde vamos?
Para
a morte. É isso aí. Mais ou menos rápido,
menos ou mais devagar. Tanto faz. Fato é que
é este o destino. E é o mesmo para todos
nós. Este momento é apenas a parada do
trem. Para não pensar nisso, queremos nos apropriar
desta estação ferroviária, temos
inveja do banco no qual o vizinho está sentado,
construímos em volta de nosso assento uma fortaleza
de valores compactos da cor do tijolo, brigamos com
quem se encontra ao nosso redor porque queremos este
lugar só para nós.
Sabor
de folia. Bem-vindos à estação
da vida.
E
aqui estou eu, plena desta seiva vibrante e estapafúrdia,
escrevendo para o silêncio entre uma e outra refeição
abastada, entre um e outro abraço sincero. Hoje
eu tenho bastante comida, amor borbulhante e, por isso
e por tudo, uma gratidão palpitante me presenteia
com eflúvios de uma estranha serenidade. Mesmo
assim, ao escrever estas linhas não tenho a mínima
vontade de colocar um vestido de bolas vermelhas e luzes
piscantes, cantar Noite Feliz e desejar um "feliz"
Natal e um "próspero" Ano Novo. Porque
a felicidade que não temos pode nos engolir e
a prosperidade que almejamos pode nos petrificar. A
farsa mundana é tão hilária que
dá vontade de vomitar.
No
entanto, viver sem acreditar não existe. Não
se trata de crer em Deus, no dinheiro, no vazio, em
Buddha ou na evolução. Porque qualquer
crença tem o poder assassino de nos estrangular.
A não ser que ela seja orgânica e do tamanho
do universo. A não ser que ela nos coloque na
rota das estrelas. Pois somos peregrinos caminhando
no escuro. É este o segredo da vida sensual.
É aquele movimento que sentimos sem poder explicar,
que nos leva a vibrar sem razão e com espanto.
Somos
feitos de água cascateando pelos segundos que
nos liquidificam quando nossos conceitos conseguiram
nos congelar. Serpenteamos pelas sensações
até evaporar e nos transformar em nuvens dançarinas.
No baile das horas sem tempo as paredes se dissolvem
e não precisamos mais de tudo aquilo que pensávamos
precisar. Pois o sonho é maior. Ele nos leva
sem que o percebamos, na balsa de um mundo mágico
que existe nos confins de nossas idéias.
Queiramos
o espaço além. Ofereçamos em cada
ação e em cada decisão os metros
de veias percorridas por nosso sangue febril até
deflorar o coração. Não movamos
nada que não venha dele e não volte para
ele. Para o coração. Falemos com ele.
Escutemos o que ele tem a dizer. Não há
nem mais um minuto a perder. Celebremos agora porque
não haverá outro Natal como este. Hoje
é o dia de nosso nascimento. Quando nos envolvemos
naquilo que nunca fomos, mas que a alma pede aos brados.
Quando ardemos com religiosidade pelo amor difuso que
se dá cegamente. Quando nos banhamos na cascata
de ternura de uma existência cuja magnificência
sempre transbordará de nosso entendimento. Quando
exaltamos nossa presença ao ponto de ofuscarmos
nossa identidade.
Eu
não quero escrever apenas pulando de assunto
em assunto e tampouco quero ser lida assim. Pois somos
nós as linhas. Cada palavra desponta de um ponto
de nossa alma como um fio de uma teia que nos tece tanto
quanto nós a tecemos. Cada emoção
é deglutida pela fome voraz de nossos anseios
em chamas. Estou entrando em você e você
está entrando em mim e nada vale a pena se não
for assim. Ser o pólen da vida fertilizando o
vento. Ser a música do mundo em cada movimento.
Natal
é nascer. Nascer é morrer para tudo aquilo
que passou e se abrir para tudo aquilo que sou e o que
ainda nem sei que sou. Eu estou nascendo e não
vou lavar a placenta. O que eu quero mesmo é
me embriagar de gosma existencial. Ser uma consciência
amorfa, uma desestruturação cristalina.
Recriar o universo na ponta de meus dedos. Meu tesão
me diz que o despontar da alma é de uma beleza
ardente. Sou torpe, talvez, mas não posso limpar
a pureza que floresce. Não posso ser nada além
da planta que cresce e se oferece. Ser a flor aberta
ao beijo do enlevo. Ser minha pele aturdida pelo sublime
e por seu exímio torpor. Ser a fragilidade deste
instante em todo o seu esplendor. Ser você.
Sejamos
nós o pão e o vinho. Compartilhemos aquilo
que somos potencialmente até que nos tornemos
a multiplicação de nós mesmos.
Sejamos nós um feliz Natal, ou seja, um nascimento
feliz e perpétuo que reverbera além, muito
além de nossas pequenas famílias, muito
além de nossas pequenas vontades, muito além
de nós, rumo à imensidão do ser.
Às
vezes falta o assunto. E é bom que seja assim.
Era um daqueles
dias. Eu não em me lembro qual era o tema nem
a razão da briga. De qualquer maneira, se formos
suficientemente inteligentes para não guardar
rancores inúteis e cancerígenos, passado
algum tempo, geralmente nunca nos lembramos do fator
deflagrador de um desentendimento. Apenas sei que, daquela
vez, minha paciência estava sendo posta a mais
uma dura prova. Foi durante um jantar de família.
Uma das pessoas sentadas à mesa havia começado
um longo e terrível monólogo, um daqueles
insensíveis falatórios absolutamente convencidos
da própria razão, sem aperceber-se que
minha exasperação estava alcançando
o delicado ponto no qual as piores coisas podem ser
ditas e os mais graves erros cometidos sem pestanejar.
Eu sabia que não agüentaria escutar aquela
ladainha por muito mais tempo, mas também tinha
consciência que qualquer ato poderia ainda piorar
a situação. Deixar a mesa e sair do recinto,
como era a minha vontade, provocaria um perfeito drama
que a pessoa em questão evocaria a cada reencontro
até que o último dos meus cabelos caísse
de desespero. Levantar a voz e dar um basta, clamando
pelo respeito que eu acreditava merecer, naquele momento
apenas teria o efeito contrário, alimentaria
a certeza do outro de ser uma eterna vítima e
faria com que choramingasse indefinidamente, levando-me
à inevitável loucura. Foi então
que aconteceu. Calmamente, eu me levantei, virei as
costas, abri o zíper e baixei minhas calças
até que minhas nádegas estivessem bem
à vista das pessoas da mesa, deixando bastante
claro o que eu achava do assunto em pauta. Com a mesma
calma, voltei a me vestir e a me sentar diante do olhar
incrédulo de todos. Como em um passe de mágica,
o monólogo foi interrompido. O
resto do jantar decorreu na mais perfeita paz.
Quando as
discussões acontecem, minha família não
difere em nada das outras. Já dizia um sábio
que, para saber o quão iluminados somos, basta
vivermos com nossos pais ou parentes. Durante as desavenças,
as máscaras bonitinhas, elegantes e simpáticas,
reservadas para os outros, para os conhecidos e para
muitos amigos, caem sem nenhuma sutileza e, então,
vê-se a outra face. O rosto que não mostramos
até ter aquela imensa, maravilhosa e terrível
intimidade que apenas as relações de amor
proporcionam. Feito de nossas fraquezas e idiossincrasias,
de nossas merrecas e daquelas grandes merdas que adoramos
esconder até de nós mesmos, de nossa chatice
infinita e nossa irreprimível fealdade, nossa
falta de compaixão, nosso orgulho e nossos medos.
