reflexões



Quando as Nuvens Dançam II


Índice
1 - Sem Assunto
2 - A Fúria Sanguinária
3 - A Resistência Não-Violenta
4 - O Novo Mundo
5 - A Inevitabilidade da Guerra
6 - O Milagre da Morte
7 - Está Escrito
8 - O Motor da Vida


     Comentários



1 - Sem Assunto

       
Às vezes falta o assunto. E é bom que seja assim.
       
Falamos demais. Pensamos mais ainda. Discutimos sobre muitas coisas, sobre quase tudo, e não chegamos a lugar nenhum. Andamos pela vida gesticulando, fazendo, dizendo, achando, afirmando isso e aquilo... E onde estamos agora?
       
Estamos aqui. Diante de uma tela de computador, entre quatro paredes, em um dia qualquer, no tal ano, na tal cidade, na tal rua, no tal número de casa e com o tal número de telefone. Uma sucessão de tais, um mapa de nossas vidas absurdas e fatais. Um dia de Natal, mais um entre inúmeros Natais antes, durante e depois de nós.
       
E mesmo assim, queremos mais. Buscamos algo, consciente ou inconscientemente, entre as linhas deste texto, em nosso cotidiano atabalhoado, nos rios de pensamentos que cuspimos ao acaso e dos quais nos esquecemos depois, em nossos desejos furtivos e naqueles maciços, que guiam os fios de nossas vidas de marionetes. E para onde vamos?
       
Para a morte. É isso aí. Mais ou menos rápido, menos ou mais devagar. Tanto faz. Fato é que é este o destino. E é o mesmo para todos nós. Este momento é apenas a parada do trem. Para não pensar nisso, queremos nos apropriar desta estação ferroviária, temos inveja do banco no qual o vizinho está sentado, construímos em volta de nosso assento uma fortaleza de valores compactos da cor do tijolo, brigamos com quem se encontra ao nosso redor porque queremos este lugar só para nós.
       
Sabor de folia. Bem-vindos à estação da vida.
       
E aqui estou eu, plena desta seiva vibrante e estapafúrdia, escrevendo para o silêncio entre uma e outra refeição abastada, entre um e outro abraço sincero. Hoje eu tenho bastante comida, amor borbulhante e, por isso e por tudo, uma gratidão palpitante me presenteia com eflúvios de uma estranha serenidade. Mesmo assim, ao escrever estas linhas não tenho a mínima vontade de colocar um vestido de bolas vermelhas e luzes piscantes, cantar Noite Feliz e desejar um "feliz" Natal e um "próspero" Ano Novo. Porque a felicidade que não temos pode nos engolir e a prosperidade que almejamos pode nos petrificar. A farsa mundana é tão hilária que dá vontade de vomitar.
       
No entanto, viver sem acreditar não existe. Não se trata de crer em Deus, no dinheiro, no vazio, em Buddha ou na evolução. Porque qualquer crença tem o poder assassino de nos estrangular. A não ser que ela seja orgânica e do tamanho do universo. A não ser que ela nos coloque na rota das estrelas. Pois somos peregrinos caminhando no escuro. É este o segredo da vida sensual. É aquele movimento que sentimos sem poder explicar, que nos leva a vibrar sem razão e com espanto.
       
Somos feitos de água cascateando pelos segundos que nos liquidificam quando nossos conceitos conseguiram nos congelar. Serpenteamos pelas sensações até evaporar e nos transformar em nuvens dançarinas. No baile das horas sem tempo as paredes se dissolvem e não precisamos mais de tudo aquilo que pensávamos precisar. Pois o sonho é maior. Ele nos leva sem que o percebamos, na balsa de um mundo mágico que existe nos confins de nossas idéias.
       
Queiramos o espaço além. Ofereçamos em cada ação e em cada decisão os metros de veias percorridas por nosso sangue febril até deflorar o coração. Não movamos nada que não venha dele e não volte para ele. Para o coração. Falemos com ele. Escutemos o que ele tem a dizer. Não há nem mais um minuto a perder. Celebremos agora porque não haverá outro Natal como este. Hoje é o dia de nosso nascimento. Quando nos envolvemos naquilo que nunca fomos, mas que a alma pede aos brados. Quando ardemos com religiosidade pelo amor difuso que se dá cegamente. Quando nos banhamos na cascata de ternura de uma existência cuja magnificência sempre transbordará de nosso entendimento. Quando exaltamos nossa presença ao ponto de ofuscarmos nossa identidade.
       
Eu não quero escrever apenas pulando de assunto em assunto e tampouco quero ser lida assim. Pois somos nós as linhas. Cada palavra desponta de um ponto de nossa alma como um fio de uma teia que nos tece tanto quanto nós a tecemos. Cada emoção é deglutida pela fome voraz de nossos anseios em chamas. Estou entrando em você e você está entrando em mim e nada vale a pena se não for assim. Ser o pólen da vida fertilizando o vento. Ser a música do mundo em cada movimento.
       
Natal é nascer. Nascer é morrer para tudo aquilo que passou e se abrir para tudo aquilo que sou e o que ainda nem sei que sou. Eu estou nascendo e não vou lavar a placenta. O que eu quero mesmo é me embriagar de gosma existencial. Ser uma consciência amorfa, uma desestruturação cristalina. Recriar o universo na ponta de meus dedos. Meu tesão me diz que o despontar da alma é de uma beleza ardente. Sou torpe, talvez, mas não posso limpar a pureza que floresce. Não posso ser nada além da planta que cresce e se oferece. Ser a flor aberta ao beijo do enlevo. Ser minha pele aturdida pelo sublime e por seu exímio torpor. Ser a fragilidade deste instante em todo o seu esplendor. Ser você.
       
Sejamos nós o pão e o vinho. Compartilhemos aquilo que somos potencialmente até que nos tornemos a multiplicação de nós mesmos. Sejamos nós um feliz Natal, ou seja, um nascimento feliz e perpétuo que reverbera além, muito além de nossas pequenas famílias, muito além de nossas pequenas vontades, muito além de nós, rumo à imensidão do ser.
       
Às vezes falta o assunto. E é bom que seja assim.

