_Você
está com medo?
Eu não sabia do que ele estava falando. Medo
de dar o último passo que separava nossos pés
do abismo? Medo de me jogar na imensidão? Medo
físico de pular no vazio, ou medo emocional de
ser feliz demais? Ah! Havia tantos medos! A
excessão é quando eu não estava
com medo. O que não era o caso.
_Sim.
Ele sorriu.
_Ótimo.
Comece a correr com força e não páre
nem mesmo no momento em que não estiver sentindo
mais o chão embaixo dos seus pés.
Correr. Com
força! Esta era boa. Se ele tivesse dito "eu
quero que você se mate e goze ao mesmo tempo",
eu não acharia aquilo mais grotesco do que o
que ele havia acabado de me dizer. Senti a respiração
dele quente em meu pescoço. Como eu gostava de
sentir aquela brisa perfumada soprando através
das narinas másculas e por entre aqueles carnosos
lábios! Eu imaginava o ar entrando virgem naquele
corpo, e descendo até as profundezas daquele
ventre, tão próximo do pecado, e voltando
deflorado para mim Aquele hálito maciço
me falava de coragem, de rebeldia, de sensualidade.
De homem, enfim.
Fechei os
olhos, mas resolvi abri-los de novo. Tudo bem. Tudo
bem. Levantei o pé direito, afinal, é
bom sempre entrar com o pé direito em tudo, até
mesmo no vazio. E eu corri! Meu Deus, eu corri! De repente
meus pés já não existiam mais,
eu era uma bostinha pendurada por fios, uma marionete
do vento. Minhas pernas entortaram, comecei a ir para
a esquerda ao invés de ir em frente, como eu
achava que devia ser. Pensei, e nem mesmo me importei,
que estava morrendo. Não havia tempo para chiliques.
Creio que
é sempre assim quando nos apaixonamos. Fazemos
de tudo, desafiamos nossos medos, nos humilhamos, até
mergulhamos na loucura atrás do encantamento
daquele alguém desejado... Isto é maravilhoso
porque nos faz sair de nós, e ao mesmo tempo
pode ser uma armadilha porque nos arranca a identidade,
faz com que não vejamos mais nada. Um tempo depois,
de repente, percebemos que, de alguma estranha ou maligna
forma, fomos corrompidos. Se não voltarmos logo
à superfície, nós nos afogaremos.
Apenas o desespero é mais forte que a sublimação
do vício. O poder do pavor faz com que nossas
cabeças emerjam da sujeira. Nadar no lodo nos
emporcalha, mas o embevecimento de nos descobrir vivos
depois disso nos torna lindos. Por isso, provavelmente,
a flor de lótus nasce da lama. Para nos extasiar
e para que reconheçamos nosso próprio
reflexo quando morremos e renascemos, graças
à paixão. É simplesmente bonito,
ainda que não faça sentido algum.
Meu Deus!
Eu estou voando! Eu estou voando!!! Eu vôo e me
esbaldo, vôo e descubro que a maravilha é
entregar-se, ainda que seja necessário morrer
disso.
Pelo menos foi isso que senti ali, naquela manhã,
pulando com aquele homem de pára-pente da Pedra
Bonita em direção às alturas da
praia da Barra da Tijuca, em um dia qualquer no Rio
de Janeiro. Os carros e as pessoas se tornaram formigas
nervosas da civilização, e lá estava,
sobrevoada por mim e, vista de cima, a cidade mais linda
do mundo, para quem se dá o tempo de admirá-la.
Quem diria: eu era como qualquer uma daquelas gaivotas
à minha frente, brincando de planar acima do
mundo.
_Você
está bem?
_Eu
É lindo.
Minha voz,
entrecortada. A mão dele sobre a minha. Enqüanto
nós escorregávamos no espaço, flashes
de nossos corpos simulavam aquela dança sublime
de ontem à noite, colados como miragem sobre
a cidade. Ah! Como fora doce o seu beijo, seus dedos
perdendo-se na curva de meu pescoço, examinando
os ossos que pareciam saltar por debaixo de minha garganta,
formando reservatórios para sua saliva
Descobrir minha carne nada mais que uma extensão
dos arrepios provocados por aqueles toques trêmulos,
descendo em direção ao meu seio, por debaixo
do decote ofegante da blusa
_Estamos com
sorte. Há muitos ventos ascendentes.
Disse ele
e eu sorrindo para qualquer coisa que ele dissesse.