O mais triste é que sempre pensamos que tudo
isto é apenas bagagem daqueles com quem convivemos.
Raramente somos capazes de perceber o quão insuportáveis
nós mesmos podemos ser. Ao falar dos outros,
mal conseguimos esconder a soberba de nos acreditarmos
tão melhores, mais equilibrados, mais justos,
mais inteligentes, "mais" qualquer coisa que
infle nosso gigantesco ego. No entanto, o famoso ditado
popular que diz "quando um não quer, dois
não brigam", aponta para o fato bastante
óbvio de que, na maioria das brigas, ambas as
partes geralmente estão erradas.
Por outro
lado, não se trata de ser sempre aquilo que alguns
equivocadamente gostam de chamar de "zen"
e, com isso, entendem um estado de passividade ou mutismo
indiferente e uma espécie de agressividade inexpressiva,
disfarçada de paz. Ser pacifista não é
equivalente a ser passivo. A inação apática
não passa de covardia e é um dos muitos
truques daquilo que um escritor americano sabiamente
chamou de "corpo de dor", a parte de nosso
corpo emocional onde operam os nossos padrões
emocionais e que literalmente é nutrida por nosso
sofrimento, desenvolvendo elaboradas artimanhas para
sempre gerar mais alimento, isto é, mais dor.
A deliberada falta de participação na
vida familiar ou social por medo ou aversão aos
conflitos, que às vezes é confundida com
espiritualidade ou autocontrole, faz com que a pessoa
se abstenha de assumir a responsabilidade humana que
lhe é inata e que faz parte da experiência
da plenitude e realização a qual todos,
consciente ou inconscientemente, aspiram.
A palavra
zen "vem do termo sânscrito dhyana, que denota
o estado de concentração típico
da prática meditativa. Na China, esse termo foi
transliterado como channa, e logo reduzido à
sua forma mais curta, chan. Daí para o coreano
como s?n e finalmente para o japonês como zen."
A prática de diferentes tipos de meditação
nos ensina a observar o mundo de uma nova forma, nos
coloca em contato com uma realidade dinâmica,
mais complexa e profunda do que aquela que temos a capacidade
de perceber apenas com nossos sentidos. Ela nos faz
compreender que o universo em nós e ao nosso
redor está sempre mudando e que grande parte
da humanidade está sofrendo por causa de padrões
emocionais adquiridos há muito tempo, às
vezes desde a infância ou até antes disso,
genetica ou carmicamente. Estes nos levam a reagir sempre
da mesma forma, recriando situações antigas
em conjunturas novas que, normalmente, pediriam por
ações diferenciadas e criativas. Afiar
nossa total e plena atenção ao momento
presente observando suas inúmeras camadas, abdicar
de nosso habitual padrão reacionário,
ou seja, parar de reagir automaticamente e começar
a agir guiados por um conhecimento intuitivo e uma aguçada
inteligência emocional, isto é ser "zen".
Não
há quem não traga em si uma latente ou
manifesta parcela de fúria sanguinária,
herdada de nossos antepassados e necessária à
sobrevivência nas cavernas e em outras condições
adversas. E não há nada de errado com
isso. Perceber a raiva primordial em nós e em
todos ao nosso redor, entendê-la como um aspecto
de nossa trajetória humana, nos ajuda a sair
de nossas confortáveis, mas estáticas
posições de vítima ou juiz. Saber
quem somos profundamente, enxergar nossos demônios
no espelho, compreendê-los e transcendê-los,
nos abre às inúmeras e desconhecidas possibilidades
que levamos em nós como um magnífico potencial
adormecido. O ódio tem derramado rios de sangue
e causado irreparáveis danos em nosso mundo.
Se conseguirmos sentir a ira mortal e destrutiva que
acomete e assola a humanidade e transformá-la
dentro de nós, a fúria sanguinária
de hoje se transformará em arte visionária
e em amor libertador. Todo sangue derramado brutalmente
será finalmente parte do passado, brotará
como surpreendentes flores da criação
e nos transportará a um oceano de múltiplas
e fantásticas cores. Apenas então seremos,
enfim, donos de nosso destino, detentores dignos de
nossa energia vital, e criadores de um realmente admirável
novo mundo.
"A
Terra perdeu, em pouco mais de um quarto de século,
quase um terço de sua riqueza biológica
e recursos, e no atual ritmo, a humanidade necessitará
de dois planetas em 2030 para manter seu estilo de vida,
advertiu hoje o Fundo Mundial para a Natureza. A demanda
da população excede em cerca de 30% a
capacidade regeneradora da Terra, segundo o Relatório
Planeta Vivo 2008, divulgado por esta organização
ambientalista a cada dois anos sobre a situação
ambiental dos ecossistemas."
O trecho acima
faz parte de um artigo publicado ontem na Internet.
Já faz muito, imenso tempo que escutamos ou lemos
notícias alarmantes. Eu bem sei que para a maior
parte de nós não há nada a fazer
em relação a isso. A tendência é
ler a manchete, às vezes nem mesmo lê-la,
e logo em seguida esquecer. Poucas horas depois ela
desaparecerá como todas as outras, aliás,
ela já desapareceu, dando lugar a outras atualidades
que serão esquecidas com a mesma rapidez.
Pessoalmente,
desde pequena a crescente devastação de
nosso planeta me alarmava e entristecia. Para mim sempre
foi óbvio que a natureza é a nossa casa,
que nós somos natureza, e o que fizermos a ela
estaremos fazendo a nós mesmos. Até onde
teremos que chegar para entender isso, para pararmos
de aceitar esta situação? Quando é
que cada um de nós despertará para o fato
que é necessário que cada um de nós
faça algo para mudá-la? Será que
estamos esperando que falte água e comida para
todos? Será que vamos realmente continuar a delegar
a nossa responsabilidade e os resultados catastróficos
de nossa passividade para outros, os políticos,
as próximas gerações, nossos filhos
e netos? Será que vamos continuar sendo robôs
míopes, indo da casa para o trabalho e do trabalho
para casa, pagando nossas continhas, cuidando só
das coisinhas que nos interessam, pensando que o mundo
vai tomar conta do resto? Será que vamos continuar
achando tudo isso "normal", da mesma forma
que achamos "normal" ser obrigados a colocar
alarmes e muros em volta de nossas casas para não
sermos roubados? Perdoem-me,
mas eu não consigo pensar assim. Eu não
consigo aceitar isso.
Para todos
aqueles que não concordam com a loucura em massa,
eu sugiro parar. Nem que seja por um dia. Vamos organizar
uma greve em massa de UM DIA. Vamos fazer uma cidade,
um país inteiro, se possível mais que
um país, parar em protesto contra a devastação
da natureza e a violência a todos os níveis.
Se congregarmos muita gente, ninguém sairá
prejudicado. Se Gandhi conseguiu parar a Índia
há tantos anos atrás somente através
da resistência não violenta, sem Internet
nem nada, com certeza é possível fazer
isso hoje. (Quem não conhecer a história
de Gandhi, consulte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Mahatma_Gandhi
) Foi graças a Gandhi que a Índia conseguiu,
em 1947, a Independência da Inglaterra. Quando
um país inteiro pára, os governantes não
têm outra escolha senão começar
a escutar o povo e mudar.