Antonella Zara

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2 - A Fúria Sanguinária

       Era um daqueles dias. Eu não em me lembro qual era o tema nem a razão da briga. De qualquer maneira, se formos suficientemente inteligentes para não guardar rancores inúteis e cancerígenos, passado algum tempo, geralmente nunca nos lembramos do fator deflagrador de um desentendimento. Apenas sei que, daquela vez, minha paciência estava sendo posta a mais uma dura prova. Foi durante um jantar de família. Uma das pessoas sentadas à mesa havia começado um longo e terrível monólogo, um daqueles insensíveis falatórios absolutamente convencidos da própria razão, sem aperceber-se que minha exasperação estava alcançando o delicado ponto no qual as piores coisas podem ser ditas e os mais graves erros cometidos sem pestanejar. Eu sabia que não agüentaria escutar aquela ladainha por muito mais tempo, mas também tinha consciência que qualquer ato poderia ainda piorar a situação. Deixar a mesa e sair do recinto, como era a minha vontade, provocaria um perfeito drama que a pessoa em questão evocaria a cada reencontro até que o último dos meus cabelos caísse de desespero. Levantar a voz e dar um basta, clamando pelo respeito que eu acreditava merecer, naquele momento apenas teria o efeito contrário, alimentaria a certeza do outro de ser uma eterna vítima e faria com que choramingasse indefinidamente, levando-me à inevitável loucura. Foi então que aconteceu. Calmamente, eu me levantei, virei as costas, abri o zíper e baixei minhas calças até que minhas nádegas estivessem bem à vista das pessoas da mesa, deixando bastante claro o que eu achava do assunto em pauta. Com a mesma calma, voltei a me vestir e a me sentar diante do olhar incrédulo de todos. Como em um passe de mágica, o monólogo foi interrompido.        O resto do jantar decorreu na mais perfeita paz.
       Quando as discussões acontecem, minha família não difere em nada das outras. Já dizia um sábio que, para saber o quão iluminados somos, basta vivermos com nossos pais ou parentes. Durante as desavenças, as máscaras bonitinhas, elegantes e simpáticas, reservadas para os outros, para os conhecidos e para muitos amigos, caem sem nenhuma sutileza e, então, vê-se a outra face. O rosto que não mostramos até ter aquela imensa, maravilhosa e terrível intimidade que apenas as relações de amor proporcionam. Feito de nossas fraquezas e idiossincrasias, de nossas merrecas e daquelas grandes merdas que adoramos esconder até de nós mesmos, de nossa chatice infinita e nossa irreprimível fealdade, nossa falta de compaixão, nosso orgulho e nossos medos. O mais triste é que sempre pensamos que tudo isto é apenas bagagem daqueles com quem convivemos. Raramente somos capazes de perceber o quão insuportáveis nós mesmos podemos ser. Ao falar dos outros, mal conseguimos esconder a soberba de nos acreditarmos tão melhores, mais equilibrados, mais justos, mais inteligentes, "mais" qualquer coisa que infle nosso gigantesco ego. No entanto, o famoso ditado popular que diz "quando um não quer, dois não brigam", aponta para o fato bastante óbvio de que, na maioria das brigas, ambas as partes geralmente estão erradas.
       Por outro lado, não se trata de ser sempre aquilo que alguns equivocadamente gostam de chamar de "zen" e, com isso, entendem um estado de passividade ou mutismo indiferente e uma espécie de agressividade inexpressiva, disfarçada de paz. Ser pacifista não é equivalente a ser passivo. A inação apática não passa de covardia e é um dos muitos truques daquilo que um escritor americano sabiamente chamou de "corpo de dor", a parte de nosso corpo emocional onde operam os nossos padrões emocionais e que literalmente é nutrida por nosso sofrimento, desenvolvendo elaboradas artimanhas para sempre gerar mais alimento, isto é, mais dor. A deliberada falta de participação na vida familiar ou social por medo ou aversão aos conflitos, que às vezes é confundida com espiritualidade ou autocontrole, faz com que a pessoa se abstenha de assumir a responsabilidade humana que lhe é inata e que faz parte da experiência da plenitude e realização a qual todos, consciente ou inconscientemente, aspiram.
       A palavra zen "vem do termo sânscrito dhyana, que denota o estado de concentração típico da prática meditativa. Na China, esse termo foi transliterado como channa, e logo reduzido à sua forma mais curta, chan. Daí para o coreano como s?n e finalmente para o japonês como zen." A prática de diferentes tipos de meditação nos ensina a observar o mundo de uma nova forma, nos coloca em contato com uma realidade dinâmica, mais complexa e profunda do que aquela que temos a capacidade de perceber apenas com nossos sentidos. Ela nos faz compreender que o universo em nós e ao nosso redor está sempre mudando e que grande parte da humanidade está sofrendo por causa de padrões emocionais adquiridos há muito tempo, às vezes desde a infância ou até antes disso, genetica ou carmicamente. Estes nos levam a reagir sempre da mesma forma, recriando situações antigas em conjunturas novas que, normalmente, pediriam por ações diferenciadas e criativas. Afiar nossa total e plena atenção ao momento presente observando suas inúmeras camadas, abdicar de nosso habitual padrão reacionário, ou seja, parar de reagir automaticamente e começar a agir guiados por um conhecimento intuitivo e uma aguçada inteligência emocional, isto é ser "zen".
       Não há quem não traga em si uma latente ou manifesta parcela de fúria sanguinária, herdada de nossos antepassados e necessária à sobrevivência nas cavernas e em outras condições adversas. E não há nada de errado com isso. Perceber a raiva primordial em nós e em todos ao nosso redor, entendê-la como um aspecto de nossa trajetória humana, nos ajuda a sair de nossas confortáveis, mas estáticas posições de vítima ou juiz. Saber quem somos profundamente, enxergar nossos demônios no espelho, compreendê-los e transcendê-los, nos abre às inúmeras e desconhecidas possibilidades que levamos em nós como um magnífico potencial adormecido. O ódio tem derramado rios de sangue e causado irreparáveis danos em nosso mundo. Se conseguirmos sentir a ira mortal e destrutiva que acomete e assola a humanidade e transformá-la dentro de nós, a fúria sanguinária de hoje se transformará em arte visionária e em amor libertador. Todo sangue derramado brutalmente será finalmente parte do passado, brotará como surpreendentes flores da criação e nos transportará a um oceano de múltiplas e fantásticas cores. Apenas então seremos, enfim, donos de nosso destino, detentores dignos de nossa energia vital, e criadores de um realmente admirável novo mundo.

Antonella Sigaud

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3 - A Resistência Não-Violenta

