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Entrevista com Antonella Zara
Livro “A Ciência da Paixão”


1) Para você, qual o papel da paixão na vida humana? Por quê?

Para mim, a paixão é a força vital, o desejo original, o entusiasmo divino, aquilo que nos impele a continuar vivendo. Etimologicamente, a palavra paixão significa “sofrimento” e entusiasmo é “estar em Deus”. Mais além, a palavra latina emoção significa “estar em movimento” ou “colocar em movimento”. Muitos filósofos vêem a paixão como uma ilusão perigosa, cientistas a atribuem a uma química passageira. No Cristianismo, a “Paixão de Cristo” designa os imensos tormentos que Jesus Cristo teve que sofrer para poder libertar a humanidade de sua ignorância. Já o xamanismo ancestral do Kalahari sugere que o amor tem em si tanto a dor agonizante quanto e alegria libertadora. O budismo nos mostra como podemos ter contato com a energia pura, a essência das emoções. Enfim, para mim, a paixão em sua forma mais sutil é a energia pura, algo assim como a transcendência das emoções, esta essência mais profunda, a maior intensidade e profundidade que somos capazes de sentir, ali onde amor e dor se mesclam e se tornam inseparáveis da experiência humana. As nossas vivências mais importantes, o nascimento, o crescimento, a morte, a missão espiritual, os grandes amores, tudo isso é movimentado por esta energia da paixão.

2) Quem é o seu “Eu-Superior”? Quando foi que você percebeu a sua primeira manifestação?

Em 1999, aos 26 anos, eu fiz a minha primeira pereginação. Durante 50 dias, caminhei sozinha os 800 km do Caminho de Santiago de Compostela. Aquela viagem mudou a minha vida. Durante a caminhada observei em mim pequenas mudanças de percepção nas quais fiz a experiência de conceitos místicos e filosóficos que eu apenas conhecia através dos livros. A teia da vida, por exemplo, sobre a qual o físico Fritjof Capra fala em um de seus livros, que seria algo assim como a visão da interligação ecológica de todos os eventos que ocorrem na Terra, da qual fazemos parte, um conceito recorrente nos ensinamentos místicos, deixou de ser apenas um conceito durante aquela viagem. Comecei a fazer a experiência daquilo, tomar consciência de que se tratava de um fato incontestável. Percebi isso de uma forma muito prática. Depois da peregrinação tive uma úlcera na córnea, quase fiquei cega e passei por fortes tribulações emocionais. No centro da dor, tive uma experiência mística. Fiquei duas semanas em estado de enlevo, plena de energia e entusiasmo, com uma sensação profunda de reverência em relação à vida. Foi nesta época que percebi que havia entrado em contato com uma camada mais profunda de meu ser. Sem saber exatamente do que se tratava, comecei a procurar livros sobre o assunto a achei uma vasta documentação sobre este tipo de fenômeno. Para mim, foi uma espécie de despertar. Tudo mudou. De repente, ficou muito claro que eu estava realmente aqui para servir a humanidade. Começou então o processo bem difícil, mas também muito interessante, de descobrir qual a melhor maneira de fazer isso.

3) Por que “Deusa”?

Na verdade, foi uma forma carinhosa e brincalhona de me referir a esta sabedoria que há em todos nós. Alguns falam de Deus, outros de Eu-Superior, eu escolhi reverenciar o lado feminino do Grande Mistério, sabendo que, obviamente, “o mapa não é o território”. Os nomes são apenas descrições, tentativas humanas de comunicar aquilo que é incomunicável.

4) É possível a manifestação do “Eu-Superior” em todas as pessoas? Como?

Claro, sem dúvida alguma. É um caminho individual. Há tantos caminhos como existem pessoas no mundo. Mas, também é claro que algumas pessoas e certos estudos podem nos inspirar e ajudar muito em nosso caminho espiritual. Eu tive e continuo tendo muitos mestres. Atualmente, estudo muito o budismo tibetano, traduzo para os mestres de minha escola e pratico diariamente as meditações budistas, mas também pesquiso o xamanismo e a magia. Sou muito curiosa e estou sempre aberta a aprender.

5) Qual a receita para viver apaixonado e feliz?