O Brasil é
responsável pela Amazônia, uma das três
grandes florestas tropicais do planeta, também
chamada "o pulmão do mundo". Todos
os dias imensas áreas do tamanho de alguns países
europeus são devastadas sem que nada seja feito
contra isso. Vamos mostrar ao mundo que merecemos a
nossa floresta. Vamos transformar o Brasil em um exemplo
de cidadania, vamos mostrar que somos cidadãos
do mundo. Vamos chamar a atenção do mundo
para o fato que NÃO DÁ PARA CONTINUAR
ASSIM. Talvez isso também não ajude, mas
é preciso fazer algo, é preciso começar
de alguma forma. Quem quiser me ajudar a organizar isso
em seu bairro e em sua cidade, por favor comece encaminhando
esta mensagem para todos aqueles que conhece e depois
entre em contato comigo. Estou pronta para dar toda
a minha energia para fazer algo pelo nosso mundo. Quem
me acompanha? Quem vai deixar sua descrença e
seu sorriso cínico de lado e, pela primeira vez
em sua vida, fazer um ato político de verdade
ao invés de esperar que outros o façam
por ele?
Por hoje eu
me despeço de todos deixando aqui um poema que
escrevi aos dez anos de idade, o meu primeiro poema
publicado em um livro do colégio onde eu estudava
na época. Ele ganhou o quarto lugar de um concurso
de poesias no qual as crianças falavam através
de poemas da angústia que elas sentiam em relação
àquilo que os adultos estavam fazendo. Hoje todas
aquelas crianças cresceram. Nós nos tornamos
adultos e nada mudou. Pelo contrário, só
piorou.
Hoje é
um dia de vitória. Hoje é um dia com o
qual, durante séculos, muitos homens e mulheres
sonharam, pelo qual muitos lutaram e morreram. Um dia
de libertação. Certamente o futuro nos
reservará dias piores e melhores, pois assim
é a natureza da vida. Mas o dia de hoje é
um dia de justa euforia. Milhões de pessoas vibraram
no mundo inteiro, torceram pela eleição
de um único homem. Não um deus, não
um mártir nem um santo. Um homem como qualquer
outro. Um homem que, ao falar de mudança, falou
ao coração dos homens. Um homem negro.
A história
da humanidade, aquela que nos ensinaram nas escolas,
é vergonhosa e sangrenta. Todos os grandes "feitos"
do ser humano aconteceram graças ao massacre
e à opressão de milhares, às vezes
milhões, não somente seres humanos, mas
de todos os seres vivos. No mundo inteiro ainda há
violência terrível e gratuita, dirigida
contra o meio-ambiente, contra inteiros grupos étnicos,
políticos, religiosos ou filosóficos.
Pessoas sofrem e são agredidas fisicamente ou
indiretamente através da miséria, da exclusão,
da segregação. Aqueles que construíram
sua atual riqueza graças à extorsão
e ao extermínio, hoje fecham covardemente suas
fronteiras diante dos fugitivos do "terceiro mundo",
um desastre ecológico que eles próprios
criaram.
Mas um homem
falou em mudança e foi ouvido. Um homem que carrega
na sua pele a cor de seus antepassados massacrados pela
ignorância e pelo desdém. Ele disse que
somos todos iguais e que somos responsáveis pelo
nosso mundo. Ele falou primeiramente aos norte-americanos,
mas no planeta inteiro pessoas levantaram suas bandeiras
por ele. Mesmo que amanhã este homem não
esteja à altura do fervor que ele suscitou nas
massas e suas futuras escolhas embacem o brilho de seu
triunfo, espero que muitos carreguem o dia de hoje como
um talismã. Que saibam que é possível.
Como quando Gandhi conseguiu a independência da
Índia. Como
quando um operário chegou à presidência
do Brasil. A superação existe.
É claro,
as coisas mudam o tempo inteiro. A própria superação
acaba sendo sempre superada. Mas, a meu ver, o dia de
hoje prova que o sonho não é apenas uma
utopia sobre a qual alguns escritores, loucos, artistas,
intelectuais e muitos outros escrevem, cantam, dançam,
falam. O sonho é a mais alta realidade. O sonho
está em nós, em nossas mãos. Não
nas mãos de alguns poucos homens que, por fé,
por força pessoal, por sorte, acaso ou destino,
conseguem falar dele e representá-lo diante de
milhões. Não. O sonho existe e está
vivo no coração de toda a humanidade.
Queremos um mundo melhor. Acreditamos nisso. Talvez
ainda pensemos que precisamos de heróis, de líderes
que façam tudo por nós, o que a própria
história demonstrou ser uma ficção.
Por mais heróico que seja um ser humano, ele
não é nada sem os outros. Ele não
alcança nada sem a ajuda de todos os indivíduos
ao seu redor. Porque o povo é feito de indivíduos.
O povo é feito de cada um de nós. Se hoje
jogamos pedras naqueles que não souberam estar
à altura de nosso sonho, deveríamos ir
para frente do espelho e perguntar o que nós
mesmos não estamos fazendo para ajudar aqueles
que considerávamos nossos heróis. Pois
os heróis somos nós. Cabe a nós
mudar o mundo. Não em grandes discursos nem em
dias de vitória como hoje. Temos que mudar o
mundo no cotidiano, em pequenos e grandes gestos. Quando
acordamos, quando nos dirigimos aos nossos cônjuges.
Quando julgamos nosso próximo, nossa família,
amigos e inimigos pelos erros que, de uma maneira ou
outra, nós também cometemos. Quando preferimos
criticar a ajudar os outros. Quando desperdiçamos
nosso potencial fazendo coisas inúteis. Quando
alimentamos os mecanismos de morte, quaisquer que sejam
eles. Quando não estamos dispostos a viver e
morrer por nossos sonhos e esperamos isso dos outros.
O dia de hoje
é um dia de vitória como qualquer outro.
Mas ele pode, também, ser um ponto de mutação.
Um dia no qual escolhemos despertar para o herói
que há dentro de nós. Não um ser
superior, mas um ser único, como todos os outros,
um ser perfeito dentro de um momento perfeito, com tudo
aquilo que é necessário para tocar e transformar
o mundo em volta de nós aqui e agora, tocando
e transformando o mundo dentro de nós.
Durante um
almoço do qual participei houve uma acirrada
discussão com amigos. O tema eram as bombas atômicas
jogadas em Hiroshima e Nagasaki em 1945, um tema ainda
atual, visto que há cada vez mais potências
nucleares, declaradas ou não. Havia, como em
muitas discussões, duas posturas opostas: aqueles
que são a favor e aqueles que são contra.
Naquele específico almoço, falando sobre
a guerra, eu também entrei em guerra. Meus adversários
ficaram surpresos ao descobrir outra mulher em mim,
não aquela que eles conheciam, geralmente calma
e conciliadora, mas uma furiosa e intolerante guerreira.
Perplexa pela estúpida incompreensão de
viver em um mundo onde, ainda e sempre, tentam justificar
o injustificável.
A guerra é
um fato. Ela faz parte da natureza humana e do mundo
no qual vivemos. Estamos todos em guerra, com o planeta,
com os outros ou com nós mesmos. Até aqueles
que dizem ser pacifistas, até os individualistas,
até mesmo os místicos e santos, todos
participam da guerra humana através dos golpes
de suas ações ou de sua inação.