       "A Terra perdeu, em pouco mais de um quarto de século, quase um terço de sua riqueza biológica e recursos, e no atual ritmo, a humanidade necessitará de dois planetas em 2030 para manter seu estilo de vida, advertiu hoje o Fundo Mundial para a Natureza. A demanda da população excede em cerca de 30% a capacidade regeneradora da Terra, segundo o Relatório Planeta Vivo 2008, divulgado por esta organização ambientalista a cada dois anos sobre a situação ambiental dos ecossistemas."
       O trecho acima faz parte de um artigo publicado ontem na Internet. Já faz muito, imenso tempo que escutamos ou lemos notícias alarmantes. Eu bem sei que para a maior parte de nós não há nada a fazer em relação a isso. A tendência é ler a manchete, às vezes nem mesmo lê-la, e logo em seguida esquecer. Poucas horas depois ela desaparecerá como todas as outras, aliás, ela já desapareceu, dando lugar a outras atualidades que serão esquecidas com a mesma rapidez.
       Pessoalmente, desde pequena a crescente devastação de nosso planeta me alarmava e entristecia. Para mim sempre foi óbvio que a natureza é a nossa casa, que nós somos natureza, e o que fizermos a ela estaremos fazendo a nós mesmos. Até onde teremos que chegar para entender isso, para pararmos de aceitar esta situação? Quando é que cada um de nós despertará para o fato que é necessário que cada um de nós faça algo para mudá-la? Será que estamos esperando que falte água e comida para todos? Será que vamos realmente continuar a delegar a nossa responsabilidade e os resultados catastróficos de nossa passividade para outros, os políticos, as próximas gerações, nossos filhos e netos? Será que vamos continuar sendo robôs míopes, indo da casa para o trabalho e do trabalho para casa, pagando nossas continhas, cuidando só das coisinhas que nos interessam, pensando que o mundo vai tomar conta do resto? Será que vamos continuar achando tudo isso "normal", da mesma forma que achamos "normal" ser obrigados a colocar alarmes e muros em volta de nossas casas para não sermos roubados?        Perdoem-me, mas eu não consigo pensar assim. Eu não consigo aceitar isso.
       Para todos aqueles que não concordam com a loucura em massa, eu sugiro parar. Nem que seja por um dia. Vamos organizar uma greve em massa de UM DIA. Vamos fazer uma cidade, um país inteiro, se possível mais que um país, parar em protesto contra a devastação da natureza e a violência a todos os níveis. Se congregarmos muita gente, ninguém sairá prejudicado. Se Gandhi conseguiu parar a Índia há tantos anos atrás somente através da resistência não violenta, sem Internet nem nada, com certeza é possível fazer isso hoje. (Quem não conhecer a história de Gandhi, consulte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Mahatma_Gandhi ) Foi graças a Gandhi que a Índia conseguiu, em 1947, a Independência da Inglaterra. Quando um país inteiro pára, os governantes não têm outra escolha senão começar a escutar o povo e mudar.
       O Brasil é responsável pela Amazônia, uma das três grandes florestas tropicais do planeta, também chamada "o pulmão do mundo". Todos os dias imensas áreas do tamanho de alguns países europeus são devastadas sem que nada seja feito contra isso. Vamos mostrar ao mundo que merecemos a nossa floresta. Vamos transformar o Brasil em um exemplo de cidadania, vamos mostrar que somos cidadãos do mundo. Vamos chamar a atenção do mundo para o fato que NÃO DÁ PARA CONTINUAR ASSIM. Talvez isso também não ajude, mas é preciso fazer algo, é preciso começar de alguma forma. Quem quiser me ajudar a organizar isso em seu bairro e em sua cidade, por favor comece encaminhando esta mensagem para todos aqueles que conhece e depois entre em contato comigo. Estou pronta para dar toda a minha energia para fazer algo pelo nosso mundo. Quem me acompanha? Quem vai deixar sua descrença e seu sorriso cínico de lado e, pela primeira vez em sua vida, fazer um ato político de verdade ao invés de esperar que outros o façam por ele?
       Por hoje eu me despeço de todos deixando aqui um poema que escrevi aos dez anos de idade, o meu primeiro poema publicado em um livro do colégio onde eu estudava na época. Ele ganhou o quarto lugar de um concurso de poesias no qual as crianças falavam através de poemas da angústia que elas sentiam em relação àquilo que os adultos estavam fazendo. Hoje todas aquelas crianças cresceram. Nós nos tornamos adultos e nada mudou. Pelo contrário, só piorou.

Antonella Sigaud

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4 - O Novo Mundo

       Hoje é um dia de vitória. Hoje é um dia com o qual, durante séculos, muitos homens e mulheres sonharam, pelo qual muitos lutaram e morreram. Um dia de libertação. Certamente o futuro nos reservará dias piores e melhores, pois assim é a natureza da vida. Mas o dia de hoje é um dia de justa euforia. Milhões de pessoas vibraram no mundo inteiro, torceram pela eleição de um único homem. Não um deus, não um mártir nem um santo. Um homem como qualquer outro. Um homem que, ao falar de mudança, falou ao coração dos homens. Um homem negro.
       A história da humanidade, aquela que nos ensinaram nas escolas, é vergonhosa e sangrenta. Todos os grandes "feitos" do ser humano aconteceram graças ao massacre e à opressão de milhares, às vezes milhões, não somente seres humanos, mas de todos os seres vivos. No mundo inteiro ainda há violência terrível e gratuita, dirigida contra o meio-ambiente, contra inteiros grupos étnicos, políticos, religiosos ou filosóficos. Pessoas sofrem e são agredidas fisicamente ou indiretamente através da miséria, da exclusão, da segregação. Aqueles que construíram sua atual riqueza graças à extorsão e ao extermínio, hoje fecham covardemente suas fronteiras diante dos fugitivos do "terceiro mundo", um desastre ecológico que eles próprios criaram.
       Mas um homem falou em mudança e foi ouvido. Um homem que carrega na sua pele a cor de seus antepassados massacrados pela ignorância e pelo desdém. Ele disse que somos todos iguais e que somos responsáveis pelo nosso mundo. Ele falou primeiramente aos norte-americanos, mas no planeta inteiro pessoas levantaram suas bandeiras por ele. Mesmo que amanhã este homem não esteja à altura do fervor que ele suscitou nas massas e suas futuras escolhas embacem o brilho de seu triunfo, espero que muitos carreguem o dia de hoje como um talismã. Que saibam que é possível. Como quando Gandhi conseguiu a independência da Índia.        Como quando um operário chegou à presidência do Brasil. A superação existe.
       É claro, as coisas mudam o tempo inteiro. A própria superação acaba sendo sempre superada. Mas, a meu ver, o dia de hoje prova que o sonho não é apenas uma utopia sobre a qual alguns escritores, loucos, artistas, intelectuais e muitos outros escrevem, cantam, dançam, falam. O sonho é a mais alta realidade. O sonho está em nós, em nossas mãos. Não nas mãos de alguns poucos homens que, por fé, por força pessoal, por sorte, acaso ou destino, conseguem falar dele e representá-lo diante de milhões. Não. O sonho existe e está vivo no coração de toda a humanidade. Queremos um mundo melhor. Acreditamos nisso. Talvez ainda pensemos que precisamos de heróis, de líderes que façam tudo por nós, o que a própria história demonstrou ser uma ficção. Por mais heróico que seja um ser humano, ele não é nada sem os outros. Ele não alcança nada sem a ajuda de todos os indivíduos ao seu redor. Porque o povo é feito de indivíduos. O povo é feito de cada um de nós. Se hoje jogamos pedras naqueles que não souberam estar à altura de nosso sonho, deveríamos ir para frente do espelho e perguntar o que nós mesmos não estamos fazendo para ajudar aqueles que considerávamos nossos heróis. Pois os heróis somos nós. Cabe a nós mudar o mundo. Não em grandes discursos nem em dias de vitória como hoje. Temos que mudar o mundo no cotidiano, em pequenos e grandes gestos.        Quando acordamos, quando nos dirigimos aos nossos cônjuges. Quando julgamos nosso próximo, nossa família, amigos e inimigos pelos erros que, de uma maneira ou outra, nós também cometemos. Quando preferimos criticar a ajudar os outros. Quando desperdiçamos nosso potencial fazendo coisas inúteis. Quando alimentamos os mecanismos de morte, quaisquer que sejam eles. Quando não estamos dispostos a viver e morrer por nossos sonhos e esperamos isso dos outros.
       O dia de hoje é um dia de vitória como qualquer outro. Mas ele pode, também, ser um ponto de mutação. Um dia no qual escolhemos despertar para o herói que há dentro de nós. Não um ser superior, mas um ser único, como todos os outros, um ser perfeito dentro de um momento perfeito, com tudo aquilo que é necessário para tocar e transformar o mundo em volta de nós aqui e agora, tocando e transformando o mundo dentro de nós.

