peregrina

Introdução

Poemas são, para mim, sentimentos condensados, emoções sublimadas, momentos eternizados, enfim, vida, em sua mais essencial expressão. Não são necessárias muitas palavras para dizer o indizível. Mas ao mesmo tempo, o intangível quer ser constantemente manifestado através de nós. Não creio que seja por busca de uma forma absoluta, que não existe, e sim pela necessidade de celebração através de todas as possíveis formas. A festa dos sentidos é intrínseca à existência.
Por isso eu venero a volúpia, que para mim significa prazer existencial profundo, e que se manifesta nas emoções, no delicioso e no doloroso, e muito além de quaisquer formas. Este livro é uma ode a volúpia. Através desta coletânea de poemas que escrevi desejo que ela se desnude de tal maneira que alguns poderão sentir seu odor, exalando das páginas como uma fragrância secreta e sublime, e que ela invada suas vidas, transformando-as com subtilidade e com deleite, fazendo brilhar os momentos, devolvendo-lhes sua real natureza mágica. Enfim, infectando você, leitora, leitor, com o sagrado vírus da volúpia.

Antonella Zara




Índice

- A Saudade
- O Desejo
- Reencontro


1. Ousadia
2. O Nome Dela
3. Feliz Aniversário

4. Mundo Absurdo
5. Ondas
6. Natureza

1. Conversa com o Diabo

2. É de Poesia
3. Sem Fundo

4. 26 de Maio
5. Brisa Matinal
6. Inferno
7. Inhame Com Hortelã
8. Menino Baiano
9. Poema da Gratidão
10. Poema da Mãe
11. Poema da Mulher que Amou
12. Poema da Raiva
13. Poema do Amor Distante
14. Poema do Amor Não Consumado
15. Poema do Amor Perdido
16. Poema do Avançar
17. Poema do Novo Homem
18. Poema do Ser sem Ser
19. Poema do Trem
20. The Magician
21. Voluptuosamente
22. Volúpia
23. A Água e a Fonte
24. L'Étoile Filante
25. Mãe e Filha
26. A Chuva
27. Marido e Mulher
28. Nevasca






A Saudade

A saudade é ali onde não há espaço
É o peito retraído sem ar
É a sensação de nenhum lugar
Estar doendo sem saber onde
Estar sofrendo de estar
É buscar sem nunca achar
Todos os lugares é nenhum lugar
As cores escorrendo das coisas
As coisas se perdendo das formas
É ausência ao começar
E terminar com reticências
É a música de um grito vulgar
Porque a única saída é gritar
São as telhas quebradas no teto
É o feto que não nasceu
É o lar despedaçado
É o fado da melancolia
É não haver noite nem dia
É a melodia do amor que chora
É perder a hora sem perceber
Quando o tempo for embora
É a vida estéril e exilada
E é a última morada




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O Desejo

O desejo é a fome da alma
É quando ser só não basta
É berro de angústia no peito
É necessidade de estar vivo
É pegar na carne alheia
Para saber que de carne sou feita
É olhar nos olhos do outro
Para sentir que ainda existo
O outro é só pretexto, é um desajeito
É dar a culpa aos inocentes
E depois cravar os dentes
O desejo é o fogo da alma
É a mulher cadela
É o homem capacho
É querer e nunca ter
É sexo por sexo,  gozo por gozo
É comer sem se saciar
É novela das oito, é uma mente vulgar
O desejo é a essência da alma
É quando ela quer se superar
É querer transcender e ascender
É a poesia vencendo o sono
É o deleite além da fome
É o caminho ao êxtase
É quando viver é mais forte
Que a liberdade de morrer e a morte



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Reencontro

As brancas horas frias
Luz franca de aeroportos
Sombrios trilhos vazios
Mais um porto sem barcos
Vagar a esmo pelos mares
Explorar incansáveis horizontes
Desbravar insondáveis lugares
Ansiar sempre voltar à fonte
É o caminho dos ventos
É transportar as nuvens
Viajar pelos tempos
Chover doces miragens
É esperar pelo amado
Estar tão próximo à morte
A esperança no inverno
E de todas, é a fé mais forte



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Ousadia

Eu sou escritora
Não porque eu sei escrever
Eu não sei escrever
Eu não sei saber
Eu não entendo as regras
Perdoem-me senhoras e senhores
Doutoras e doutores
Estudar é bom, mas eu não gosto
Não suporto a maioria das escolas
Detesto a luz néon das hierarquias
As tabelas e as contas exatas
Certos professores com as suas datas
Suas caras feias, pois cheias de si
O fedor das absolutas certezas
Tenho horror às certezas
Às respostas únicas e prontas
Às provas e às notas
Aos diplomas e às medalhas
Aos títulos dizendo quem eu sou
Aos outros dizendo quem eu sou
Como eles podem saber quem eu sou?
Eu não sei quem eu sou!
Mas eu sou escritora
Perdoe-me Machado, Goethe, Shakespeare
Perdoem-me as Letras e a Gramática
Ser não é saber
Saber não é ser
Vejam bem, eu adoro ler
Aprender me alimenta
Mas não aguento a cartilha
Mas eu odeio gramática
Não quero saber de vírgulas
Não compreendo concordâncias
Não venham me falar de termpos verbais!
Se eu não sei o que é o tempo
Se eu não sei que tempo é esse
Tudo bem, tudo bem
Vocês podem protestar
Vocês podem querer me ensinar
Que este é o seu tempo
Sim, senhoras e senhores
Sim, doutoras e doutores
Este ridículo calvário
Este estúpido calendário
Este é o seu abecedário
O tempo que vocês criaram
E continuam criando
E sinto muito dizer
Que ele está fedendo
O tempo está fedendo
Vocês não estão vendo?
A miséria gotejando dos anúncios
Das placas de publicidade
Das fórmulas da juventude
Do exército da felicidade
Vocês não estão ouvindo?
As bombas explodindo lá fora
Os tiros matando sem demora
Eles estão chegando aqui!
Vocês estão sentindo?
O calor está ardendo
O mar está subindo
As árvores estão caindo
Kiribati desaparecendo
E o que vocês estão fazendo?
O que as suas vírgulas estão resolvendo?
O que a sua ciência está explicando?
Porque o coração está sangrando
Porque a história acabou
Terminou a memória
Bem-vindos à era Alzheimer
E o que dizem seus bancos?
Ah! Os seus bancos!
Eu vou confessar uma coisa
Eu adoro o que o dinheiro pode comprar
Eu amo tudo o que ele pode me dar
Mas ele não manda em mim
A menos que eu queira assim
Nem me comandam
Seus cartões, suas moedas e notas
Sua bolsa de valores
A merda da cotação do dólar
A merda da valorização do euro
A grande merda das taxas e juros
Não é esta a sua religião?
Não é este o seu Deus?
Eu quero falar com ele
Eu quero falar com Deus
Ou pelo menos falar com alguém
Por favor me digam
Com quem falar
A quem recorrer
Quem vai me socorrer?
Eu só vejo máquinas
Disque um, seja covarde
Disque dois, entre no jogo
Disque três, aqui é o inferno
Disque quatro, não tem mais saída
Disque cinco, esta é a sua vida
Estamos virando máquinas
Regidas por idéias mesquinhas
Recheadas das suas regrinhas
Que eu não quero mais aprender
Porque o tempo é agora
Porque não há tempo a perder
Porque está é a hora
De parar de saber
De começar a perceber
Que saber não é conhecimento
Que ser não é um pensamento
Nem algo que vocês podem vender
Eu não sou cantora
Eu não sei cantar
Mas a minha alma chora
Mas ela me devora
Ela é maior que eu
Porque eu não sei quem sou
E por isso, e por nada além disso
Eu que não existo
Que quase não pago imposto
Que não sei o que é salário
Que sou péssima funcionária
Porque não sei funcionar
Porque não sei me adaptar
Eu que gosto do mal gosto
Porque desconfio do que é bom
Porque não aceito o seu sermão
Nem a sua beleza plastificada
As suas frases de Botox
As suas etiquetas elitistas
Seus colarinhos babados
Seus deuses engomados
Suas idéias enjauladas
Eu não gosto delas
Eu as abomino
Eu gosto é das outras
Das idéias soltas ao vento
Das idéias como um alento
Como o frescor da madrugada
Como um fervor ensolarado
Daquelas que vêm prá mudar
Daquelas que vêm prá curar
Esta imensa dor que nos massacra
Esta tremenda dor que nos esmaga
A dor de não ser
E é por isso que hoje
E tem que ser hoje
Já não posso adiar
Não dá mais prá esperar
Eu tenho que falar
Que eu sou quem eu sou
Eu sou escritora