Pois somos todos conectados. Pois ninguém é
uma ilha. Por isso, discutir sobre uma bomba monstruosa
que aniquilou milhares da forma mais covarde possível
com o pretexto de evitar a morte de milhões,
é apenas aventurar-se no inferno que sempre existiu
e ainda existe, aqui e agora, em volta e dentro de nós.
Afinal, quem apertou aquele botão em 1945? Um
ser humano, apoiado por muitos seres humanos. Alguém
como eu. Como você. E do outro lado daquela batalha,
o lado dos bombardeados, as atrocidades cometidas também
foram inumeráveis e grotescas.
Pensemos nas
lutas mais próximas, aquelas que ocorrem entre
familiares, amantes, inimigos ou entre marido e mulher.
Embora estejamos talvez mais familiarizados com estas,
isto não quer dizer muita coisa. Quando estamos
em meio a uma batalha afetiva não é possível
entender nada, nem mais nem menos do que quando dois
países entram em guerra. Geralmente nesses momentos
a nossa percepção se resume à nossa
profunda dor, um sofrimento agudo, inerente à
experiência da vida, que às vezes transborda
e nos impele a fazer coisas que talvez nunca fizéssemos
em outras situações, como ter acesso de
fúria assassina, ter crises nervosas ou outras
esquisitices do gênero.
Lembro-me
de um ataque de ciúmes que dei certa vez com
um namorado. Estávamos em uma festa e, de repente,
animadas talvez pela Lua Cheia, umas moças soltinhas
começaram a tirar a roupa e se jogar na piscina
bem à nossa frente. Uma delas era bastante jeitosa,
motivo pelo qual o queixo de meu acompanhante caiu quase
até o chão. Sei que isso é perfeitamente
natural para muitos homens, para os quais geralmente
as mulheres, pelo menos à primeira vista, não
passam de partes de corpos a ser consumidas. Mas para
mim a Lua também estava cheia e naquele dia eu
não estava com paciência. Se o homem queria
estar ao meu lado, que estivesse plenamente comigo,
pois eu não tinha tempo a perder. Como este não
era o caso e meu acompanhante estava mais inclinado
a brincar com as raparigas na piscina do que pensar
em mim, eu tive uma idéia.
Sem hesitar,
fui até o dono da festa, meio derretido por mim,
e convidei-o a juntar-se a nós na piscina. Sem
problema algum, imediatamente tirei eu também
a minha roupa, na frente dele e de todos. Diferente
do outro, pelo menos este tinha olhos para mim. E então
mergulhei, juntando-me às minhas alegres coleguinhas
de festa, diante dos olhos pasmos tanto do meu parceiro
quanto do meu admirador. Este último atirou-se
na piscina logo depois de mim, ansiosamente, como um
tubarão que vai à caça, ou como
se tivesse medo de sofrer um infarto a qualquer momento
e perder tal fantástica oportunidade. Por outro
lado, ainda confuso, sem saber se devia ter um rompante
de ódio ou relaxar na ilha da fantasia, meu companheiro
perguntou, meio sarcástico, meio curioso, o que
eu faria agora, qual seria a próxima maluquice,
se, por exemplo, a menina jeitosa e eu nos beijaríamos.
Satisfazendo-lhe imediatamente a vontade, agarrei sem
pestanejar a graciosa à força e beijei-a
na boca enquanto ela, despreparada para o assalto, não
sabia o que fazer com os próprios braços,
que sacolejavam freneticamente ao seu redor. Logo depois,
ataquei com um beijo também o meu anfitrião,
que mal reagiu de espanto, e saí da piscina como
se nada tivesse acontecido. Desnecessário dizer
que tal comportamento valeu-me homéricas e terríveis
brigas com meu amado, altercações furiosas
de mais de um mês, permeadas por sessões
de sexo incandescente e turbulento. Entramos em um turbilhão
de emoções tempestuosas e explosivas do
qual demoramos muito para sair e que deixou cicatrizes.
Tudo isso por causa de um breve instante de ciúmes.
Não
vou dizer que, às vezes, não seja necessário
quebrar o barraco. Às vezes precisamos, sim,
nos manifestar, colocar a boca no trombone e ver o circo
pegar fogo. Até para, eventualmente, vir a restaurar
a casa ou queimar de vez estruturas apodrecidas. Mas
é fato que, quando as pessoas discutem qualquer
assunto, elas buscam ter razão e provar o erro
do outro a qualquer preço. Eu também faço
isso. Tanto naquele almoço, citado no começo,
quanto na minha cena de ciúmes, eu fui à
luta, completamente ciente de que não há
vencedores em uma guerra. No entanto, no fim de cada
batalha, por mais indispensável que seja, eu
nunca consegui ser aquela que olha triunfante para trás.
A guerra queima irreversivelmente. E também pode
fazer mais forte.
Mas o que
leva à guerra? O budismo fala nas emoções
destrutivas, aquelas que impulsionam as ondinhas e os
tsunamis que se abatem sobre a humanidade, aquelas que
são base tanto das pequenas guerras do cotidiano
quanto das grandes guerras mundiais. O Vajrayana ensina,
mais precisamente, sobre cinco principais emoções
nocivas, subdividas em muitas vertentes. A ignorância
está no centro delas e, ao redor dela, como conseqüências
da ignorância, estão a cólera, o
orgulho, o apego (ou/e desejo) e o ciúme (ou/e
inveja). Impulsos emotivos como alegria, compaixão
e amor não fazem parte dessas emoções,
são consideradas energias essenciais e libertadoras.
As outras, no entanto, se chamam, em tibetano, Nyön-mong.
"Nyön representa confusão e Mong representa
aquilo que obscurece a mente e a torna pesada. Mais
além, a palavra latina emoção significa
algo assim como: estar em movimento ou colocar em movimento.
Portanto, uma emoção é algo que
traz movimento."
Mas não
é preciso ser budista nem estudar o budismo para
observar que, dependendo de como interpretamos uma emoção,
daquilo que escolhemos pensar sobre ela, um movimento
é iniciado em nossa mente e logo depois projetado
ao mundo. Suas conseqüências podem ser ou
construtivas ou desastrosas, ou até mesmo ambas
as coisas. Mas não é fácil "escolher
pensar" sobre algo que aparentemente sentimos.
É como se o coração fosse uma imensa
cebola com tantas camadas que é muito fácil
nos perdermos sem saber em que camada está aquilo
que realmente espelha alguma verdade sobre nós.
No entanto,
existem algumas ferramentas que, a longo prazo, ajudam
a obter esta resposta. Entre elas: meditar, contemplar
e orar. É preciso ter tempo, parar para escutar
o coração. Estudá-lo com imensa
atenção e profundo carinho, como se fosse
um filho ou alguém que amamos muito. Isso é
meditar. Contemplar pode ser entendido como "dar
um tempo", entrar em estado de observação,
abrir-se ao sagrado, confiar na vida como um rio imbatível,
um fluxo do qual inevitavelmente fazemos parte, muito
maior e mais vasto que nossa compreensão.
Orar é colocar-se em postura de serviço.
Seja qual for a tempestade na qual nos encontramos,
nós mentalmente nos abrimos à possibilidade
de que existe uma escolha em nós que beneficiará
mais e será melhor para todos os envolvidos.
Nós "rezamos" ou dirigimos nossa atenção
e energia para a consciência que nos habita (e
a tudo aquilo que existe), mesmo que neste momento não
a sintamos e estejamos imersos na confusão. Pedimos
para que ela nos guie. Religamo-nos a ela e, assim,
agimos de forma religiosa sem necessariamente precisarmos
de religiões ou filosofias.