Antonella Sigaud

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5 - A Inevitabilidade da Guerra

       Durante um almoço do qual participei houve uma acirrada discussão com amigos. O tema eram as bombas atômicas jogadas em Hiroshima e Nagasaki em 1945, um tema ainda atual, visto que há cada vez mais potências nucleares, declaradas ou não. Havia, como em muitas discussões, duas posturas opostas: aqueles que são a favor e aqueles que são contra. Naquele específico almoço, falando sobre a guerra, eu também entrei em guerra. Meus adversários ficaram surpresos ao descobrir outra mulher em mim, não aquela que eles conheciam, geralmente calma e conciliadora, mas uma furiosa e intolerante guerreira. Perplexa pela estúpida incompreensão de viver em um mundo onde, ainda e sempre, tentam justificar o injustificável.
       A guerra é um fato. Ela faz parte da natureza humana e do mundo no qual vivemos. Estamos todos em guerra, com o planeta, com os outros ou com nós mesmos. Até aqueles que dizem ser pacifistas, até os individualistas, até mesmo os místicos e santos, todos participam da guerra humana através dos golpes de suas ações ou de sua inação. Pois somos todos conectados. Pois ninguém é uma ilha. Por isso, discutir sobre uma bomba monstruosa que aniquilou milhares da forma mais covarde possível com o pretexto de evitar a morte de milhões, é apenas aventurar-se no inferno que sempre existiu e ainda existe, aqui e agora, em volta e dentro de nós. Afinal, quem apertou aquele botão em 1945? Um ser humano, apoiado por muitos seres humanos. Alguém como eu. Como você. E do outro lado daquela batalha, o lado dos bombardeados, as atrocidades cometidas também foram inumeráveis e grotescas.
       Pensemos nas lutas mais próximas, aquelas que ocorrem entre familiares, amantes, inimigos ou entre marido e mulher. Embora estejamos talvez mais familiarizados com estas, isto não quer dizer muita coisa. Quando estamos em meio a uma batalha afetiva não é possível entender nada, nem mais nem menos do que quando dois países entram em guerra. Geralmente nesses momentos a nossa percepção se resume à nossa profunda dor, um sofrimento agudo, inerente à experiência da vida, que às vezes transborda e nos impele a fazer coisas que talvez nunca fizéssemos em outras situações, como ter acesso de fúria assassina, ter crises nervosas ou outras esquisitices do gênero.
       Lembro-me de um ataque de ciúmes que dei certa vez com um namorado. Estávamos em uma festa e, de repente, animadas talvez pela Lua Cheia, umas moças soltinhas começaram a tirar a roupa e se jogar na piscina bem à nossa frente. Uma delas era bastante jeitosa, motivo pelo qual o queixo de meu acompanhante caiu quase até o chão. Sei que isso é perfeitamente natural para muitos homens, para os quais geralmente as mulheres, pelo menos à primeira vista, não passam de partes de corpos a ser consumidas. Mas para mim a Lua também estava cheia e naquele dia eu não estava com paciência. Se o homem queria estar ao meu lado, que estivesse plenamente comigo, pois eu não tinha tempo a perder. Como este não era o caso e meu acompanhante estava mais inclinado a brincar com as raparigas na piscina do que pensar em mim, eu tive uma idéia.
       Sem hesitar, fui até o dono da festa, meio derretido por mim, e convidei-o a juntar-se a nós na piscina. Sem problema algum, imediatamente tirei eu também a minha roupa, na frente dele e de todos. Diferente do outro, pelo menos este tinha olhos para mim. E então mergulhei, juntando-me às minhas alegres coleguinhas de festa, diante dos olhos pasmos tanto do meu parceiro quanto do meu admirador. Este último atirou-se na piscina logo depois de mim, ansiosamente, como um tubarão que vai à caça, ou como se tivesse medo de sofrer um infarto a qualquer momento e perder tal fantástica oportunidade. Por outro lado, ainda confuso, sem saber se devia ter um rompante de ódio ou relaxar na ilha da fantasia, meu companheiro perguntou, meio sarcástico, meio curioso, o que eu faria agora, qual seria a próxima maluquice, se, por exemplo, a menina jeitosa e eu nos beijaríamos. Satisfazendo-lhe imediatamente a vontade, agarrei sem pestanejar a graciosa à força e beijei-a na boca enquanto ela, despreparada para o assalto, não sabia o que fazer com os próprios braços, que sacolejavam freneticamente ao seu redor. Logo depois, ataquei com um beijo também o meu anfitrião, que mal reagiu de espanto, e saí da piscina como se nada tivesse acontecido. Desnecessário dizer que tal comportamento valeu-me homéricas e terríveis brigas com meu amado, altercações furiosas de mais de um mês, permeadas por sessões de sexo incandescente e turbulento. Entramos em um turbilhão de emoções tempestuosas e explosivas do qual demoramos muito para sair e que deixou cicatrizes. Tudo isso por causa de um breve instante de ciúmes.
       Não vou dizer que, às vezes, não seja necessário quebrar o barraco. Às vezes precisamos, sim, nos manifestar, colocar a boca no trombone e ver o circo pegar fogo. Até para, eventualmente, vir a restaurar a casa ou queimar de vez estruturas apodrecidas. Mas é fato que, quando as pessoas discutem qualquer assunto, elas buscam ter razão e provar o erro do outro a qualquer preço. Eu também faço isso. Tanto naquele almoço, citado no começo, quanto na minha cena de ciúmes, eu fui à luta, completamente ciente de que não há vencedores em uma guerra. No entanto, no fim de cada batalha, por mais indispensável que seja, eu nunca consegui ser aquela que olha triunfante para trás. A guerra queima irreversivelmente. E também pode fazer mais forte.
       Mas o que leva à guerra? O budismo fala nas emoções destrutivas, aquelas que impulsionam as ondinhas e os tsunamis que se abatem sobre a humanidade, aquelas que são base tanto das pequenas guerras do cotidiano quanto das grandes guerras mundiais. O Vajrayana ensina, mais precisamente, sobre cinco principais emoções nocivas, subdividas em muitas vertentes. A ignorância está no centro delas e, ao redor dela, como conseqüências da ignorância, estão a cólera, o orgulho, o apego (ou/e desejo) e o ciúme (ou/e inveja). Impulsos emotivos como alegria, compaixão e amor não fazem parte dessas emoções, são consideradas energias essenciais e libertadoras. As outras, no entanto, se chamam, em tibetano, Nyön-mong. "Nyön representa confusão e Mong representa aquilo que obscurece a mente e a torna pesada. Mais além, a palavra latina emoção significa algo assim como: estar em movimento ou colocar em movimento. Portanto, uma emoção é algo que traz movimento."
       Mas não é preciso ser budista nem estudar o budismo para observar que, dependendo de como interpretamos uma emoção, daquilo que escolhemos pensar sobre ela, um movimento é iniciado em nossa mente e logo depois projetado ao mundo. Suas conseqüências podem ser ou construtivas ou desastrosas, ou até mesmo ambas as coisas. Mas não é fácil "escolher pensar" sobre algo que aparentemente sentimos. É como se o coração fosse uma imensa cebola com tantas camadas que é muito fácil nos perdermos sem saber em que camada está aquilo que realmente espelha alguma verdade sobre nós.
       No entanto, existem algumas ferramentas que, a longo prazo, ajudam a obter esta resposta. Entre elas: meditar, contemplar e orar. É preciso ter tempo, parar para escutar o coração. Estudá-lo com imensa atenção e profundo carinho, como se fosse um filho ou alguém que amamos muito. Isso é meditar. Contemplar pode ser entendido como "dar um tempo", entrar em estado de observação, abrir-se ao sagrado, confiar na vida como um rio imbatível, um fluxo do qual inevitavelmente fazemos parte, muito maior e mais vasto que nossa compreensão.
Orar é colocar-se em postura de serviço. Seja qual for a tempestade na qual nos encontramos, nós mentalmente nos abrimos à possibilidade de que existe uma escolha em nós que beneficiará mais e será melhor para todos os envolvidos. Nós "rezamos" ou dirigimos nossa atenção e energia para a consciência que nos habita (e a tudo aquilo que existe), mesmo que neste momento não a sintamos e estejamos imersos na confusão. Pedimos para que ela nos guie. Religamo-nos a ela e, assim, agimos de forma religiosa sem necessariamente precisarmos de religiões ou filosofias.
       Quando conseguimos praticar um ato forjado desta forma, percebemos imediatamente a imensa probabilidade do erro. Neste momento então, e apenas neste momento, nos tornamos plenamente humanos. Ao buscar a ação consciente recebemos de bônus o presente da humildade e da compaixão. Pois na vida humana a guerra é inevitável e nela todos estão sempre, em maior ou menor grau, errados.