Sim. Sim.
De repente parecia até que eu entendia a essência
da beleza. Nada a ver com aquilo que nos ensinam nas
escolas. Todos os dias somos meros mortais, cheios de
medos, caminhando pelas ruas de uma cidade onde a morte
parece espreitar-nos de cada esquina. Já nos
chateia saber que vamos morrer, mas chato mesmo é
que, ainda por cima, ficam falando disso na televisão,
nos jornais, o comentam a cada vez que conversamos,
nos dizem: vamos morrer! Mas não nos ensinam
a ajudar e amar uns aos outros, a parar de sofrer, a
começar a refletir e agir, o que certamente seria
mais inteligente, diante desta única evidência
que se pode conhecer. Não! Os paranóicos
gritam: tenham medo! Escondam-se! É o fim do
mundo! Não se arrisquem!
Ui. Estamos
balançando! Vamos cair? Vamos morrer agora?
Como se lessem
o meu pensamento, as palavras dele chegam para me socorrer,
a voz dele desmanchando-as tal açúcar
mascavo em meus ouvidos:
_Você
está sentindo o vento? Ele está maravilhoso!
O momento não poderia ser mais propício
para você voar pela primeira vez!
Voar
Voar Beleza mesmo é voar. É afastar-se
das coisas, sobrevoá-las e descobrir, naquele
vão entre nós e o mundo, a nossa própria
pequenez. E desfrutá-la! Jogar-se no medo, e
pensar
De novo a
voz dele, despertando-me de meus devaneios, fazendo-me
sentir um gosto de caramelo quente na ponta da língua:
_E então,
o que você está pensando? O que acha disso?
Como não
sorrir para este homem? Nem importa que ontem tenha
sido nossa primeira noite juntos. Parece que nos conhecemos
há séculos. Como não venerá-lo
depois disso ? Ele me faz cagar de medo para, depois,
bêbada de mim, me levar a descobrir que estou
viva Ontem, quando fazíamos amor, ele me
olhou nos olhos, e disse: "Nao quero que cheguemos
ao orgasmo agora. Quero, antes, voar com você."
Eu havia rido,
sem entender o grau de insanidade ao qual a paixão
pode nos levar. Apenas hoje de manhã, quando
entrávamos na floresta densa e deixávamos
as ruas de meu dia-a-dia, nas quais, às vezes,
nos espelhos provocados pelas poças da rotina,
chego a me perder, eu comecei a compreender. Aliás,
adoro entrar nestas estradinhas serpenteadas que de
repente transformam as ruas de minha cidade em um estranho
esconderijo florestal, como se fosse a cavidade entre
as pernas de uma mulher, camuflada apenas por uma cortina
de verdes e densos pêlos púbicos.
_Aonde vamos?
- Eu perguntei.
_Vamos terminar
o que começamos ontem.
Ele respondeu
e, na suave serenidade de sua expressão, revi
a dor de seu rosto na noite anterior enquanto ele, duro
como uma rocha, se despregava de meu corpo e nos privava
de um prazer estrondoso, porém fácil.
Não. Antes ele queria atravessar a floresta,
chegar ao pico, jogar-se no abismo comigo
_Você
não me respondeu.
Ele falou,
despertando-me de meu delírio. Estávamos
de novo voando.
_Qual foi
mesmo a sua pergunta?
_Se você
está gostando. O que está sentindo
Senti o tal
do vento ascendente levando-nos mais alto, mais longe,
mais próximos da imensidão do mar. Olhe!
Eu queria dizer, gritar, dançar. Olhem! A gaivota
abandonando o conforto, parando de planar e mergulhando,
frenética, além de si mesma, no oceano.
Nascer é o risco. Viver é o desafio.
Aspirei o
perfume aveludado de meu amante envolvendo-me com tufões
de ar quente, expulsando meus demônios, minhas
dores passadas, meus medos, como o melhor dos incensos.
Percebi, também, meu sangue fervendo nas veias,
como se eu tivesse bebido um daqueles vinhos que nos
fazem esquecer o ano em que estamos, a nossa idade e
o nosso nome, aquele tipo de vinho bom que nos transporta
aos metros de pele que cobrem nosso corpo e serão
tocados em breve. Eu queria dizer: obrigada. Àquele
homem, a minha cidade, à vida, por me permitir
viver até aquele momento. Queria gritar de felicidade,
dizer que Agora sim, agora eu poderia ser sequestrada,
receber salário atrasado, ficar parada no trânsito,
eu poderia até mesmo morrer e tanto fazia. Antes
o mundo era do tamanho do meu medo e eu era escrava
dele. Agora ele era um universo sem tamanho e tinha
o sabor da minha paixão. Juntos, o mundo e eu,
derrotaríamos todos os dragões. Eu estava
viva!