Antonella Sigaud

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O Nome Dela

A primeira vez que a senti
Foi de repente, uma onda, um presente
Um instante de vácuo, um oco preenchido
Remexido por dentro, as vísceras em pranto
Um tanto de alegria, outro de estranheza
Uma beleza toda ímpar, e meu par mal sabia
Mal sentia que a pequena se tornava mulher
E a mulher se tornava amante, distante
Do tempo, dos conselhos, da educação
Aquela sensação toda nova de ser fêmea
Eu era minha gêmea e meu corpo despertava
Entre as pernas o calor do amor falava
Que algo mais vinha, um vinho exótico,
Um brisa erótica, uma intuição
A emoção de uma mão sobre a minha
Os lábios carmim descendo, rumo aos meus
E eu dizendo não, hoje não, agora não
Querendo guardar aquele rastro de espasmo
Aquele engasgo antes do toque, o foco perdido
O rosto erquido para o rosto que vem, que se aproxima
Que me extermina, abominável lobisomen
E do homem afável nada sobra, resta póros, cheiros
Dois gomos imensos, a lua do sorriso, a língua viscosa
Os odores pungentes, inebriantes, os desejos galopantes
Mas ao primeiro eu disse não, hoje não, agora não
Depois veio o segundo, e eu disse, não, hoje não, agora não
Mas amanhã, amanhã sim, e eu não sabia o nome dele
E nem me importava, e nem esperava a minha própria certeza
Treze anos e tão poucos os danos, tantos enganos desde então
Mas eu não disse mais não, quando ele veio, ele e seus beijos
Ele e a barba mal feita e os olhos arteiros, matreiros
E seu beijo sem nome, a fome de caçador roçando na minha
De andorinha com sede, caindo na rede do desconhecido
Nem sei se era um vestido ajustando-se sob a pressão
Da calça do macho e de seu tesão, e sua boca mortal
A colisão fatal das línguas, o gosto de sal e o nojo
E foi só um beijo, e já era tanto que eu não gostei
Mas logo amei e queria mais
Mais beijos, línguas, dentes e adendos
Corpos, pêlos, peles, membros em dança insana
Queria aventuras, becos sem saída, noites mal dormidas
E assim me perdia
Enquanto me conhecia no desconhecido de que eu era feita
E em meu desajeito amei, como criança vadia
Com a alegria dos bobos e dos gênios
Com a inocência dos bons e perversos
Com a ausência de razão que só a mais profunda razão conhece
Com aquela doçura que desconhece e descobre o mundo
Obscura e obtusa, tudo juntando-se e dando-se através dela
Suculenta, espasmódica, lúcida e embriagada
Sangrando, lutando, esperando e se entregando
Guiando-me atravé de falos e ralos sem fundo
Becos imundos, terras de fantasia, reinos de folia
Minha amiga, minha inimiga, minha loucura
Minha cura na poligamia monoteísta, na monogamia politeísta
Quando vários homens concomitantes levam a um Deus
ou um homem se desdobra em vários deuses arfantes
Revezes de dor e encanto, o canto das noites viscerais
Dos encontros banais, e daqueles anormais
Quando um olhar perfura, quando a sombra de um riso jura
Que nunca mais será como antes, nunca mais
A virgindade para sempre perdida e sempre reflorescendo
Se refazendo em ternura, na abertura para o instante
Para o alento sexuado, para os sagrados órgãos da vida
Florida e dolorida, a vida megera, mãe e amante
Que desperta e adormece, desabrocha e fenece
E tem até um nome
E só hoje eu digo o nome dela
Porque ela já passou por muito e muito passou por ela
Mas apenas lhes peço, com tranquilidade e apreço
Nunca menosprezem aquela que não tem preço
Prostituta em surdina, santa ondina,
Sereia divina, anciã e menina
Em silêncio e reverência, senhora das batalhas
Que despreza as muralhas e os limites do possível
Nos eleva aos picos das montanhas, às façanhas da ciência
Aos recintos da irreverência, aos labirintos da transcendência
Nos leva àquele espaço sem espaço e sem tempo
Aos ventos selvagens, pavorosos e fabulosos
Aos cumes da inteligência não falada, à paz tão desejada
Ao ser desregrado, à regra última da continuação
Na ação e na contemplação, é ela a ponte para os universos
Os versos da iluminação, os reinos paralelos da ressurreição
E por isso hoje eu a apresento, com recato, é verdade
Mas aceitando o fato da supremacia, da magia de sua majestade
Aos exploradores, aventureiros, intrépidos, a todos cuja sina
È a fina ânsia de viver mais, de sentir mais, de ser mais
É a eles que, com estas frases singelas, digo o nome dela
Aqui e agora, sem espera, sem mal uso das horas
Pois, como Deus que perde o nome logo depois que se lhe dá
Também ela não quer o seu nome logo depois que eu falar
Depois deste sussurro, desta surpresa, desta inteireza
De sermos quem somos, de eu ser mulher
De vocês me escutando, me odiando ou me amando
De estar pronta para o que der e vier
E para os homens e mulheres que por aqui passaram
E nesta pele cantaram, gozaram, ficaram ou se foram
Para aquele que foi até o fim e gritou que sim
Que a verdadeira mulher nascia e nela tudo se fazia
Tudo florescia do ventre, toda a guerra e toda folia
As palavras e suas pausas, insanas, suaves, sensuais
As águas, os pássaros azuis, tudo isso e muito mais
É para eles que hoje eu a celebro e manifesto
Ela que é festa, idéias em flor, todo o gozo e toda a dor
Ela que dá a vida até a mim que hoje sou filha de mim
Ela que me faz tão terrivel e maravilhosamente mulher
Que me faz triste e feliz e estranhamente ardente
E a quem eu digo sim, hoje sim, agora sim
Ela que tantos nomes têm, chulos e outros nulos
Casulos de vergonha, da violência medonha ou da inveja
Ou outros que ela carrega como adornos, jóias, coqueterias
Artifícios de suborno ou de um olhar morno
Daquela que sabe e sempre saberá
Que nunca caberá em um nome
Mas para os mais desavisados
Para aqueles pouco versados
Nas artes de ser mulher
Nas artes da mulher
Eis o nome dela
Sem bolero nem farsa
Sem graça nem disfarce
Um nome sério
Pois todo o mistério é dela
Um nome que não inflama
Pois ela é a chama
Que se chama: Vagina