Antonella Sigaud

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6 - O Milagre da Morte

       Hoje, dedico esta reflexão aos amigos e familiares que já se foram, e a todos os outros, vítimas passadas ou futuras da maior epidemia que sempre acometeu a humanidade, a morte. Segue um capítulo do meu novo romance, em vias de conclusão. Trata-se de uma obra de ficção, mas esta específica história que acontece com a protagonista alemã ocorreu de fato comigo. Apenas os nomes e alguns detalhes de menor importância foram alterados para encaixá-la na trama e preservar a identidade das pessoas envolvidas.
       Manoel era um espanhol tão ou mais apaixonado pela Bahia que talvez qualquer brasileiro. Ele tinha idade para ser meu pai, mas nem se notava a diferença entre nossas datas de nascimento à medida que nos aprofundávamos em empolgantes conversas sobre os mais variados temas, geralmente baseados em leituras que fizemos no decorrer de nossas vidas. Manoel trabalhou muitos anos lecionando jovens. Depois de cumprir a sua missão, aposentou e refugiou-se em sua casa baiana. Na maior parte de seu tempo ali, o que ele mais gostava de fazer - além da leitura, indissolúvel de seu cotidiano - era ficar sentado na varanda, da qual ele tinha uma privilegiada vista do mar. Assim ele ficava, por horas, perdido, e ao mesmo tempo encontrando-se, em profunda contemplação do mistério e da beleza da existência.
       Além de sua amizade e fabulosa cordialidade, de suas reflexões perspicazes que reverberavam em mim por dias, ele me deu um grande e inesquecível presente. Graças a ele eu pude presenciar pela primeira vez o milagre da morte, ao qual estamos todos destinados. Não sei exatamente quando ele descobriu que tinha um câncer, ele sempre foi muito discreto em relação a isso. Mas a enfermidade tomou gradativa e dolorosamente conta de seu corpo, apesar de todos os agressivos tratamentos aos quais ele se submetia.
       Quando o visitava, eu era escoltada até ele por Leni, a servil, silenciosa e jovem esposa baiana, que o ninou até entregá-lo aos braços da próxima esposa, aquela que é vista como maldição ou bênção, dependendo do ponto de vista. Em uma das visitas, sentei-me ao lado dele. Observei que estava sereno, ainda que lentamente devastado pela doença. A pele esverdeada colava-se paulatinamente aos ossos debilitados, os pômulos afundavam, desfigurando qualquer tentativa de sorrir da própria tragédia. Ele falava cada vez menos, mas suas poucas palavras referiam-se àquelas de alguns sábios cujas máximas ele guardara na fantástica memória. Certa vez ele até me segredou que escrevera algumas reflexões. Depois de sua morte, sua esposa generosamente compartilhou-as comigo. Seus olhos ficavam sempre abertos, perscrutando a vastidão do mar, aprofundando-se cada vez mais nela, como se estivesse a se preparar para o momento de fusão com o horizonte inalcançável.
       Seus últimos dias foram de imensa tristeza para aqueles que estiveram ao redor dele e presenciaram a dor devorando sua carne, tal qual um animal voraz e cheio de fome. Não sei até que ponto ele sentia pesar ou se na proximidade do aniquilamento nós apenas nos tornamos trêmulos, frágeis e abertos, uma chama fugaz dançando ao vento antes de ser reduzida a nada. Eu me sentava ali, colocava minha mão sobre seu corpo em vias de desaparecimento, cantava-lhe às vezes alguma canção ou lhe sussurrava palavras de conforto. Aquela era a única débil forma que eu tinha para lhe falar de amor, talvez o último dos remédios. E ficava a observá-lo, como faria quiçá uma criança que nada soubesse do valor nefasto que atribuímos à morte. Eu permanecia imóvel, tomada de espanto diante da imagem brutal e magnífica da mortalidade, dos limites da matéria transportando-se a um horizonte ilimitado. Quanta dignidade tinha aquele homem, já sem controle algum sobre seu corpo ou consciência, mas sem esquecer de chamar pela esposa, sempre que volvia de seus delírios febris, Leni, amor, donde estas, amor mio? E a mulher vinha, correndo, os olhos marejados, nos lábios um sorriso quando ele lhe pedia, pela enésima vez, um pouco de água ou uma massagem, sentando-se prontamente atrás dele e entregando-se a um paciente acarinhar das costas ressequidas.
       No último dia, fui vê-lo no hospital de Porto Seguro. Um tubo atravessava-lhe as narinas, seu corpo latia de desconforto, a alma querendo já saltar para fora do organismo. Este servira pelo tempo necessário, mas a visível deterioração o aproximava com crescente rapidez do inevitável fim. Entre uma e outra ausência deliriosa, Manoel olhou para mim, reconhecendo-me e apertando minha mão entre seus dedos frios:
       _Marianne...
       O que poderia dizer eu num momento como aqueles? Intimidada pela eloqüência da morte, eu apenas sussurrei:
       _Aceite, Manoel. Aceite aquilo que está lhe acontecendo. Abra o seu coração.
       Ele olhou para mim, surpreso e amedrontado, e respondeu com bastante dificuldade:
       _Meu coração está bloqueado.
       Medo. Nosso primeiro e último desafio. Ele continuou:
       _Como faço, Marianne? Como abro meu coração?
       Talvez apenas uma criança saiba responder a perguntas sem resposta. Creio até que foi a criança, aquela que eu fora um dia, a criança dentro de mim, que respondeu:
       _Faça mágica.
       _Mágica?
       _Sim. Mágica.
       Por um momento, ele pareceu sorrir e os olhos dele brilharam. Mais tarde gostei de imaginar que, ao partir, eles enxergaram o horizonte que ele pensava ter perdido, mas que pela primeira e única vez conheceria de verdade. Quando, no dia seguinte, fui ao seu enterro, antes de fecharem o caixão, ainda pude ver um sorriso sobre os lábios descoloridos. Seu corpo já começava a enrijecer e esfriar. Era o mistério da carne com a qual nos identificamos por tanto tempo, que nos acompanha e serve, mas que deixa de nos representar quando a vida resolve desfazer-se dela.
       Conhecidos e amigos, chegamos todos ao cemitério juntamente com uma pancada de chuva tropical. Ajudado por outros trabalhadores, reclamando em alto baianês das dificuldades de sua árdua tarefa, o coveiro acabou de cavar o buraco na terra avermelhada e umedecida pela água, caindo abundante dos céus. Não havia padre, pois Manoel não cultuava nenhuma religião. Nem lápide nem ritual havia. Algumas pessoas chocaram-se com aquilo, eu prosseguia estranhamente embevecida e emocionada. A normalidade aparente com a qual tudo estava sendo feito e o silêncio desprovido de adornamentos dava a impressão de que, para todos ali presentes, aquela talvez fosse apenas uma pausa entre dois turnos de outros afazeres rotineiros, e provavelmente era. Embora eu sempre tivesse uma predileção por rituais, percebi naquele momento que, na verdade, a vida e a morte dispensavam enfeites, e bastavam-se perfeitamente a si mesmas. Como se para dar ênfase ao meu pensamento, uma revoada de inúmeros pássaros cruzou o céu e instalou-se sobre um fio elétrico próximo a nós, sentando-se nos melhores camarotes. Com o consentimento da esposa, pedi a todos, inclusive ao indócil e pitoresco coveiro e a seus ajudantes ruidosos, um momento de silêncio em homenagem a Manoel. Nós o encerramos com uma salva de palmas para aquele que partira em sua última aventura.
       Naquela noite, enquanto eu dormia, o mar me disse: "no oceano turbulento da vida, começamos a morrer no dia em que nascemos. Lembre-se sempre de viver plenamente a cada novo instante."