Quando conseguimos
praticar um ato forjado desta forma, percebemos imediatamente
a imensa probabilidade do erro. Neste momento então,
e apenas neste momento, nos tornamos plenamente humanos.
Ao buscar a ação consciente recebemos
de bônus o presente da humildade e da compaixão.
Pois na vida humana a guerra é inevitável
e nela todos estão sempre, em maior ou menor
grau, errados.
Hoje, dedico
esta reflexão aos amigos e familiares que já
se foram, e a todos os outros, vítimas passadas
ou futuras da maior epidemia que sempre acometeu a humanidade,
a morte. Segue um capítulo do meu novo romance,
em vias de conclusão. Trata-se de uma obra de
ficção, mas esta específica história
que acontece com a protagonista alemã ocorreu
de fato comigo. Apenas os nomes e alguns detalhes de
menor importância foram alterados para encaixá-la
na trama e preservar a identidade das pessoas envolvidas.
Manoel era
um espanhol tão ou mais apaixonado pela Bahia
que talvez qualquer brasileiro. Ele tinha idade para
ser meu pai, mas nem se notava a diferença entre
nossas datas de nascimento à medida que nos aprofundávamos
em empolgantes conversas sobre os mais variados temas,
geralmente baseados em leituras que fizemos no decorrer
de nossas vidas. Manoel trabalhou muitos anos lecionando
jovens. Depois de cumprir a sua missão, aposentou
e refugiou-se em sua casa baiana. Na maior parte de
seu tempo ali, o que ele mais gostava de fazer - além
da leitura, indissolúvel de seu cotidiano - era
ficar sentado na varanda, da qual ele tinha uma privilegiada
vista do mar. Assim ele ficava, por horas, perdido,
e ao mesmo tempo encontrando-se, em profunda contemplação
do mistério e da beleza da existência.
Além
de sua amizade e fabulosa cordialidade, de suas reflexões
perspicazes que reverberavam em mim por dias, ele me
deu um grande e inesquecível presente. Graças
a ele eu pude presenciar pela primeira vez o milagre
da morte, ao qual estamos todos destinados. Não
sei exatamente quando ele descobriu que tinha um câncer,
ele sempre foi muito discreto em relação
a isso. Mas a enfermidade tomou gradativa e dolorosamente
conta de seu corpo, apesar de todos os agressivos tratamentos
aos quais ele se submetia.
Quando o visitava,
eu era escoltada até ele por Leni, a servil,
silenciosa e jovem esposa baiana, que o ninou até
entregá-lo aos braços da próxima
esposa, aquela que é vista como maldição
ou bênção, dependendo do ponto de
vista. Em uma das visitas, sentei-me ao lado dele. Observei
que estava sereno, ainda que lentamente devastado pela
doença. A pele esverdeada colava-se paulatinamente
aos ossos debilitados, os pômulos afundavam, desfigurando
qualquer tentativa de sorrir da própria tragédia.
Ele falava cada vez menos, mas suas poucas palavras
referiam-se àquelas de alguns sábios cujas
máximas ele guardara na fantástica memória.
Certa vez ele até me segredou que escrevera algumas
reflexões. Depois de sua morte, sua esposa generosamente
compartilhou-as comigo. Seus olhos ficavam sempre abertos,
perscrutando a vastidão do mar, aprofundando-se
cada vez mais nela, como se estivesse a se preparar
para o momento de fusão com o horizonte inalcançável.
Seus últimos
dias foram de imensa tristeza para aqueles que estiveram
ao redor dele e presenciaram a dor devorando sua carne,
tal qual um animal voraz e cheio de fome. Não
sei até que ponto ele sentia pesar ou se na proximidade
do aniquilamento nós apenas nos tornamos trêmulos,
frágeis e abertos, uma chama fugaz dançando
ao vento antes de ser reduzida a nada. Eu me sentava
ali, colocava minha mão sobre seu corpo em vias
de desaparecimento, cantava-lhe às vezes alguma
canção ou lhe sussurrava palavras de conforto.
Aquela era a única débil forma que eu
tinha para lhe falar de amor, talvez o último
dos remédios. E ficava a observá-lo, como
faria quiçá uma criança que nada
soubesse do valor nefasto que atribuímos à
morte. Eu permanecia imóvel, tomada de espanto
diante da imagem brutal e magnífica da mortalidade,
dos limites da matéria transportando-se a um
horizonte ilimitado. Quanta dignidade tinha aquele homem,
já sem controle algum sobre seu corpo ou consciência,
mas sem esquecer de chamar pela esposa, sempre que volvia
de seus delírios febris, Leni, amor, donde
estas, amor mio? E a mulher vinha, correndo, os
olhos marejados, nos lábios um sorriso quando
ele lhe pedia, pela enésima vez, um pouco de
água ou uma massagem, sentando-se prontamente
atrás dele e entregando-se a um paciente acarinhar
das costas ressequidas.
No último
dia, fui vê-lo no hospital de Porto Seguro. Um
tubo atravessava-lhe as narinas, seu corpo latia de
desconforto, a alma querendo já saltar para fora
do organismo. Este servira pelo tempo necessário,
mas a visível deterioração o aproximava
com crescente rapidez do inevitável fim. Entre
uma e outra ausência deliriosa, Manoel olhou para
mim, reconhecendo-me e apertando minha mão entre
seus dedos frios:
_Marianne...
O que poderia
dizer eu num momento como aqueles? Intimidada pela eloqüência
da morte, eu apenas sussurrei:
_Aceite, Manoel.
Aceite aquilo que está lhe acontecendo. Abra
o seu coração.
Ele olhou
para mim, surpreso e amedrontado, e respondeu com bastante
dificuldade:
_Meu coração
está bloqueado.
Medo. Nosso
primeiro e último desafio. Ele continuou:
_Como faço,
Marianne? Como abro meu coração?
Talvez apenas
uma criança saiba responder a perguntas sem resposta.
Creio até que foi a criança, aquela que
eu fora um dia, a criança dentro de mim, que
respondeu:
_Faça
mágica.
_Mágica?
_Sim. Mágica.
Por um momento,
ele pareceu sorrir e os olhos dele brilharam. Mais tarde
gostei de imaginar que, ao partir, eles enxergaram o
horizonte que ele pensava ter perdido, mas que pela
primeira e única vez conheceria de verdade. Quando,
no dia seguinte, fui ao seu enterro, antes de fecharem
o caixão, ainda pude ver um sorriso sobre os
lábios descoloridos. Seu corpo já começava
a enrijecer e esfriar. Era o mistério da carne
com a qual nos identificamos por tanto tempo, que nos
acompanha e serve, mas que deixa de nos representar
quando a vida resolve desfazer-se dela.
Conhecidos
e amigos, chegamos todos ao cemitério juntamente
com uma pancada de chuva tropical. Ajudado por outros
trabalhadores, reclamando em alto baianês das
dificuldades de sua árdua tarefa, o coveiro acabou
de cavar o buraco na terra avermelhada e umedecida pela
água, caindo abundante dos céus. Não
havia padre, pois Manoel não cultuava nenhuma
religião. Nem lápide nem ritual havia.