Antonella Sigaud

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Feliz Aniversário

Não adianta mentir
Não é possível fingir
Viver dói. Viver dói.
Dói nascer e morrer todo dia
Dói a garrafa boiando no rio
O porre da véspera ardendo no estômago
A luz áspera corroendo o âmago
A náusea antecedendo o vômito
Que não vem
O dedo na garganta gritando
O que não tem
O amor murchando no coração dormente
A câimbra indiferente de quem não sente
O medo de seguir assim
O desespero consciente do fim
A sensação ardente do nada
O cheiro de merda perfumada
Da moça bonitinha na televisão
Este vinho azedo, este gosto de sabão
E eu deveria estar feliz
Diz a moça, a família e a boa conduta
Mas a dor não escuta, é filha da labuta
Deste omérico esforço de ir em frente
Desta farsa grandiosa e decadente
Das histéricas certezas que mentem
Fazendo de conta que existe o tal sentido
Que esta porra de música não agride o ouvido
Bonitinha e ordinária, a moça
Com seu detergente de lavar a louça
A Terra Prometida nas revistas
As Caras baratas e as bundas lisas
Os peitos inflados e cérebros siliconados
O show do mlhão, a estapafúrdia confusão
Dá vontade de soltar um peido fedorento
De expelir um palavrão lamacento
A puta raiva da realidade execrável
O surto da fictícia felicidade comprável
Que esta babaca quer me vender
Não! - é o que eu gostaria de dizer
Mas a impotência me cala
Mas a voz da razão me fala
Que já não existe a razão
Que é tudo uma grande ilusão
O que fazer, onde ir
Em que sombrio bueiro cair
Peça informações no terminal
Aprenda a dança do bem com o mal
Viver é um nascer triste e soberbo
A gosma das horas escorre como o placebo
Este infindo ciclo de embarque e desembarque
Este gélido aeroporto de araque
O resto de voz que arranha
O álcool carcomendo as entranhas
O horror necessário e a paz salafrária
Do ar que eu vou respirar
Do sorriso que eu vou dar
Daqui a pouco
Daqui a muito pouco
O riso roxo que se aceita louco
O olhar perdido de um coração fudido
A beleza insana de uma vida em chamas
As escamas de mais uma noite que bóia
A jóia medonha e obscura da alma
E depois, esta estranha calma
Tudo isso...sou eu.


Antonella Sigaud

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Mundo Absurdo

Eis o feroz latido das horas
Passam o tempo e o vento
Os carros passam na estrada
Tudo é passado sem demora
Todos não passam de histórias
Grandiosas guerras de areia
Certezas ardentes de sol
Abraços rarefeitos de lua
Beijos oriundos de mar
Nada mais que memórias

Já não afetam as flores
Não determinam as cores

As dores promíscuas que cantam
Parindo seus frutos bastardos
As alegrias beatas dos chatos
O arroz com feijão dos santos
Àqueles que não duvidam
Àqueles que não trepidam
Não cabe negar o meu fim
Não posso seguir assim

Fato é que eu mudei

Mortos os sonhos mortais
Banais elixires do medo
Vorazes fugas da realidade
Mas a verdade estava errada
Nada disso importa ao caos
Quem são nossos pais agora
E quem serão os meus filhos
Brotos abjetos do concreto
Discos rígidos do absurdo
A verdade é que não sei
Não sei se é egoísmo
Nem sei se os quero

Tenho medo e vontade do mundo

Do fundo abismo venerado
Dos olhos opacos sem vida
Do insípido amor sufocado
Das asas cortadas sem nexo
Do sexo assassino das mentes
Do vírus libertino do prazer
De querer e querer demais
De crer na felicidade atroz
Consagrar a foz em mim
Ousar a loucura enfim

Pois agora sou
E depois não mais

Anita Yllana

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Ondas

As ondas do mar se abatem
Batem as horas do ser
Vir a ser pela vida afora
E tudo vai embora
Com as ondas e o mar
Vestidos de luz
Pérolas de espuma
Lúcidos sonhos fatais
As ondas desiludidas
Para sempre perdidas do cais
As medonhas ondas do querer mais
E tanto faz quanto tempo
E tanto faz o livro e o lamento
As palavras solúveis
Trançadas pelos dedos do vento
Chovendo nas ondas do tempo
Que sempre retorna à foz
O louco que quer domá-las
O outro que pensa amá-las
Mas nem louco nem outros existem
Nas gotas das ondas banais
A brancura das horas que passam
A Lua indomável bordada no céu
Tudo é total unidade
Na verdade que não existe
Num existir tão feliz que é triste
Pois também morre nas ondas verdes
Nas redes profundas do amar
Sangrento dilúvio pulsando
Em tudo aquilo que eu sinto
E minto se não confesso
Que não sei onde eu mesma começo
Qual o berço desta aflição que sou eu
Qual o meu nome se não passo de fome
De uma onda na areia
Da maré cheia, de ilusões cintilantes
Instantes aviltantes, de mistério
E por favor não me leve a sério
Pois o medo me trouxe até aqui
O temor escrito, na pele sulcada
Rios e vales perfeitos
Paredes e prédios e cidades
Tudo comida das ondas
Que se abatem sobre mim

Antonella Sigaud

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Natureza

O que será
Aquele ponto verde
Numa terra úmida?
Ele cresce;
Cresce à luz do sol,
Que o horizonte abriga
E faz brilhar o arco-íris.
Sete cores
Na voz do tempo
Pessoas nada têm,
Ganham tudo ao verem isto!