Mas achei
melhor não dizer nada daquilo, pular plenamente
no abismo da vida com ele, e responder:
_Eu te amo.
Ela era dessas
mulheres que preferem sentir a pensar. Seu nome era
Joana, mas poderia ser qualquer outro e, de fato, era,
quando ela encarnava seu alter ego. Nem mesmo
ela sabia como sua vida havia mudado tanto de um dia
para o outro. Ela deixara de ser apenas a elegante e
culta moça de refinadas maneiras e berço
de ouro, a esposa apaixonada, dedicada e perfeita. Aconteceu
durante as horas silenciosas, enquanto seu marido trabalhava,
em uma daquelas úmidas tardes de verão,
quando ela normalmente se dedicava à costura,
à leitura de clássicos do pensamento,
aos cursos de gastronomia, às aulas de piano,
canto e dança contemporânea, aos intermináveis
chás com amigas, todas casadas e de boas famílias.
Uma bela tarde ela incorporou "a outra". Aquela
cuja existência era desconhecida por familiares,
amigos e principalmente por Randolfo, seu venerado e
magnífico marido...
Tudo havia
sido tão natural quanto uma súbita chuva
tropical. O dia do despertar começou sereno e
límpido. As empregadas chegariam mais tarde.
Joana tivera o cuidado de organizar os dias de forma
que os poucos momentos que o casal tinha um para o outro
fossem reservados apenas para os dois. Ela se levantou
da cama bem antes dele, como sempre insistia em fazer,
comprou rosas frescas, preparou com esmero o café
forte e aromático, o suco de laranja-cravo, a
torrada beurré, e sobre ela uma fatia
de peito de peru e uma colher de confiture de
mirtilles. Arrumou carinhosamente a mesa de vidro
com as flores no centro, admirou uma vez mais os detalhados
pés de cedro do móvel, a palha delicadamente
trançada do serviço americano, a prata
sulcada dos talheres. Acordou Randolfo com um terno
beijo e carícias nas costas, como de costume,
estendeu-lhe a toalha após sua sonolenta ducha,
apertou o nó em sua gravata, colocou o Cd de
música clássica durante o desjejum, como
ele gostava, assegurou-se de que ele não estava
esquecendo de nada, e até o lembrou de um compromisso
importante enquanto o ajudava a entrar no paletó
impecavelmente engomado.
_Você
é adorável.
Ele disse,
e partiu para mais uma jornada em seu importante universo
repleto de homens engravatados e negociações
milionárias. Ambos eram ricos, jovens, ainda
queriam viajar muito e concordavam que era cedo para
ter filhos. "A menos que queira, você
não precisa trabalhar", ele havia sugerido
e ela assentiu de imediato, inteiramente de acordo.
Estudara filosofia por apreciação própria,
mas também para agradar a família e ninguém
esperava dela que fosse lecionar, competir ou se sacrificar
no rudimentar mercado de trabalho.
Entretanto,
naquela específica tarde de verão sentia-se
lânguida e sôfrega ao mesmo tempo. Nenhuma
aula, ida ao cabeleireiro, depilação,
massagem linfática, nem mesmo um tête-à-tête
com uma amiga, programa algum estava marcado e não
tinha nada para fazer. Sentou-se em frente à
televisão, mas não conseguia prestar atenção.
Examinou suas unhas, passou o dedo para conferir se
os móveis estavam limpos, foi ao quarto arrumar
suas jóias, pensou em ler um livro de um jovem
filósofo aclamado pelos críticos, mas
fazia meses que havia perdido o sabor da leitura. Lia
apenas algumas frases de cada capítulo para manter-se
informada e ser capaz de pimpar durante algum jantar
com amigos ou clientes de Randolfo. Acabou por optar
por uma revista. Folheou-a desinteressadamente, até
que seus olhos se viram sugados por uma reportagem.