Algumas pessoas chocaram-se com aquilo, eu prosseguia
estranhamente embevecida e emocionada. A normalidade
aparente com a qual tudo estava sendo feito e o silêncio
desprovido de adornamentos dava a impressão de
que, para todos ali presentes, aquela talvez fosse apenas
uma pausa entre dois turnos de outros afazeres rotineiros,
e provavelmente era. Embora eu sempre tivesse uma predileção
por rituais, percebi naquele momento que, na verdade,
a vida e a morte dispensavam enfeites, e bastavam-se
perfeitamente a si mesmas. Como se para dar ênfase
ao meu pensamento, uma revoada de inúmeros pássaros
cruzou o céu e instalou-se sobre um fio elétrico
próximo a nós, sentando-se nos melhores
camarotes. Com o consentimento da esposa, pedi a todos,
inclusive ao indócil e pitoresco coveiro e a
seus ajudantes ruidosos, um momento de silêncio
em homenagem a Manoel. Nós o encerramos com uma
salva de palmas para aquele que partira em sua última
aventura.
Naquela noite,
enquanto eu dormia, o mar me disse: "no oceano
turbulento da vida, começamos a morrer no dia
em que nascemos. Lembre-se sempre de viver plenamente
a cada novo instante."
Todo trabalho
feito com o coração é uma forma
de manifestar a essência divina e ser útil
ao universo. Mas não é fácil saber
qual a nossa missão. E quando a descobrimos,
não é fácil realizá-la.
A alma gosta de desafios. Nada que valha real e profundamente
a pena nesta vida é fácil. A realidade,
ou aquilo que chamamos de realidade, que nossos antepassados
inventaram e do que hoje somos, em maioria, nada mais
que escravos, não gosta muito dos sonhadores.
Como já
faz tempo que eu fiz a escolha de perseguir meu sonho
profissional, custe o que custar, é claro que
a "realidade" não gosta muito disso.
Ela me testa, judia de mim, tenta me convencer a desistir.
Talvez um dia ela vença a guerra, mas por enquanto
eu continuo batalhando. Esta guerra já dura há
onze anos. Perdi inúmeras batalhas e tive incontáveis
momentos de tristeza e exaustão, mas as poucas
que venci me deram uma soberba energia. A força
necessária para ainda seguir em frente.
Há
três anos atrás, em um dos muitos momentos
de frustração de meu caminho, quando tudo
me parecia extremamente lento e difícil, pedi
à Vida para me sentir útil. Não
em um futuro, próximo ou distante, no qual eventualmente
meus esforços alcançariam o objetivo sonhado,
mas imediatamente. Alguns dias depois, uma grande amiga
me ligou perguntando se eu queria traduzir um livro
de um lama do budismo tibetano com ela. Percebendo que
meu pedido havia sito atendido e não prejudicaria
meu sonho, não hesitei em aceitar. Coincidentemente,
pouco depois disso, vários lamas (ou monges)
da escola Kagyü começaram a vir à
pequena cidade onde moro atualmente dar ensinamentos
e eu continuei a traduzir palestras e textos do alemão,
inglês e francês para o português.
Comecei também a me aprofundar no estudo desta
específica linhagem.
Como eu já
escrevi em outro texto, além de ser uma filosofia,
o budismo tibetano também tem muitos aspectos
ritualísticos, semelhantes a qualquer outra religião.
No entanto, como até recentemente eu nunca tinha
tido nenhuma religião nem feito parte de nenhum
grupo e, ainda por cima, era avessa a compromissos,
uma nova guerra começava a travar-se em mim.
Percebi que meu desejo de ser útil acabara me
levando a praticar e quase adotar uma nova religião
- além da católica, minha herança
cultural, com a qual me reconciliei gradualmente e,
após muitos anos de briga, na qual fui batizada
há um ano e meio, por própria escolha.
Comecei a questionar a autenticidade daquele caminho.
Nesta época
um lama veio à minha cidade e ofereceu ao nosso
grupo a possibilidade de fazermos mais um intenso retiro
de meditação. Embora eu já conhecesse
os benefícios de tal prática e estivesse
inclinada a fazê-lo, resolvi recusar e tirar aquele
tempo para viajar. Como estava com pouco dinheiro, coloquei
a minha barraca na mochila e fui conhecer a Chapada
Diamantina. Foi uma idéia magnífica, pois
se trata de um dos lugares mais belos que já
vi em minha vida. Após uma viagem de dois dias
em dois ônibus, cheguei a uma pequena cidade na
qual eu ainda tinha que pagar um táxi que me
levasse aonde eu queria ir, um vilarejo que ficava em
um vale na floresta, o que significava mais uma hora
de viagem e muitos solavancos por uma estrada de terra.
Além de mim, havia apenas mais uma mulher que
queria fazer o percurso. Concordamos em dividir o preço
do táxi. Entretanto, por ser moradora do tal
vilarejo, ela não gostou nada do preço
que o taxista pediu. Começou então uma
briga acirrada entre ela e todos os taxistas. Ela gritava
e gesticulava com eles enquanto entrávamos e
saíamos dos carros com nossas bagagens ao ouvir
os preços. Cansada da viagem, tentei sugerir
que ela se acalmasse. Um dos motoristas até mesmo
estendeu-lhe um livro e pediu que ela lesse um trecho
em especial. Como ela estava sem óculos, eu li
a página aberta em voz alta. Era um belo texto
do Chico Xavier. Finalmente mais calma, ela aceitou
o preço sugerido pelo homem, um pouco mais barato
do que os outros.
Já
na estrada, ela e eu começamos a conversar. Ela
perguntou onde eu passaria a noite e eu disse que procuraria
por uma pousadinha barata, pois no dia seguinte estava
disposta a acampar. Ao ouvir aquilo, imediatamente ela
me ofereceu para pernoitar em sua casa. Como inicialmente
ela parecera um pouco doida, hesitei um pouco, mas acabei
aceitando. Ao chegarmos à sua casa, uma bela
construção em meio à mata, em frente
a uma xícara de café fumegante, contamo-nos
nossas vidas. Para meu imenso espanto, descobri que
Izabella, este era o nome dela, começara a estudar
o budismo tibetano há anos atrás e também
fora tradutora de lamas. Por causa de uma série
de graves problemas que devastaram a sua vida emocional,
de uma forte depressão e do uso contínuo
de antidepressivos, ela não conseguira dar continuidade
à sua prática de meditação.
Foi então que ela me perguntou:
_Sabe, Antonella,
daqui a três dias uma monja inglesa virá
dar uma palestra aqui. Eu não tenho meditado,
estou um pouco nervosa e não estou bem de saúde.
Você não poderia fazer a tradução
para mim?
Três
dias depois lá estava eu, traduzindo novamente
os ensinamentos do Buddha, só que desta vez em
uma capela no meio de uma floresta... Fiquei onze dias
hospedada na casa de Izabella, caminhando em trilhas
no meio da floresta, banhando-me em cachoeiras de água
límpida e meditando, com e sem minha anfitriã.
Desde então, meu coração ficou
mais tranqüilo em relação ao que
está acontecendo comigo.
É saudável
questionar. Mas quando, apesar dos questionamentos,
a Vida nos indica o caminho, vale a pena se abrir e
mergulhar fundo. Todo artista conhece a sensação
que acompanha qualquer criação, o sentimento
muito claro de que nós não criamos nada,
apenas alcançamos eventualmente a capacidade
de manifestar algo que, a nível absoluto, já
está criado. Mas é preciso entender como
abrir o coração e aprender incansavelmente
para poder vivenciar com primor aquele sonho que está
escrito, esperando por nós. Para escrever aquela
obra-prima que, potencialmente, nos foi destinada. Não
uma vidinha qualquer à qual sucumbimos, com desgosto
ou indiferença, por medo ou apatia, mas a nossa
Vida, com "V" maiúsculo, pois co-criada
e assim denominada por nós.