Os pontos de areia molhados,
Água salgada e fria.
Doce alegria!
Correr longe,
Colher flores.
As nuvens mexem-se...
Trazem branco e preto,
Trazem sol e chuva.
Descobriu-se a palavra,
A palavra é natureza,
É toda essa beleza!
Que só os olhos mais puros
Podem ver,
Eu tenho certeza!

Entre os corações e a beleza
Existe a impureza
Vi a ponta do ferro
Cortar o que a vida nos deu.

Existiu, entre isso tudo,
a fumaça negra e suja?
Vozes imploravam o carinho
Da imensidão grande e bonita.
Será que ficou preta?

Nada mais sei,
Além das ilusões gostosas...
Risos e sonhos dourados
Que a natureza nos deu

(Brasília, 1982, aos 10 anos de idade)

Antonella Sigaud

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Conversa com o Diabo

Deixe de papo fiado
Chega desta forçosa piada
Deste infindo querer sempre mais
De buscar, consumir, explorar, existir
Suporte este grito ou foda-se
Estou cansada de cuspirem
Chorarem, gozarem, cagarem em mim
Não agüento esta falsa política
Não suporto todas essas certezas
Não me imponha ciência, filosofia e literatura
Desconjunturas, diplomacia e títulos
Por favor, não me fale de insanidade artística
Não sou este robô manipulado
Este pivô onisciente, este pierrô inocente
Nem esta boneca enfeitada
Não concordo com a loucura organizada
Só porque se chama sociedade
Escute bem porque não vou repetir
Que o que eu penso não é sua propriedade
E não trabalharei para você nem o masturbarei
Não o lisonjearei nem lamberei seus sapatos
E garanto que não engolirei seus maus-tratos!
Apenas lhe peço que me explique
Fale-me do desejo que me consome
Liberte-me desta carne trépida e insone
Que me extasia e me apavora
Que me desperta e me devora
Que me abençoa e me condena
Tão cheia de pureza e de luxúria
Tão exposta à falta e à penúria
Este corpo triste e feliz
Esta existência pútrida
Esta puta experiência
Queria tanto fugir de você
Dizer que sou melhor
Que não lhe quero
Que na surdina dos sonhos
Não é você que eu espero
Seu sucesso, sua atenção e suas palmas,
Seu reconhecimento, seu tesão e seus excessos
Mas hoje de manhã
Envolvida no manto frio da soberana consciência
Da inegável impermanência
Da submissa reverência
Olhei para o espelho e enxerguei
Nos vincos, nos abismos e nas falésias
Nas horas mortas e nas esperanças tortas
Em meus cabelos, meus medos e segredos
Para sempre unidos e em dança
Deus e o diabo, bem e mal, etc e tal
E eu me deitei na areia
E caiu meu castelo de sal
Perdi verdades, maldades, vaidades,
Acessos tediosos de pseudo-caridade
Abandonei questões e julgamentos
Não atirei sermões nem pedras
Não me embalei em quedas
Frustrações nem descontentamentos
E foi então que eu realmente vi
Passar uma nuvem de poesia
Entendi que a vida é vadia
É feita de sonhos e de absurdo
De devaneios, de nada e de tudo
Que não há feiúra palpável
Nem beleza explicável
E tudo aquilo que existe
Está aqui
Neste momento corpóreo
Neste desespero ilusório
Nesta calma ardente
No dia nascendo e no poente
Na minha paixão incandescente
Incoerente
Intermitente
E também vi quem escreveu tudo isso
No centro da terra e na guerra
Na beira do precipício e no hospício
No abraço do santo e no punhal violento
Na paz fugaz e na esmagadora tormenta
Eu vi! Que nada mais havia
Nem diabo nem Deus
Nem você nem mesmo eu havia
Nada mais do que tudo
Muito mais, tudo mais, nada mais
Do que amor em movimento


Antonella Sigaud

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É de Poesia

É disso que o mundo precisa

De andar pela vida aos brados
De confessar seus medos e pecados
De sentar na grama em silêncio
De florescer em real transcendência

Exerçam seu direito de seres miraculosos
Desabrochem para a música das almas fogosas

É disso que o mundo precisa

De buscar a verdade a todo e qualquer custo
De não tolerar nada que não seja verdadeiro e justo
De ir além das religiões e renascer em religiosidade
De exorcizar a pornografia e entrar nos transes da sensualidade

OM MANI PEME HUM, AMÉM, INSHALLAH
SHALOM, NAMASTÊ, ALLELLUIAH

Vibrando, os corações despontam, desabrolham, despertam
Amando, as mentes se exaltam, se expandem, exorbitam

É disso que o mundo precisa

De entender o que é qualidade e o que é decadência
De ajudar o próximo a acordar para a absoluta urgência
Do sentir, do florir, do evoluir
Do ousar, do criar, do transformar

Não aceitemos nada que não seja divino
Não perpetuemos nada que não seja sublime

É melhor doer, arder, morrer
Do que arrefecer sem conhecer
O entusiasmo elevado, o orgasmo iluminado
O transcender sagrado, o despertar extasiado

Aprisionaram o enlevo e a beleza em revistas
Cortaram as asas da vida com afiadas certezas
Mas não é disso que o mundo precisa

Queremos nos congregar nas ruas
Nas praças, nas praias, nos bares
Desejamos cantar nossas loucuras nuas
Inundar de encantos todos os lugares
Desligar a televisão e as falcatruas
Parar o trânsito e sair dos carros
Declamar poemas e paixões cruas
Vomitar venenos e apagar cigarros

Agora é hora de respirar!
Quebrar o concreto, tocar a terra, mostrar afeto
Celebrar a existência, se ajoelhar em reverência

Hoje é imprescindível amar!
Acender a própria chama, ser muito criativo na cama
Experimentar a folia que inflama, ser o lótus na lama

Paremos, percebamos, escutemos
A poesia prateada brotando e caindo das árvores
A lua ensolarada transbordando magia nos lares
O amor vestido de flores gargalhando pelos ares