Antonella Sigaud

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7 - Está Escrito

       Todo trabalho feito com o coração é uma forma de manifestar a essência divina e ser útil ao universo. Mas não é fácil saber qual a nossa missão. E quando a descobrimos, não é fácil realizá-la. A alma gosta de desafios. Nada que valha real e profundamente a pena nesta vida é fácil. A realidade, ou aquilo que chamamos de realidade, que nossos antepassados inventaram e do que hoje somos, em maioria, nada mais que escravos, não gosta muito dos sonhadores.
       Como já faz tempo que eu fiz a escolha de perseguir meu sonho profissional, custe o que custar, é claro que a "realidade" não gosta muito disso. Ela me testa, judia de mim, tenta me convencer a desistir. Talvez um dia ela vença a guerra, mas por enquanto eu continuo batalhando. Esta guerra já dura há onze anos. Perdi inúmeras batalhas e tive incontáveis momentos de tristeza e exaustão, mas as poucas que venci me deram uma soberba energia. A força necessária para ainda seguir em frente.
       Há três anos atrás, em um dos muitos momentos de frustração de meu caminho, quando tudo me parecia extremamente lento e difícil, pedi à Vida para me sentir útil. Não em um futuro, próximo ou distante, no qual eventualmente meus esforços alcançariam o objetivo sonhado, mas imediatamente. Alguns dias depois, uma grande amiga me ligou perguntando se eu queria traduzir um livro de um lama do budismo tibetano com ela. Percebendo que meu pedido havia sito atendido e não prejudicaria meu sonho, não hesitei em aceitar. Coincidentemente, pouco depois disso, vários lamas (ou monges) da escola Kagyü começaram a vir à pequena cidade onde moro atualmente dar ensinamentos e eu continuei a traduzir palestras e textos do alemão, inglês e francês para o português. Comecei também a me aprofundar no estudo desta específica linhagem.
       Como eu já escrevi em outro texto, além de ser uma filosofia, o budismo tibetano também tem muitos aspectos ritualísticos, semelhantes a qualquer outra religião. No entanto, como até recentemente eu nunca tinha tido nenhuma religião nem feito parte de nenhum grupo e, ainda por cima, era avessa a compromissos, uma nova guerra começava a travar-se em mim. Percebi que meu desejo de ser útil acabara me levando a praticar e quase adotar uma nova religião - além da católica, minha herança cultural, com a qual me reconciliei gradualmente e, após muitos anos de briga, na qual fui batizada há um ano e meio, por própria escolha. Comecei a questionar a autenticidade daquele caminho.
       Nesta época um lama veio à minha cidade e ofereceu ao nosso grupo a possibilidade de fazermos mais um intenso retiro de meditação. Embora eu já conhecesse os benefícios de tal prática e estivesse inclinada a fazê-lo, resolvi recusar e tirar aquele tempo para viajar. Como estava com pouco dinheiro, coloquei a minha barraca na mochila e fui conhecer a Chapada Diamantina. Foi uma idéia magnífica, pois se trata de um dos lugares mais belos que já vi em minha vida. Após uma viagem de dois dias em dois ônibus, cheguei a uma pequena cidade na qual eu ainda tinha que pagar um táxi que me levasse aonde eu queria ir, um vilarejo que ficava em um vale na floresta, o que significava mais uma hora de viagem e muitos solavancos por uma estrada de terra. Além de mim, havia apenas mais uma mulher que queria fazer o percurso. Concordamos em dividir o preço do táxi. Entretanto, por ser moradora do tal vilarejo, ela não gostou nada do preço que o taxista pediu. Começou então uma briga acirrada entre ela e todos os taxistas. Ela gritava e gesticulava com eles enquanto entrávamos e saíamos dos carros com nossas bagagens ao ouvir os preços. Cansada da viagem, tentei sugerir que ela se acalmasse. Um dos motoristas até mesmo estendeu-lhe um livro e pediu que ela lesse um trecho em especial. Como ela estava sem óculos, eu li a página aberta em voz alta. Era um belo texto do Chico Xavier. Finalmente mais calma, ela aceitou o preço sugerido pelo homem, um pouco mais barato do que os outros.
       Já na estrada, ela e eu começamos a conversar. Ela perguntou onde eu passaria a noite e eu disse que procuraria por uma pousadinha barata, pois no dia seguinte estava disposta a acampar. Ao ouvir aquilo, imediatamente ela me ofereceu para pernoitar em sua casa. Como inicialmente ela parecera um pouco doida, hesitei um pouco, mas acabei aceitando. Ao chegarmos à sua casa, uma bela construção em meio à mata, em frente a uma xícara de café fumegante, contamo-nos nossas vidas. Para meu imenso espanto, descobri que Izabella, este era o nome dela, começara a estudar o budismo tibetano há anos atrás e também fora tradutora de lamas. Por causa de uma série de graves problemas que devastaram a sua vida emocional, de uma forte depressão e do uso contínuo de antidepressivos, ela não conseguira dar continuidade à sua prática de meditação. Foi então que ela me perguntou:
       _Sabe, Antonella, daqui a três dias uma monja inglesa virá dar uma palestra aqui. Eu não tenho meditado, estou um pouco nervosa e não estou bem de saúde. Você não poderia fazer a tradução para mim?
       Três dias depois lá estava eu, traduzindo novamente os ensinamentos do Buddha, só que desta vez em uma capela no meio de uma floresta... Fiquei onze dias hospedada na casa de Izabella, caminhando em trilhas no meio da floresta, banhando-me em cachoeiras de água límpida e meditando, com e sem minha anfitriã. Desde então, meu coração ficou mais tranqüilo em relação ao que está acontecendo comigo.
       É saudável questionar. Mas quando, apesar dos questionamentos, a Vida nos indica o caminho, vale a pena se abrir e mergulhar fundo. Todo artista conhece a sensação que acompanha qualquer criação, o sentimento muito claro de que nós não criamos nada, apenas alcançamos eventualmente a capacidade de manifestar algo que, a nível absoluto, já está criado. Mas é preciso entender como abrir o coração e aprender incansavelmente para poder vivenciar com primor aquele sonho que está escrito, esperando por nós. Para escrever aquela obra-prima que, potencialmente, nos foi destinada. Não uma vidinha qualquer à qual sucumbimos, com desgosto ou indiferença, por medo ou apatia, mas a nossa Vida, com "V" maiúsculo, pois co-criada e assim denominada por nós.