Essa pergunta me lembra a inscrição encontrada no Templo de Delfos, na Grécia Antiga, que dizia: “Conhece-te a ti mesmo… e conhecerás o Universo e os deuses.” Tenho também que pensar em uma linda canção de Lenine que se chama “Mais Além”. Uma das estrofes diz: “O homem sobre a areia como era no início, roçando duas pedras, uma em cada mão. Descobre a fagulha que incendeia o paraíso, e imaginou que havia inventado Deus. É mais, é mais, é mais, é mais, é mais além” Pois é, eu acho que é preciso ir mais além. Sempre. Nunca achar que sabemos de algo. Sempre abrir-nos ao desconhecido em nós, nos outros, na própria vida. Se não estamos em contato com a nossa paixão, é imprescindível ir em busca dela. “Siga o seu êxtase”, dizia Joseph Campbell. É disso que fala a Ciência da Paixão.

6) Você, em vários trechos, cita o escritor Paulo Coelho. Ele foi uma de suas inspirações ao escrever seu livro? Por quê?

Tive a grande honra de conhecer o Paulo pessoalmente. Foi graças a uma série de coincidências, um momento muito mágico de minha vida. Ele é um dos meus grandes mestres, totalmente sui generis, um homem que segue o próprio êxtase, um escritor que fala daquilo que está mais além. Quando escrevi a “Ciência da Paixão”, enviei o livro para ele. Ele leu e imediatamente me escreveu que o havia adorado. Pediu para usar trechos do meu livro para ilustrar o diário da personagem principal de seu romance “Onze Minutos”. No posfácio do livro, ele me agradece por isso. Para mim, foi uma bênção e um grande sinal de que eu deveria continuar escrevendo.

7) Quem mais a inspirou?

A própria vida foi a minha maior inspiração. A paixão em todas as suas manifestações. A minha mãe, que muito cedo me ensinou que “o amor é tudo”. Nunca me esqueci disso. Eu sempre vivi a minha paixão intensa e profundamente, resolvi estudá-la, não descansar enquanto não despertasse aquela paixão sagrada da qual falam os místicos. Neste estudo, muitas vezes me perdi, quase morri, mas não me arrependo. O poeta e místico sufi Rumi, que viveu no século 13, escreve em um de seus poemas: “Cada átomo, Feliz ou miserável, Gira apaixonado, Em torno do Sol.” Para mim, não é possível viver plenamente sem fazer a experiência disso, sem conhecer empiricamente esta verdade fundamental.

8) Deixe um recado para seus leitores.

“A Ciência da Paixão” é um livro simples, escrito em estilo coloquial. Eu o escrevi em um pequeno quarto de hotel na Espanha, logo depois de ter me separado de um relacionamento de dez anos. Foi uma grande conversa comigo mesma, como acontece às vezes entre duas amigas muito íntimas. Ou seja, é um livro fácil de ler. Depois que o escrevi, muita coisa aconteceu. No livro, escrevi uma carta pedindo para encontrar o meu “Príncipe Encantado”. Um ano depois, eu o encontrei. Agora estamos juntos há nove anos, viajamos muito juntos e separados e já fizemos três rituais de casamento. “A Ciência da Paixão”, como estudo e busca espiritual, não é um caminho fácil. É um caminho fascinante e, por isso mesmo, ele é perigoso. Pode ser fatal, mas também pode ser maravilhoso. Enfim, certos livros salvaram a minha vida e me inspiraram, me motivaram a seguir caminhando. Por isso, hoje sou escritora. Eu escrevo por gratidão e por paixão. O meu sonho é que as minhas palavras sejam sementes eclodindo em flores de amor nos corações das pessoas.



Artigo gentilmente cedido por Brazilian Press Online.
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NOTICIAS
Antonella Zara fala sobre o livro A Ciência da Paixão
By Vanessa Mael

A carioca Antonella Zara, de 34 anos, é a autora de "A Ciência da Paixão", livro lançado em dezembro de 2002 pela Editora Fissus do Rio de Janeiro. Antonella, que reside atualmente no sul da Bahia, estará em novembro lançando a obra em Newark. Num breve bate papo com o Brazilian Press, ela fala um pouco mais sobre o livro e seu relacionamento com Paulo Coelho.

1) Brazilian Press: Você já tem outros livros publicados?
Zara: Este é o meu segundo livro. O primeiro foi um romance entitulado "Aipotu e o Viajante da Utopia" (Editora Casa da Palavra, Rio de Janeiro, dezembro de 1997).