É disso que o mundo precisa

Antonella Sigaud

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Sem Fundo

Como a pedra que furou
Pelo incansável bater da água
Eu me abro ao seu sorriso
Eu me rendo ao que é preciso

Como princesa que se encantou
Por incessante buscar do amado
Eu tremo, e me jogo no abismo
Eu amo, liberta por exorcismo

Ah! Meu amado!
Quantos rios e dúvidas
Tantos caminhos sombrios
Santas mortes em vida
Para deitar nos braços seus

Ah! Meu adorado!
Cristalina a fonte em seus beijos
Eu bebo, e desaparece o tempo
No caramelo de sua voz saboreio
E rica sou, sua venerada

Ah! Príncipe das marés incandescentes!
Nas ondas devassas
Se confundem as pernas
Em seu pêlo eu brinco
Sou puta, rainha, escrava
E nua vou, uivando
Coberta de úmidos espasmos

Antonella Zara

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26 De Maio

vermelho e amarelo
unhas, peles e cabelos
água e sal sobre as curvas
suor sobre os pêlos
gotas de vida ao sol
buscando
sempre buscando o mar
assim a vida
assim a vida
um passeio um anseio
um desejo pelo corpo
desnudo absurdo
o corpo-tudo do oceano
e a pele e o amor e a beleza
áspera certeza de deus
no passo a passo da paixão
no juntar e separar das mãos
em caminhos empoeirados
ensolarados e dourados
encontros desencontrados
assim a vida peregrina
assim a morte velha amiga
vida-morte-vida
amor-olvido-amor
e eu danço, e toco você
e eu te abraço hoje e sempre
meu querido amigo amado
meu amante amado irmão

Antonella Zara

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Brisa matinal

É de manhã
Pesam as pálpebras sem sono
E no sono elas espreitaram além
Assim vêm e vão as imagens tardias
Pois tarde é aquilo que não dissemos
Que não fizemos nem pensamos tecer
E as palavras, o que diriam?
Por tua pele passeariam, se perderiam
Mergulhariam nas marcas do tempo
Leriam na ausência das horas
Titubeariam diante do salto no escuro
E saltariam em teus infinitos espaços
Teus passos marcariam minh'alma
E nós dançaríamos, amantes com calma
Desencontrados até ter coragem de olhar
De perscrutar o espelho, e no outro se achar
Nós amaríamos o reflexo sob as pálpebras
De súbito enlevo, transportados seríamos
Das mãos os dedos se cruzariam, iguais
Juntos, nós descobriríamos querer muito mais
Sonhados e sonhando um o outro a cada instante
Do amor prisioneiros livres, alegremente mutantes
Com ardor e paixão reinventaríamos, despertos
Nossa vida, mar fulgurante, translúcida e aberta
E virgens partiríamos, na derradeira e infinda viagem
Navegantes das peles, veleiros insones rumo ao cais.

Antonella Zara

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Inferno

Vejo as ruas cinzentas, apinhadas de gente
Os cartazes soltando vapores de ilusão envolvente
E por dentro os nervos contráem a dor absorvente
Gritam que não, que aquele que diz que sabe mente
Que não existe esta tal segurança aparente

Vejo a loucura escondida em cada esquina
Para submeter a seu estupro a passiva menina
Para transformar sonhos dourados em serpentina
Para fazê-la buscar alívio da dor no álcool, na cocaína
No anti-depressivo, na maconha, no sexo, na heroína

Vejo na moral o vício, na face beata Belzebu
No sorriso do esperto, o povo que toma no cu
Nas palavras e promessas vazias do político
O homem sem nexo, e o trabalho que perde o sentido
Madame Felicidade Comprável cospe nos que têm pouco

Eu me revolto e pergunto onde está o tal mundo bacana?
Que história é esta de sentar e alcançar o Nirvana?
Quem é este patrão legal quando ele está sem grana?
Ele te diz vai te foder, e mostra sua face sacana
E quem é que vai jogar a pedra em Maria Madalena?

Somos todos iguais, somos anjos e demônios
Dentro de nós se escondem putos e abstêmios
No espelho que por raiva quebrei estão os meus credos
Nas idéias que tive e nas que rejeitei estão os meus medos
E em toda esta dança de vida e morte estão meus segredos

Sou o reflexo da vida para a qual nem a morte é saída
Sou o fim da trilha, a imagem da verdade perdida

Antonella Zara

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Inhame com Hortelã

Aquela pele tão negra
Sonhos de inhame com hortelã
Aquela coisa tão roxa
Dentro da carne cor-de-romã

E eu peregrinando
Naqueles braços
De noites sem estrelas

E eu me perdendo
Naqueles abraços
De afoitos pesadelos

Ai! Como eu amei!

Aquele fim de começo
Voltei para além do berço
Morri e me virei do avesso

Ai! Como eu chorei!

Aquele começo de fim
Ardente demais para mim
Não suportei dor assim

Antonella Zara

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Menino Baiano

Nas suas praias eu navego
Sou barco sem leme e sem velas
Sem porto, me perco e me entrego
Viajo em suas misteriosas águas

No seu mar eu me dissolvo
Sou sem nome e sem rosto
Me agarro a você como um polvo
Provo de seus sucos com gosto

Nas suas mãos eu me recrio
Saio de mim, e você entra
E não me importa o desvario
De transformar você em mantra

Nadar sem medo nem destino
Tocar seu sol, seu horizonte
Te ninar como um menino
Beber de sua límpida fonte

Nas suas praias caminho nua
Descubro o que é ser simples
Sou de outro, mas sou sua
Sem tempo, valores nem limites

Seu sabor frescor me amarra
Seus braços minha fantasia
No seu cheiro a sua terra
Delírios, perfumes da Bahia

Você se chama segredo
Uma de minhas loucuras
E eu quero você mar verde
E a poesia das suas ondas

E vou caindo na sua rede
Insaciada por seus ventos
A cultura, invisível parede
Impede o sexo de ser lento

Quero lhe ensinar como
Chegar a mim em mim
Depois vai embora, some
Como um sonho, enfim

Ver você seguir seu caminho
Dissolver uma história a mais
Renascer como flor do espinho
Desancorar seu falo, e partir do cais

Antonella Zara

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Poema da Gratidão

Grata
Ainda que acorde de noite
E trema
E chore
Grata
Ainda que duvide
E gema
E desespere
Grata
Pela brisa que sopra
Pela fé que me leva
Pela lágrima
Pelo sorriso
Pela vida
Que em mim palpita
Que em mim desperta
Que em mim transborda
Que através de mim
Existe
Deságua
Experimenta
O oceano

Antonella Zara

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Poema da Mãe

Das asas o meu destino
Da vida o meu desafio
Nos caminhos sem fim
Divago e viajo assim