A festa está
fervilhando. Há pessoas de todas as proveniências
com tipos de vidas completamente diferentes. Mas não
importa quem elas são, apenas interessam a música
alta, as luzes delirantes, as roupas de marca, os corpos
arfantes, a anestesia alcoólica, as pupilas dilatadas
e reluzentes. As mãos procurando por membros
expostos, a fome buscando a carne fresca. Voltar para
casa sem ninguém pode ser sinônimo de fracasso.
É preciso ter molejo, é necessário
consumir. Bebidas picantes, músculos rijos, ter
histórias para contar depois. Para isso trabalhamos
o ano inteiro. Para poder nos oferecer alguns dias de
delírio e olvido após tantos meses de
labuta desgastante. Os sorrisos plásticos estão
colados às faces entre um gole e outro, os cheiros
se mesclam como coquetéis tropicais e já
não se sabe de onde vêm nem para onde vão.
A angústia espasmódica lampeja nos olhares
desatentos antes dela ser novamente camuflada pela euforia
mecânica. As palavras deixam os lábios
como bolhas que explodem no ar contra as palavras alheias.
Todos falam, mas ninguém escuta ninguém.
Não há tempo para isso. É
imperativo rir aos cacarejos e provar que somos felizes.
À medida que a noite passa dá para sacar
quem já comeu quem, mas não quer repetir,
quem vai comer quem, e querer esquecer logo depois,
quem até gostaria de comer alguém, mas
não pode, seja por falta dos atributos requeridos
pela moda vigente, seja por uma indesejada companhia
que está ao lado de fulano, que ele na verdade
não queria ter levado à festa nem manter
em sua vida, mas que tem que manter, por medo da solidão.
Tudo é
sexo. Já dizia meu padrasto e ele tinha razão.
O nascimento é a cabeça sendo expelida
por uma vagina suculenta rumo a um mundo sexuado. Muito
cedo as crianças começam a estudar e brincar
com suas genitálias, apesar da insistência
dos adultos para que estas permaneçam bem ocultas
e intocadas. Mas se um dia alguém pensou que
as roupas desviariam a atenção das partes
baixas, estava muito enganado. Inúmeras pessoas
se aprumam como pavões em busca de fêmeas.
Elas querem agradar. Nós somos todos, de uma
forma ou de outra, vampiros em busca de sangue. Queremos
aprovação, reconhecimento, os olhares
tatuando-se em nossas peles, queremos nos lembrar que
existimos através do toque das mãos dos
outros. Querer
ser queridos faz parte da nossa odisséia. Toda
criação humana é a energia sexual
se manifestando rumo ao louvor alheio. E até
mesmo aqueles que abdicam do sexo que se faz vivem o
sexo inexplícito das crenças e dos objetivos
a serem alcançados para experimentar o mesmo
tipo de enlevo, uma espécie de deleite sexuado.
No entanto,
apesar de ser o combustível que nos move, o sexo
é e sempre foi razão de discórdia.
Na história humana ele foi visto tanto como aberração
demoníaca quanto como objeto de idolatria sem
alma. O poder desta energia nos apavora e ao mesmo tempo
nos seduz. Nós tentamos de tudo para dominá-la.
Escolhemos a castidade, o autocontrole, os diferentes
tipos de união sexual, a constante sedução
ou a manipulação da sexualidade dos outros.
Quando não entendemos nada desta energia, a reprimimos
ou fazemos mau uso dela, nos tornamos violentos, fazemos
guerras, ou nos tornamos depressivos, definhando em
diversos tipos de lento ou rápido suicídio.
Várias são as ardilezas, mas nunca conseguimos
totalmente domar o rugir da vida dentro de nós.
E é bom que não sejamos capazes de fazê-lo,
pois a vida não quer ser domada.
A vida quer
ser vivida. Entretanto, para viver de verdade temos
que parar de fugir de quem somos. Temos que olhar no
espelho e ver tudo, aquilo que pensamos ser e todo o
resto submerso que faz a composição de
quem realmente somos. É muito triste ver tanta
infelicidade acontecendo em volta do sexo, ao redor
de um potencial que poderia nos levar ao êxtase
e nos fazer voar. Entretanto, para reverter isso temos
que parar a festa e começar a celebração.
Temos que achar o tempo de respirar, de realmente olhar
uns para os outros, de sentir o cheiro das entranhas
saindo pelas narinas, de entender de que tristezas e
alegrias essas entranhas são feitas, de sentir
a nossa mortalidade em cada toque e cada instante. É
bom brincar, mas não é isso que estamos
fazendo quando nos consumimos com ferocidade.
Paremos e
observemos com atenção o mundo à
nossa volta. Se olharmos bem, veremos a maioria das
pessoas andando com seus corpos vazios de sentido e
de emoção. Enxergaremos robôs funcionando
de acordo com os ponteiros da sociedade. "Olhe
para este tipo de roupa, compre este tipo de carro,
deseje este tipo de corpo, fale deste tipo de assunto,
tenha este tipo de sexo." Manipulados, manipulados,
manipulados. E infelizes. No fundo do fundo da alma,
naqueles momentos de silêncio dos quais geralmente
fugimos ou então nos quais nos escondemos, somos
um bando de desesperados. É isso que somos. E
é preciso ver a realidade, não negá-la
nem aprová-la, mas reconhecê-la, para poder
despertar, ir além dela e recriá-la de
outra forma.
Tudo é
sexo, é verdade, mas não sexo feito de
jovens e belos corpos e identidades imponentes que tem
que ser alimentadas, enfeitadas e endeusadas como se
pudessem ser poderosas, como se não fôssemos
todos, de qualquer maneira, acabar sendo deglutidos
por gosmentos vermes debaixo da terra. O sexo é
muito mais que corpos que se desejam, que imagens que
se vendem, que pessoas tentando constantemente ser e
aparecer, ter isso e aquilo, comer e foder umas as outras.
Trepar é uma delícia, mas o sexo pode
ser e é muito maior que isso. O enlevo que podemos
alcançar com a música sexual é
tão mais rebuscado e transcendental do que aquilo
que nos vendem como desejável que realmente dá
pena ver o que estamos fazendo. Hoje somos uma espécie
patética de andróides se masturbando com
prazeres baratos.
Entretanto, nós poderíamos estar sentindo.
Vibrando. Reluzindo. Inspirando. Criando. Descobrindo.
Mergulhando uns nos outros e, acima de tudo, na vida.
Vivendo cada instante como se ele fosse uma vagina sagrada
se abrindo para o nosso nascimento. Palpitando de um
tesão incomensurável pela existência.
Transbordando a excelência daqueles que não
se contentam com a mediocridade a nível algum.
É este tipo de transa, de vida, de encontros,
de trabalho, de amizades, de dimensão existencial
que cabe a nós invocar através da forma
com a qual damos cada passo. Não se trata de
controlar cada um de nossos atos, mas de se abrir. Escancarar
as pernas de nossas mentes estreitas e dementes. Derrubar
os padrões que impedem a expansão de nossos
sentidos. Buscar entender profundamente que o mundo
é maior que nossas idéias. Apenas quando
escolhermos o tesão pela vida acima de nossas
ridículas injeções de conforto
e segurança poderemos realmente acessar uma felicidade
possível.