2) BP: Como está sendo a repercussão do livro no Brasil?
Zara: Seis meses após ter sido publicado, a repercussão está sendo cada vez maior. Tenho viajado fazendo lançamentos em todas as capitais brasileiras, dado diversas entrevistas e palestras sobre o livro. Há já interesse em fazer a tradução dele para inglês, francês e alemão. O livro tem agradado a diversos tipos de pessoas por ter sido escrito em linguagem coloquial e discutir temas filosóficos de uma forma muito simples.

3) BP: Qual a importância do livro para o público?
Zara: O livro trata de temas que dizem respeito a todos: amor, paixão, sexualidade, felicidade. Ele provoca grande interesse junto aos leitores por sua abordagem diferenciada desses assuntos essenciais. Nele ocorre um diálogo muito íntimo no qual faço perguntas e recebo respostas de mim mesma que surpreendem pelo que têm de prático e profundo ao mesmo tempo. As pessoas conseguem se identificar com esta forma porque todos têm, de uma maneira ou de outra, essas "conversas" consigo mesmos. O diálogo interior tem um papel fundamental porém ainda bastante inconsciente na rotina do ser humano.

4) BP: Qual foi sua inspiração para escrever um livro sobre a paixão?
Zara: A paixão sempre foi para mim a energia motivadora da existência, aquilo que mais nos transforma, nos faz avançar, crescer, sonhar, acreditar nos sonhos...
É a vibração fortíssima que pode ocorrer entre duas pessoas mas é também tudo aquilo que nos fascina, nos faz vibrar e nos dá sentido. No livro a paixão é abordada como sendo a energia mais potente que podemos conhecer e direcionar em nossas vidas para alcançar tudo aquilo com que sonhamos tanto afetiva quanto profissionalmente.

5) BP: Por qual motivo você se refere a Deus como "Deusa" em seu livro?
Zara: "A Ciência da Paixão" trata o fenômeno da existência em termos de energia, o que desfaz a ilusão da separação e reconecta o ser humano ao mundo no qual vive, fazendo compreender que existe um processo energético maior que se manifesta dentro e em volta dele. Este processo seria o divino, ou Deus.A Deusa seria uma forma de alertar para o renascimento do "feminino" no mundo atual, o que seria uma evolução do movimento feminista, que reflete a consciência de que, para a criação, são necessárias as energias feminina e masculina, ou seja, Deus e Deusa, a face feminina de Deus. Uma sociedade que busca ser mais justa e feliz terá que reavaliar tudo o que foi criado até agora, adicionando um "toque feminino" para reorganizar o caos vigente.

6) BP: Como Paulo Coelho tomou conhecimento da sua obra e citou trechos do seu livro em "Onze Minutos"? Qual a relação que vocês mantém?
Zara: Paulo e eu somos amigos há alguns anos. Ele tinha planejado há algum tempo escrever um livro sobre sexo. Quando contei a ele que havia escrito sobre paixão e sexualidade, ele se interessou e pediu que enviasse meu texto. Depois de alguns dias ele me contactou, entusiasmado, pedindo autorizãção para usar trechos de "A Ciência da Paixão" no livro que estava escrevendo.

7) BP: Quais são suas expectativas para o lançamento de "A Ciência da Paixão" nos EUA?
Zara: O evento está sendo organizado por Ivan Silva que é um leitor entusiasmado com o livro. Ele vive nos EUA e estava passando férias em Curitiba quando o comprou. Sentiu que tinha que me conhecer, o que, por uma série de coincidências, aconteceu logo em seguida. Nos encontramos por algumas horas, depois disso mantivemos contato, e logo surgiu a idéia de lançar o livro em português junto à comunidade brasileira nos EUA, e posteriormente lançá-lo em inglês.

Sugestão de Boxe: "Tenho certeza de que o evento será muito bom, como tem sido em todos os lugares por onde tenho passado. Parece que o livro, de alguma forma mágica, desperta de fato a paixão em muitas pessoas! O que, é claro, é muito bonito para mim".