Unindo minha voz ao silêncio
Buscando minha própria cadência
Mãe com o corpo florido
Filha da Mãe esquecida

Eu amo e não descanso
Eu amo e em amor eu danço

Mulher em assombro e sem regra
Sou aquela que o mundo carrega
Na transformação conheço conforto
Na mudança encontro meu porto

Das asas o céu conquisto
Da vida em mim existo
E quando inquieta e no cio
Vida com asas eu crio

Eu amo e não descanso
Eu amo e em amor eu danço

Antonella Zara

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Poema da Mulher que Amou

Eu sou dos fogos
Eu sou da noite
Eu trago nas veias
Estas certezas e dores
Que me incendeiam
Enquanto eu canto

Eu derramo o leite
Eu espalho o pranto
Eu vivo o deleite
De viver com eterno
E prazeroso espanto
Enquanto eu danço

Morri, queimada
No fervor dos beijos
Fritei no azeite dos desejos
Ainda borbulham, em volta de mim
Agonizantes anseios
Nefastos devaneios

E eu abro os braços
Enlouquecida
E eu renasço
Embevecida
Esfinge dos amores em cinzas

Messias das dores aladas

Em amor eu me desfaço
Desmilingüida eu me recrio
Em amor meu desafio
Parida por mim, eu existo

Eu sou do céu
Eu sou da lua
Sou tão profundamente sua
Que me vendo a você, em pergaminho
Que me corto, em seus espinhos
E, tal loba no cio, eu rio

Eu bebo a vida no gargalo
Eu me embebedo
Eu me embalo
E ainda quero mais
Mais que tudo
Mais que mais

Pois é em amor
Vibrante, e enamorada
Que eu chego ao cais
E encontro minha morada

Antonella Zara

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Poema da Raiva

No túnel eu não vi os trilhos
Pensei-me perdida, agredida
Ferida pela sórdida vida
Abraçada pelo negro nada

Meu corpo estremeceu
Meu triste ser adoeceu
Minha pobreza empobreceu

E arranquei-me os cabelos
Os desejos, os adornos
e os sonhos
Os amores, os cornos
e os planos

E xinguei a escória
Da miséria da história
Esta vaca salafrária

E xinguei,
e perdi minha memória
O meu futuro,
eu deserdei de dia
No passado caguei,
quando a noite caía

Matei

Com prazer e com encanto
Tudo aquilo que vivia
Todo o meu espanto
Toda infantil euforia

Queimei

A beleza, o riso e o pranto
A foto que sorria
A fé no amor santo
E chamei as cinzas de vadia

Até quedar-me morta
Um aborto do cerrado
Seca, branca e torta
Fedida como leite estragado

Sentada em minha raiva,
esta ordinária
Semente estéril
que nunca germinou
A puta, eu não sabia,
nem parir podia
Quando, de repente,
o túnel terminou

E lá fora o sol mijava-se
de tanto rir
Ao me ver cega, estúpida, arrasada
Em último suspiro cair
Descobrindo minha cilada

Foi com raiva, muita,
tremenda raiva
De raiva contorcida,
e eu até babava
Que percebi, ensandecida,
a engenhosa farsa
Que entendi, enternecida,
que até mesmo a raiva passa.

Antonella Zara

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Poema do Amor Distante

Entre nós as escadas
E no prazer
Escalamos
Exaltamos
Expiramos
Em perpétua beleza
Em sedosa aspereza
No silêncio da noite
Eu uivo
Prateada e derretida
Eu me afogo
E eu quero
E eu espero
E eu venero
Você

Antonella Zara

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Poema do Amor Não Consumado

No escuro oblíquo da noite
Às vezes eu penso em você
Em beijos levianos e afoitos
Naquilo que não era pra ser

Não vi beleza alguma no reflexo
De seu espelho desencantado
Na busca de seu olhar
enjaulado
Perdi, nas grades,
as asas do sexo

Ainda assim, às vezes,
seu rosto procuro
Nas dobras
dos sonhos obscuros
Nas rendas leitosas,
estrelas do sono
Sou sua, como
uma cadela sem dono

Fui mulher fácil
ao caminhar na sua rua
Você riu, não me viu,
e eu vagava nua
Chorei, e as poças escorreram por seus bueiros
Fui mais uma, ínfima gota
em seus oceanos

Nem sei eu que amor é este
que não existe
Rio de mim, enfadonho
e pequeno grão de alpiste
Distintos e separados,
os universos que habitamos
Estranhamente longínquos,
os sonhos que conquistamos

E por isso, hoje
eu me sento e escrevo
Para aquele que não foi
nem é amante
Palavras noturnas
de súbito enlevo
Daquela que vive
e viverá distante

Absurda, falo que amo esta página em branco
Deixo-me levar por uma brisa, embalar por um solavanco
Amanhã levantarei,
esquecerei de você e de tudo
Vou rir, e fazer pouco
dos sentimentos mudos

Mas é bem verdade que, por um eterno momento, eu amei
Esqueci-me da vergonha e do tempo, e com o vento dancei
Fui sua prometida,
e queria dar-lhe a vida
E tal bolha de emoção,
explodi na imensidão

Antonella Zara

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Poema do Amor Perdido

Anos passam e se perdem
Danos curam-se e desvanecem
E a pergunta é o que se ganha
Para onde se vai
nesta teia de aranha

No coração alguma
cadência esquecida
Na lembrança
uma dor escondida
Em silêncio escorrem as horas
Em suspense levitam as vidas

Longe está aquele sorriso
A eternidade foi só uma brisa
A saudade que o peito acalenta
Embala a carne em morte lenta

De que servem os momentos
Nada mais são que fragmentos
Separado está o eu do mundo
Sozinho ao nascer
e até cair moribundo

Abrir os olhos e olhar a tristeza
Captar a visão
e procurar a beleza
Expandir os sentidos
e sentir a luz
Passado o tempo
de carregar a cruz

Aceitar que o que foi não voltará
Alegrar-se sem saber
o que será
Não há maior
nem mais belo espaço
Que o vazio entre um
e outro passo

Sentar sobre uma pedra
do caminho
Escrever um poema
em pergaminho
Celebrar um amor
que nunca mais se viu
Degustar a paixão
que um dia se sentiu

E sentir ainda e sentir mais
Içar as velas e abandonar o cais
Deixar-se levar
pelas ondas do mar
Beber o vinho da vida e dançar

Antonella Zara

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Poema do Avançar

Avanço, mas por quê
Sem descanso, e à mercê
Dos ventos hábeis
Das horas frágeis
Turbilhões, e sangue derramado
E na terra: eu me abro
Dou a luz a mim mesma
Caminho descalça e nômade
No corpo do amado
Ele em mim, eu nele
E eu avanço, sem porquê

No início éramos um
Em paixão entrelaçados
Depois quebrou-se o espelho
Amor, quem somos?
Já não havia nenhum
Nós todos fragmentados
E transbordado o rio
De lágrimas vermelhas
Amor, humanos somos
Efêmeros, esparramados
Pela vida abandonados!