Antonella Sigaud

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8 - O Motor da Vida

       A festa está fervilhando. Há pessoas de todas as proveniências com tipos de vidas completamente diferentes. Mas não importa quem elas são, apenas interessam a música alta, as luzes delirantes, as roupas de marca, os corpos arfantes, a anestesia alcoólica, as pupilas dilatadas e reluzentes. As mãos procurando por membros expostos, a fome buscando a carne fresca. Voltar para casa sem ninguém pode ser sinônimo de fracasso. É preciso ter molejo, é necessário consumir. Bebidas picantes, músculos rijos, ter histórias para contar depois. Para isso trabalhamos o ano inteiro. Para poder nos oferecer alguns dias de delírio e olvido após tantos meses de labuta desgastante. Os sorrisos plásticos estão colados às faces entre um gole e outro, os cheiros se mesclam como coquetéis tropicais e já não se sabe de onde vêm nem para onde vão. A angústia espasmódica lampeja nos olhares desatentos antes dela ser novamente camuflada pela euforia mecânica. As palavras deixam os lábios como bolhas que explodem no ar contra as palavras alheias. Todos falam, mas ninguém escuta ninguém. Não há tempo para isso.        É imperativo rir aos cacarejos e provar que somos felizes. À medida que a noite passa dá para sacar quem já comeu quem, mas não quer repetir, quem vai comer quem, e querer esquecer logo depois, quem até gostaria de comer alguém, mas não pode, seja por falta dos atributos requeridos pela moda vigente, seja por uma indesejada companhia que está ao lado de fulano, que ele na verdade não queria ter levado à festa nem manter em sua vida, mas que tem que manter, por medo da solidão.
       Tudo é sexo. Já dizia meu padrasto e ele tinha razão. O nascimento é a cabeça sendo expelida por uma vagina suculenta rumo a um mundo sexuado. Muito cedo as crianças começam a estudar e brincar com suas genitálias, apesar da insistência dos adultos para que estas permaneçam bem ocultas e intocadas. Mas se um dia alguém pensou que as roupas desviariam a atenção das partes baixas, estava muito enganado. Inúmeras pessoas se aprumam como pavões em busca de fêmeas. Elas querem agradar. Nós somos todos, de uma forma ou de outra, vampiros em busca de sangue. Queremos aprovação, reconhecimento, os olhares tatuando-se em nossas peles, queremos nos lembrar que existimos através do toque das mãos dos outros.        Querer ser queridos faz parte da nossa odisséia. Toda criação humana é a energia sexual se manifestando rumo ao louvor alheio. E até mesmo aqueles que abdicam do sexo que se faz vivem o sexo inexplícito das crenças e dos objetivos a serem alcançados para experimentar o mesmo tipo de enlevo, uma espécie de deleite sexuado.
       No entanto, apesar de ser o combustível que nos move, o sexo é e sempre foi razão de discórdia. Na história humana ele foi visto tanto como aberração demoníaca quanto como objeto de idolatria sem alma. O poder desta energia nos apavora e ao mesmo tempo nos seduz. Nós tentamos de tudo para dominá-la. Escolhemos a castidade, o autocontrole, os diferentes tipos de união sexual, a constante sedução ou a manipulação da sexualidade dos outros. Quando não entendemos nada desta energia, a reprimimos ou fazemos mau uso dela, nos tornamos violentos, fazemos guerras, ou nos tornamos depressivos, definhando em diversos tipos de lento ou rápido suicídio. Várias são as ardilezas, mas nunca conseguimos totalmente domar o rugir da vida dentro de nós. E é bom que não sejamos capazes de fazê-lo, pois a vida não quer ser domada.
       A vida quer ser vivida. Entretanto, para viver de verdade temos que parar de fugir de quem somos. Temos que olhar no espelho e ver tudo, aquilo que pensamos ser e todo o resto submerso que faz a composição de quem realmente somos. É muito triste ver tanta infelicidade acontecendo em volta do sexo, ao redor de um potencial que poderia nos levar ao êxtase e nos fazer voar. Entretanto, para reverter isso temos que parar a festa e começar a celebração. Temos que achar o tempo de respirar, de realmente olhar uns para os outros, de sentir o cheiro das entranhas saindo pelas narinas, de entender de que tristezas e alegrias essas entranhas são feitas, de sentir a nossa mortalidade em cada toque e cada instante. É bom brincar, mas não é isso que estamos fazendo quando nos consumimos com ferocidade.
       Paremos e observemos com atenção o mundo à nossa volta. Se olharmos bem, veremos a maioria das pessoas andando com seus corpos vazios de sentido e de emoção. Enxergaremos robôs funcionando de acordo com os ponteiros da sociedade. "Olhe para este tipo de roupa, compre este tipo de carro, deseje este tipo de corpo, fale deste tipo de assunto, tenha este tipo de sexo." Manipulados, manipulados, manipulados. E infelizes. No fundo do fundo da alma, naqueles momentos de silêncio dos quais geralmente fugimos ou então nos quais nos escondemos, somos um bando de desesperados. É isso que somos. E é preciso ver a realidade, não negá-la nem aprová-la, mas reconhecê-la, para poder despertar, ir além dela e recriá-la de outra forma.
       Tudo é sexo, é verdade, mas não sexo feito de jovens e belos corpos e identidades imponentes que tem que ser alimentadas, enfeitadas e endeusadas como se pudessem ser poderosas, como se não fôssemos todos, de qualquer maneira, acabar sendo deglutidos por gosmentos vermes debaixo da terra. O sexo é muito mais que corpos que se desejam, que imagens que se vendem, que pessoas tentando constantemente ser e aparecer, ter isso e aquilo, comer e foder umas as outras. Trepar é uma delícia, mas o sexo pode ser e é muito maior que isso. O enlevo que podemos alcançar com a música sexual é tão mais rebuscado e transcendental do que aquilo que nos vendem como desejável que realmente dá pena ver o que estamos fazendo. Hoje somos uma espécie patética de andróides se masturbando com prazeres baratos.
Entretanto, nós poderíamos estar sentindo. Vibrando. Reluzindo. Inspirando. Criando. Descobrindo. Mergulhando uns nos outros e, acima de tudo, na vida. Vivendo cada instante como se ele fosse uma vagina sagrada se abrindo para o nosso nascimento. Palpitando de um tesão incomensurável pela existência. Transbordando a excelência daqueles que não se contentam com a mediocridade a nível algum. É este tipo de transa, de vida, de encontros, de trabalho, de amizades, de dimensão existencial que cabe a nós invocar através da forma com a qual damos cada passo. Não se trata de controlar cada um de nossos atos, mas de se abrir. Escancarar as pernas de nossas mentes estreitas e dementes. Derrubar os padrões que impedem a expansão de nossos sentidos. Buscar entender profundamente que o mundo é maior que nossas idéias. Apenas quando escolhermos o tesão pela vida acima de nossas ridículas injeções de conforto e segurança poderemos realmente acessar uma felicidade possível.
       Quando o champanhe anuncia um ano novo feliz, a sensação borbulhante é de que algo realmente poderia estar acontecendo naquele exato momento. E está. Mas a maioria de nós se esquece disso assim que acabam a bebida e os feriados. Os sentidos embotados pela aceitação de um mundo imbecil preferem ignorar que a felicidade realmente só existe naquilo que é novo, ou seja, constantemente redescoberto. A vida é feita de ondas de energia sexual e palpitante.        Nunca seremos exímios amantes da vida e nunca teremos uma vida orgástica se não nos tornarmos conscientes que cada momento pede um novo movimento. Hoje somos como cachorrinhos copulando uns com os outros e fornicando as nossas próprias trajetórias. Mas poderíamos ser como harpas devolvendo sons de encantamento, nos comunicando com tudo aquilo que existe, tocando a pele da vida com a plena consciência do frisson que nela provocamos e deixando-nos envolver por suas respostas orgânicas, por seus movimentos constantes e surpreendentes, pela suavidade fluvial de seu amor inebriante.