Antonella Zara© Brazilian Press - Todos os direitos reservados





Fenomenal! - JOÃO VIEIRA

Perguntei à Antonella Zara, autora de Ciência da Paixão (Editora Fissus, RJ - 2002), como fazer para compensar a roubada cultural em que se metem os que intentam buscar na escola formal e convencional o devido preparo para a vida; e que remontam à casa dos milhões, na sua maioria jovens, abertos à curiosidade intelectual, é verdade, mas fechados todos em rematada credulidade numa razão posta, aliás, prática. Ou, quem sabe, imposta? Ela se deu um tempo - como que viajando em vácuo de formulações para repetir-me em endosso e reforço: Como fazer? Observei então que via na sua obra um passo dado nessa direção. Por quê?

Acontece que não levara o livro à sua mesa para autenticação autográfica sem antes folheá-lo e ler, à esmo, trechos que confirmassem sua densidade conteudística, bem como sua linha de orientação. De fato o livro não padece do insosso de vazios e ociosidades. Não! A publicação acrescenta, seja pelo novo que traz ou síntese em que se constitui do velhíssimo assunto da transcendência. Velho? Aqui nem tanto. O orientalismo esotérico, a questão escatológica e transcendental é posta entre nós, mas por segmentos mais conscientizados e espiritualizados. Grupos restritos de "iniciados" ou quase. O grosso mesmo de nossa visão cultural é o racionalismo cartesiano, seriado, compartimentado, moldado às vezes por método esquemático e rígido. Quando não o pior: massificado, turvado em opacidade limitante pelo açodamento da razão prática ou nossa razão pública. Razão imposta?

Claro é que em meio à avalanche da ganga cultural, há ilhas de excelência. Excelência técnica ou mesmo "científica", em que pese haver muita tecnologia travestida de ciência. E ciência, como sabemos, e para sermos atualizados, envolve mais parâmetros que os limitados à ortodoxia positivo-racionalista. Especialmente, repita-se, se formatados em esquematismos submissos aos prógonos da eficácia e imperatividade lucreira. Como sói ser do gosto do Ocidente "cristão" urbano-industrial.

AZ saiu dessa. Livrou-se da rigidez cosmovisiva racionalista apesar de ter nascido no Rio de Janeiro e cumprido a fase de juventude na Europa. Saíra, então, amadurecida para o mundo, indo logo buscar iluminação na experiência de andar muito, sozinha, trilhando o famoso "Caminho de Santiago". Perto estava de nos dar Ciência da Paixão, obra na qual recoloca, refaz e muitas vezes resume, em boa síntese, o veio orientalista de pensamento e cultura, resgatando a compreensão aprofundada da força original das coisas ao dizer de energia. E, curiosamente - revela ela - aprofunda-se na dimensão transcendente, na espiritualidade com um Xamã. Enfim Antonella Zara, como se pode observar, transita na fímbria que une (ou divide) os campos separados da tradição cultural oriental e o racionalismo ocidental - mais exatamente o iluminismo europeu; o racionalismo cartesiano cabendo, entretanto, ressalvar a faixa civilizacional intermédia entre o Ocidente e o Oriente: o mundo eslavo. Não por acaso, teria sido na velha Rússia onde a confissão e cosmovisão budistas tiveram a primeira acolhida fora dos domínios territoriais originários.

De resto, não somos dos que estranham o interesse da autora pelo xamanismo, vez que nossos índios, onde pontificam Xamãs, são uma orientalidade tropicalizada e não o contrário: tropicalidade orientalizada. Vale o registro de que submetemos um tal enunciado ao mestre Gilberto Freyre, tropicalista insigne e este o cooptara em pronta e espontânea declaração, testemunhada: "queria ter sido eu a dizer isso; observar essa questão de fundo...
"Anote-se que a obra nascera gêmea da fama e fortuna quando teve, tomados por empréstimo, trechos para integrar o "best seller" Onze Minutos do escritor Paulo Coelho. O empréstimo se destinara a compor parte do diário da Maria, personagem do livro mencionado e que embarca para a Suíça (Genève), em busca de sucesso profissional e logo cai na realidade nua e crua da vida de prostituta. Não terminei, ainda, de ler nem um, nem outro, mas já o bastante para perceber que estamos diante de um caso consumado de reesquadrinhamento da razão e que a emoção pode - sim senhor - recobrar espaço e importância. Seja assim e sempre! joaovieira01@globo.com



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