E segue o tempo
E o choro seca
E eu me canso, sem querer
De avançar sem um porquê
Das vidas tortas
Dos olhares opacos
Furacões, e leite desperdiçado
E na terra, eu me desarmo
E eu grito, e eu pasmo
Nela encontrando meu refúgio
Em um lago espelhado

No reflexo que enxergo
Acho o porquê, tão procurado
E hoje avanço com porquê
E eu danço, sem saber
No amor de meu amado
Em meus olhos reencontrado
E a alegria que dele era
Hoje é minha, sou rainha
De meu corpo escalado
Pela vadia verde era
De minha vida venerada

Antonella Zara

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Poema do Novo Homem

Por que negar que, sim, às vezes eu me rasgo
Caio no pranto, necessito amor, me engasgo
Por que fingir, sim, às vezes tenho fome
De beleza, de sexo estrondoso, de reinventar meu nome

Quero conhecer as entranhas de sua alma
Subir de joelhos as escadarias de seu templo
Mergulhar em você com sofreguidão e calma
Ser mais, ser amor, ir além, ser o exemplo

Poder chorar, gritar, rir de verdade, descer mais fundo
Descobrir-me diferente, vibrar enfim, recriar o mundo
Rolar na areia, dançar pelado, venerar Sol e Lua
Saber-me macho e fêmea, poderoso e vulnerável como a pele nua

Celebrar força de santo, beleza de vida, coragem de guerreiro
Lutar por você, pelo que amo, elevar espírito, desafiar morte
Puxar seus cabelos, incorporar seu sonho, invadir seu terreiro
Fundir-me a você, afiar o medo, sangrá-lo em doloroso corte

Quero tornar-me pleno, presente, ver no espelho o Universo
Buscar, falar tudo, saber não falar, parir seu filho em meu verso
Explorar, me arriscar, me espantar, navegar nos mares que não sei
Admitir, preciso aprender, conseguir amar muito mais que amei

Por que negar que, sim, às vezes eu não me suporto
Saio de mim, faço cagada, sou idiota e me entorto
Por que esperar para, sim, reconhecer que eu me amo
Abraçar um estranho, ser criança, ser meu Deus, e seu amo

Faltam palavras para descrever o infinito
Não sobrou tempo, nem ilusão, de compreender a origem
Corro então, no nada e no vento, até a fonte, e grito
que sou mais que isso, e viver, é minha graciosa vertigem

Antonella Zara

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Poema do Ser sem Ser

Ontem, hoje, por que, e quando
pensar era mais, era além, e eu pensava
que era, que sabia, que estava mais
do que antes, menos que depois
e no entanto era apenas um grão
um pedaço de chão, uma vírgula
um bocejo do infinito, um grito
de uma batalha, sem muralhas
sem motivos, sem vencedores
sem fim, além de mim, um tal
de querer saber, e nunca perceber
que bem e mal, etc e tal, fragmentos
elementos que dançam, balançam
cacos caquinhos de cristal
e eu não vim, e não vou, e não sei
e apenas parece que estou
e dizem que passei e dancei
está até escrito,que foi dito
que eu amei,e como amei
e que deleite este de estar vivo
sentir o amor brotando como este verso
ao reverso, na loucura, sem beleza
sem candura, um lamento, uma brisa
uma coisa qualquer, de mulher
uma travessura, e por favor
deixe-me brincar, deixe-me pensar que amei
e que sei, e que fui, e que serei
e que eu, esta bolha de sabão, seja caramelo
uma flor amarela, um algodão doce, um licor de alegria
que fiquem bêbados de fantasia
que se apaixonem, e se rasguem, e se engasguem
que tremam e se dispam, tontos de magia

Antonella Zara

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Poema do Trem

De um lado a entrada
De outro a saída
Ele anda, ele pára
Ele junta e separa

Para longe nos leva
Além de nós nos enleva
Crianças ao entrar
Tudo muda ao viajar

Perdidas palavras mudas
Frio no lugar dos abraços
O passado dói como um filho
É o futuro sobre os trilhos

Nada além momento presente
Em mim vida volúpia latente
Sou eu que venho e que vou
No trem da vida cigana sou

Antonella Zara

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The Magician

Once upon a timeless time
A soul became part
of a tarot game
Forgetting it was God
was the aim

In the frozen lands of desire
He walked, his heart on fire
And his feelings melted iron

His heartbeat was gold
and silent
Luxurious his every movement
His eyes stars in the firmament

His double in his brushes
A world was raised in ashes
His words teardrops on faces

Vain were dreams and women
Pleasure and pain love's omen
Illusionary treasures
sparkled golden

High the price of believing
Several the ways of decaying
Melancholy a song of life playing

Still he walked passionately
and restless
Easily falling
into useless madness
Addiction the name of his life
so senseless

Eternal love was
the constant quest
Flying away in smoke
a kind of rest
Searching for the one
and heart's best

Infinite the questions in his mind
As many as the paths not to find
The phoenix of his dreams,
the ideal kind

Mermaids he followed into distant bays
Travel to paradise, hell,
swamp and sunrays
And getting lost
in Parisian subways

The more he walked
the more light
Was in his eyes
and shined so bright
As magic blossomed
out of war and fight

One day he sat and prayed
for destiny
Slowly came out
the sun of alchemy
And this was what he remembered finally

That his soul, woven was
with love, gold and silver
That sun and moon, his nature's never ending river
And his muse, his own beauty
in life's mirror

Antonella Zara

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Voluptuosamente

Beber a seiva noturna
O enredo das horas sombrias
O sono infame dos tolos
E tua doce paixão escondida
Ser tua musa teu verso
Virar ao avesso as loucuras
Deste meu desejo flutuante
E eu te peço, não me julgues
E eu te imploro, me perdoes
Este amor sublime que transborda
Esta calma do poente que mata
E sem querer perder ou magoar
A faca desfere o golpe, atordoada
Aquela que te encontra impune
No obscuro daquilo que não sei
E me é dado com a tua presença
A pureza que sou e desconheço
Ela é a fonte que me ressuscita
Essa volúpia latente e transitória
Essa permanente volúpia da vida
Nós, os náufragos, a celebramos
Nos erros que cometemos
Na nossa perda de memória
Que apenas o tempo engole
Vinho tinto soberbo o estar aqui
Nos oblíquos abraços perdida