Antonella Sigaud

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     Comentários


- Ontem passei a manhã conhecendo um pouquinho da sua vida, viajando
nas suas histórias. Encantou-me sua redação e me surpreendeu as suas
experiências. Que energia boa vc consegue passar... impressionante...
Fico feliz em fazer parte dos que compartilham contigo o trabalho
que vc vem desenvolvendo. Obrigada!
Renata (Rio de Janeiro)


A Resistência Não-Violenta

- Pode contar comigo. Acabo de vir da Venezuela (Isla Margarita), lugar mais sujo que já conheci. Tinha até pneu na praia. Fiz a limpeza da praia com meu namorado. Aqui em Jurerê as pessoas são mais conscientes. Solange (Santa Catarina)

- Já percebi que você é uma daquelas pessoas que sofrem por milhares o que estas milhares deveriam sofrer, pessoas como você sofrem porque se sentem incapazes frente a incapacidade de todas as outras, sei que é difícil, mas as vezes tento entender tudo como um grande carma coletivo. Me pergunto sempre como as pessoas podem não perceber isso, ou não se tocar daquilo, é tudo tão óbvio.....mas que fazer. Podemos juntar estas milhares de pessoas como você que valem por milhares e tentar fazer algo? Podemos começar a fazer algo aqui mesmo, mas você sabe como é difícil, tantas pessoas já tentaram e desistiram.
Carmem (Bahia)

-A idéia é essa mesmo. Adorei o texto (estava com saudades)! Podes contar comigo para uma grande mobilização. Também "piro" com essa degradação em massa, violenta, frenética. Às vezes fico tão triste que choro mesmo, pois desde sempre a violência com a natureza e os animais me sensibilizaram profundamente!
Giuliana (Porto Alegre)

- CONTE COMIGO!!! BELA E URGENTE INICIATIVA. PARABÉNS PELO POEMA.
RAÍ (Chapada Diamantina - Bahia)

- Estou nessa contigo!!!! Vamos começar a organizar algo sim!!!
Soeliz.(Bahia)


O Novo Mundo

- Pois é Antonella, Esperemos que esse Obama não seja mais um BLEFE na História da Humanidade !
-Estou nos EEUU e vc. não tem ideia de como o povo, pelo menos aquele que me rodeia, demonstra alegria pela vitória do Obama. Isto me fez lembrar de antecessores, como Luther King (o verdadeiro vitorioso) e, ao mesmo tempo, de Monteiro Lobato que (não sei se vc. conhece), escreveu, na década de 20, o livro intitulado "O Presidente Negro", descrevendo a ocasião que, nos EEUU, foi eleito o primeiro presidente negro. Lobato previu o que aconteceu hoje, pois, entre outras coisas, falou sobre o apoio do eleitor feminino como sendo uma das causas da vitória (veja Hilary Clinton).
Pena que o final do livro não foi muito agradável aos negros.
Bjs. Queiroz (EUA)

- Antonella como sempre escrevendo coisas lindas.Hoje é realmente um dia histórico, não pelo simples fato de um negro ter alcançado o poder num país de maioria branca , mas pelo fato de podermos esperar algo da humanidade. Na verdade quem elegeu Obama foi esta auto- proteção que a humanidade cria sem perceber quando se vê ameaçada, é a velha luta do bem contra o mal, então temos a certeza de que o bem é realmente mais forte porque é o antídoto que nos salva da completa destruição, agora só precisamos ter esta mesma força para salvar também o planeta. Beijos, Carmem (Bahia)

-Nelson Mandela mandou o seguinte telegrama para Obama: "Ihr Sieg zeigt dass jeder Mensch irgendwo auf die Welt zu träumen wagen sollte, die Welt in einen besseren Ort zu verwandeln." ("Sua vitória demonstra que todas as pessoas deveriam ousar sonhar em transformar o mundo em um lugar melhor") Leda (Alemanha)


Está Escrito

-Encanta-me ler suas reflexões!!!
Damares (Espanha)

-Ah, quisera eu ir tão fundo em busca de mim mesma!. Às vezes eu sinto tanta tristeza e tanta saudade, não sei de que e nem de quem, e estou sempre tão insatisfeita com tudo... Espero poder viver, um dia, na plenitude da minha essência.
Solange (Santa Catarina)

- Muito bom. É maravilhoso quando assistimos com clareza o rumo do nosso
destino. No momento isto está acontecendo comigo também. Estou passando por um grave problema de saúde, o que levou um amigo querido a me convidar para um retiro espiritual no próximo fim de semana. Ele tomou conhecimento do evento num lugar em Copacabana, na rua Santa Leocádia, onde alguns monges ensinam a meditação todas as quarta-feiras e onde vou começar a freqüentar. Espero que vc vivencie o seu sonho e que esteja feliz com o trabalho a que o destino te conduziu.
Um beijo e Boa Sorte.
Lidoka

-É isso aí... eu me sinto um pouco em transe na cidade e com uma nostalgia incessante. Bom ler seu texto para ter coragem de voltar para o meu caminho. Quando a vida nos reserva um dom um pouco fora do habitual, precisa ter persistência mesmo. Persistência e fé na inteligência do ciclo da vida. Boas traduções...Cris


O Milagre da Morte

- Com este texto, me fez recordar do meu pai que, se vivo fosse, estaria este ano completando 100 anos e, conforme vc. já sabe, a quem dediquei o meu livro "Recordações", cujo exemplar lhe enviarei, assim que puder ir à agencia do correio. Meu pai, poeta e cronista, também morreu de câncer, aos 55 anos e, no final da sua vida, ficou, durante 13 meses, hospitalizado no Hospital Mario Kroef, dedicado a doentes em estado terminal. Minha mãe, hoje com 95 anos, o acompanhou, ate o ultimo suspiro, morando (este é o termo exato) no mesmo hospital. Ele, com consciência plena do seu estado, o aceitava com toda tranqüilidade, ao ponto de ser escolhido pelas enfermeiras (freiras) para consolar outros pacientes que não conseguiam aceitar a doença e se revoltavam, Ate os seus últimos dias ele escreveu e algumas das suas obras eu editei em um livro "Rabiscos de Emoção", que dei de pres