Quando o champanhe
anuncia um ano novo feliz, a sensação
borbulhante é de que algo realmente poderia estar
acontecendo naquele exato momento. E está. Mas
a maioria de nós se esquece disso assim que acabam
a bebida e os feriados. Os sentidos embotados pela aceitação
de um mundo imbecil preferem ignorar que a felicidade
realmente só existe naquilo que é novo,
ou seja, constantemente redescoberto. A vida é
feita de ondas de energia sexual e palpitante. Nunca
seremos exímios amantes da vida e nunca teremos
uma vida orgástica se não nos tornarmos
conscientes que cada momento pede um novo movimento.
Hoje somos como cachorrinhos copulando uns com os outros
e fornicando as nossas próprias trajetórias.
Mas poderíamos ser como harpas devolvendo sons
de encantamento, nos comunicando com tudo aquilo que
existe, tocando a pele da vida com a plena consciência
do frisson que nela provocamos e deixando-nos envolver
por suas respostas orgânicas, por seus movimentos
constantes e surpreendentes, pela suavidade fluvial
de seu amor inebriante.
- Ontem passei a manhã conhecendo um pouquinho
da sua vida, viajando
nas suas histórias. Encantou-me sua redação
e me surpreendeu as suas
experiências. Que energia boa vc consegue passar...
impressionante...
Fico feliz em fazer parte dos que compartilham contigo
o trabalho
que vc vem desenvolvendo. Obrigada!
Renata (Rio de Janeiro)
A
Resistência Não-Violenta
- Pode contar comigo. Acabo de vir da Venezuela (Isla
Margarita), lugar mais sujo que já conheci. Tinha
até pneu na praia. Fiz a limpeza da praia com meu
namorado. Aqui em Jurerê as pessoas são mais
conscientes. Solange (Santa Catarina)
-
Já percebi que você é uma daquelas
pessoas que sofrem por milhares o que estas milhares
deveriam sofrer, pessoas como você sofrem porque
se sentem incapazes frente a incapacidade de todas as
outras, sei que é difícil, mas as vezes
tento entender tudo como um grande carma coletivo. Me
pergunto sempre como as pessoas podem não perceber
isso, ou não se tocar daquilo, é tudo
tão óbvio.....mas que fazer. Podemos juntar
estas milhares de pessoas como você que valem
por milhares e tentar fazer algo? Podemos começar
a fazer algo aqui mesmo, mas você sabe como é
difícil, tantas pessoas já tentaram e
desistiram.
Carmem (Bahia)
-A
idéia é essa mesmo. Adorei o texto (estava
com saudades)! Podes contar comigo para uma grande mobilização.
Também "piro" com essa degradação
em massa, violenta, frenética. Às vezes
fico tão triste que choro mesmo, pois desde sempre
a violência com a natureza e os animais me sensibilizaram
profundamente!
Giuliana (Porto Alegre)
-
CONTE COMIGO!!! BELA E URGENTE INICIATIVA. PARABÉNS
PELO POEMA.
RAÍ (Chapada Diamantina - Bahia)
-
Pois é Antonella, Esperemos que esse Obama não
seja mais um BLEFE na História da Humanidade
!
-Estou nos EEUU e vc. não tem ideia de como o
povo, pelo menos aquele que me rodeia, demonstra alegria
pela vitória do Obama. Isto me fez lembrar de
antecessores, como Luther King (o verdadeiro vitorioso)
e, ao mesmo tempo, de Monteiro Lobato que (não
sei se vc. conhece), escreveu, na década de 20,
o livro intitulado "O Presidente Negro", descrevendo
a ocasião que, nos EEUU, foi eleito o primeiro
presidente negro. Lobato previu o que aconteceu hoje,
pois, entre outras coisas, falou sobre o apoio do eleitor
feminino como sendo uma das causas da vitória
(veja Hilary Clinton).
Pena que o final do livro não foi muito agradável
aos negros.
Bjs. Queiroz (EUA)
- Antonella como sempre escrevendo coisas lindas.Hoje
é realmente um dia histórico, não
pelo simples fato de um negro ter alcançado o
poder num país de maioria branca , mas pelo fato
de podermos esperar algo da humanidade. Na verdade quem
elegeu Obama foi esta auto- proteção que
a humanidade cria sem perceber quando se vê ameaçada,
é a velha luta do bem contra o mal, então
temos a certeza de que o bem é realmente mais
forte porque é o antídoto que nos salva
da completa destruição, agora só
precisamos ter esta mesma força para salvar também
o planeta. Beijos, Carmem (Bahia)
-Nelson
Mandela mandou o seguinte telegrama para Obama: "Ihr
Sieg zeigt dass jeder Mensch irgendwo auf die Welt zu
träumen wagen sollte, die Welt in einen besseren
Ort zu verwandeln." ("Sua vitória demonstra
que todas as pessoas deveriam ousar sonhar em transformar
o mundo em um lugar melhor") Leda (Alemanha)
Está
Escrito
-Encanta-me
ler suas reflexões!!!
Damares (Espanha)
-Ah,
quisera eu ir tão fundo em busca de mim mesma!.
Às vezes eu sinto tanta tristeza e tanta saudade,
não sei de que e nem de quem, e estou sempre
tão insatisfeita com tudo... Espero poder viver,
um dia, na plenitude da minha essência.
Solange (Santa Catarina)
-
Muito bom. É maravilhoso quando assistimos com
clareza o rumo do nosso
destino. No momento isto está acontecendo comigo
também. Estou passando por um grave problema
de saúde, o que levou um amigo querido a me convidar
para um retiro espiritual no próximo fim de semana.
Ele tomou conhecimento do evento num lugar em Copacabana,
na rua Santa Leocádia, onde alguns monges ensinam
a meditação todas as quarta-feiras e onde
vou começar a freqüentar. Espero que vc
vivencie o seu sonho e que esteja feliz com o trabalho
a que o destino te conduziu.
Um beijo e Boa Sorte.
Lidoka
-É
isso aí... eu me sinto um pouco em transe na
cidade e com uma nostalgia incessante. Bom ler seu texto
para ter coragem de voltar para o meu caminho. Quando
a vida nos reserva um dom um pouco fora do habitual,
precisa ter persistência mesmo. Persistência
e fé na inteligência do ciclo da vida.
Boas traduções...Cris
O
Milagre da Morte
-
Com este texto, me fez recordar do meu pai que, se vivo
fosse, estaria este ano completando 100 anos e, conforme
vc. já sabe, a quem dediquei o meu livro "Recordações",
cujo exemplar lhe enviarei, assim que puder ir à
agencia do correio. Meu pai, poeta e cronista, também
morreu de câncer, aos 55 anos e, no final da sua
vida, ficou, durante 13 meses, hospitalizado no Hospital
Mario Kroef, dedicado a doentes em estado terminal.
Minha mãe, hoje com 95 anos, o acompanhou, ate
o ultimo suspiro, morando (este é o termo exato)
no mesmo hospital. Ele, com consciência plena
do seu estado, o aceitava com toda tranqüilidade,
ao ponto de ser escolhido pelas enfermeiras (freiras)
para consolar outros pacientes que não conseguiam
aceitar a doença e se revoltavam, Ate os seus
últimos dias ele escreveu e algumas das suas
obras eu editei em um livro "Rabiscos de Emoção",
que dei de pres