Antonella Zara

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Volúpia

Mergulho nas sombras
Passo a língua na lama
Faço guerra dos sexos
E te mato na cama

Que se danem más línguas
Que despertem os beijos
Quero viver os desejos
E tecer minhas memórias

Lamber toda a vida
Curar toda a ferida
Amar amar amar
Até me tornar o mar

Antonella Zara

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A água e a fonte

Ali onde havia pele
Pele não mais havia
Espaços de pele sem pele
Preenchidos por outras peles
E carnes e desejos e cheiros
E beijos tantos, tantos beijos
E eu beijei, e me dei, e trepei
E não pensei, e não pensei
Porque eu era a pele enroscada
E a pele deles era minha
E eu me dava, bem amada
Até esquecer nome e caminho
Eu queria morrer de tanto viver
E vivia de tanto que morria
Em cada nova pele eu renascia
E eu era a serpente e era a maçã
No lado obscuro da Lua, eu era pagã
A ausência do Sol me deixava nua
E eu traía sem trair, sem pensar
Sem querer mentir e mentia
Eu traía como a água trai a fonte
Quando transborda desajeitada
E em meu transbordar eu me abria
Vinda do nada, voltando ao nada
E como explicar que ainda assim
Que mesmo assim, por isso mesmo
Eu amava...

Antonella Zara

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L'Étoile Filante

Souvent je pense que c'est fini
Qu'il ne faut plus t'appeller
Qu'il faut laisser chanter
Le temps et l'oubli
Laisser, comme tu l'aurais fait
Que tout s'éface
Peut être parce que tu le sais
Qu'ainsi de l'amour
Ne restera plus aucune trace
Laisser courir le fleuve de la vie
La vie qui passe
Qui passe à l'infini
On ne peut pás parler d'amour
Quando n ne connaît pás l'abandon
C'est lê coeur qui devient lourd
Enfermé dans um flâcon
On ne peut pas sentir chaleur
Si on ne se jète pás
Dans lê vide de l'émotion
On ne peut pás experimenter
L'extase de l'adoration
Si on ne prefere pás
Le courage à la peur
Et pourtant je t'appèlle
Entourée par la nuit
Pour te dire d'une voix frêle
Dors bien mon ami
Même si ce n'est pas
L'amour romantique
Celui qui lutte et se fait éternel
N'oublions pas
La beauté mélancholique
D'avoir vu passer
Dans le ciel étoilé
Une divine, ravissante
Et éphemère étoile filante

Antonella Zara

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Mãe e Filha

Toda mãe é filha
Do sol, da lua, da partilha
Das cores, da terra, e do chão
Toda mãe é doação
De si, de vida, de beleza
De amor, cuidado e plantio
Toda mãe é um desafio
De reconhecer, entender, aceitar
De ir além, abraçar e gerar
Toda mãe é saber esperar
Pelo parir, ninar e alimentar
Pela filha, pelo sonho e por si

A filha é a mãe invertida
A mãe é a filha crescida
E assim segue a história
De vida é tecida a memória
Dos segredos compartilhados
Das receitas segredadas
Em silêncio e aos gritos
Inevitavelmente unidas
Mãe e filha, e a felicidade
Sem uma não percebe a outra
Sem a outra uma não aprende
Que é preciso ser filha
Para ser mãe, e quiçá ser mãe
Para compreender e voltar
A ser filha da terra e do mar

Antonella Zara

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A Chuva

Tuas gotas ensolaradas
Escondendo os rios e o mar
Os ventos te levam às estradas
Onde oscilam os mortais
Entre sobreviver e abraçar
A vida tal qual ela é
Sem pintá-la de anseios
Sem desejá-la diferente
Transparente átimo perfeito
As tuas gotas caindo
Nas fendas a terra parindo
E meu amor brotando
Selvagem e derradeiro
Meu amor forasteiro
Assassino e benzedeiro
Sagrado e amaldiçoado
O amor como a tormenta
Matando e ressuscitando
Esta Paixão primeira
É febre e tremedeira
Venérea cura dos amantes
É ser divino sem palavras
Pois elas não cabem nas gotas
De chuva

Antonella Zara

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Marido e mulher

Seu rio correndo entre as pernas
Os dedos do Sol nas persianas
É cedo, amor, e não consigo dormir
Na madrugada o sexo imperou
Até a devassa da noite parir

Gritando emergi de um pesadelo
Você me agarrou pelos meus pêlos
Tentei resistir, mas não consegui
Desnuda e afogada em saliva
Até mesmo o seu nome esqueci

Seu inhame brotou na minha terra
Úmida depois de horas de guerra
Cuja paz é lutar sempre mais
E todos os homens eram você
Meu marido amado voraz

Eles riam e jorravam sobre mim
Meu corpo latia, gritava que sim
Sua voz embebia, melava os ouvidos
Minha mulher amada promíscua
Fiel e vadia, até o fim dos tempos

Antonella Zara

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Nevasca

Quero beber desta neve
E verei se você se atreve
A brincar na fonte, afundar
Normais e passantes vexar

Rolar nela eu ordeno
Amadurar em duelo
Depois rir a cântaros
Confessar em sussurros

Foi glacial, o punhal do amor
Arde sombrio, o sal do pavor
Sobre as chagas do ciúme
Nesta entrega doce e torpe

Na luta incorporo sua seiva
Ofereço-me, sua dócil serva
Pois em você, cotidiana aventura
Sou pura e branca, franca e sua

Potranca absurda no gelo
Travessa e nua em pêlo
Mais do que jamais quis querer
Muito mais do que pensei poder

Embebida em fogo eu espero
Por seus braços e afagos anelo
Sangro neste flamenco noturno
E crepita em mim o medo soturno

Da mais ínfima distância
Desta sublime abundância
Beleza feroz, ensandecida
Anjos na foz, embevecidos

Certezas de nada, mas disto
Que este desejo é cura e é cisto
Admito, pois, este ardor obscuro
Sei que amar é correr no escuro

Esta tortuosa volúpia cigana
É paixão tormentosa e insana
Além de cortes, lamentos e tempos
Até mesmo mais forte que os ventos

Soberbo amor predestinado
Eterna flor do meu segredo
Eis meu desenho nesta neve
Um murmúrio suave e breve

Minha sutil e muda promessa
É como grito febril ao avesso
E eu peço-lhe que não escute
Porém imploro-lhe que acredite

Suas cores são verão e inverno
Seu enlace é paraíso e inferno
Mas é vero, jamais amei assim
Plena de guerra e de paz sem fim

Antonella Zara

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