Tratava-se
de uma entrevista com uma proprietária de um
bordel de luxo. Na foto uma soberba e altiva mulher
cruzava sensualmente suas longas pernas, recostada sobre
um canapé cor de creme. A imagem da caftina era
de uma força ímpar, evocava em Joana seu
fascínio infantil pela história das amazonas
e as fantasias relativas à aparência e
vida delas. Mais incrível era a trajetória
daquela mulher, repleta de impetuosidade, inúmeras
dores e prazeres, abundantes e dramáticas vivências.
Era notável o amor dela pela própria profissão
e a absoluta convicção que seu trabalho
servia a sociedade. Segundo ela, não fossem as
meretrizes, guerras estourariam, famílias se
dissolveriam, homens se suicidariam, as mulheres não
teriam conquistado seu espaço e seriam ainda
mais maltratadas do que já eram. Sem saber exatamente
por que, deparar-se com aquele universo, tão
distante e subitamente tão próximo, foi
para Joana como banhar-se em uma fonte de água
benta e milagrosa. Era daquilo que ela precisava.
Na verdade,
até aquele momento ela nem sabia que lhe faltava
algo. Vivia seus dias em plena aceitação
de seu destino. Os eventuais pesadelos, as repentinas
angústias, a sensação de estar
em um corredor cheio de portas e não saber qual
delas escolher, tudo aquilo eram fantasmas transitórios,
menos interessantes ou importantes que as bolhas no
copo de Champagne que tomava como aperitivo todas
as noites, antes do jantar. Estudos, teorias, política,
debates ou livros, nada daquilo tornara o mundo menos
sórdido. Muito cedo Joana se resignara à
transitoriedade e à inevitabilidade da tragédia,
características inerentes à vida. Para
ela, não havia caminho a trilhar senão
o da satisfação pessoal. Não era
daquele tipo idealista nem se sentia na obrigação
de fazer caridade ou inventar moda simplesmente por
fazer. No entanto, ao ler aquele artigo, foi como se
o imenso vazio de sua vida se abatesse sobre ela. A
criança que sonhava com um mundo melhor ressurgiu
do oco de suas entranhas. Ela sabia que era impossível
criar uma lei que dissipasse o ódio, a inveja,
o orgulho, o medo, o egoísmo, a falta de consciência,
a percepção errônea e os vícios
doentios. Apenas idéias e boas intenções
não cortavam a raiz de todos os males. Era inviável
mudar o estado das coisas apenas com palavras supostamente
inteligentes. Mas no reino dos sentidos, nos vãos
espaços da matéria e da criação,
no abismo obscuro das carnes, tudo era possível.
Sem pestanejar, ela foi até o armário,
arrumou uma bolsa com alguns pertences, retocou a maquiagem,
vaporizou com uma cara fragrância egípcia
o decote da blusa, os lóbulos das orelhas, os
pêlos perfeitamente tosados sob a lingerie
de seda.
O encontro
com sua futura patroa foi tão fácil e
óbvio quanto tudo aquilo que acontece por obra
do destino. Ambas se contaram suas respectivas vidas,
riram muito bebericando um suco de frutas do bosque,
e descobriram uma notável afinidade. Naquela
mesma tarde, já devidamente empregada, Joana
representou quatro diferentes mulheres. Trabalhando
de duas a três vezes por semana, em pouco tempo
já havia conhecido vários tipos de homens,
gordos e magros, cultos e brutos, fortes e fracos, poderosos
e subordinados. Por cada um deles sentiu infinda compaixão,
comiserou-se sinceramente de suas dores, e adicionou
conselhos ao remédio dos prazeres.
De manhã
e de noite ela ainda portava digna e tranqüilamente
sua identidade, mas muitos notaram nela um novo brilho,
uma qualidade mais aberta de presença, uma forma
generosa de interceder menos por si mesma e mais a favor
dos outros. A serenidade sorria de seus gestos, a feminilidade
exalava de seus trejeitos, um secreto e desconhecido
perfume, um sutil e vibrante espírito permeava
cada uma de suas ações.
Randolfo reinflamou-se
de paixão por sua adorada esposa. Há muito
tempo não a havia visto assim, ou talvez nunca
percebera o quão absurdamente deslumbrante era
a mulher que tinha. Descobrindo em si uma saudável
intensidade e discretos ciúmes, disfarçou
um novo tremor na alma e presenteou-a com flores, jóias,
objetos de arte, passeios de helicóptero e uma
casa em uma ilha.
Alguns anos
depois ficou muito conhecida uma fundação
criada por um patrocinador anônimo. Era uma instituição
que visava ajudar o meretrício, legalizá-lo
junto ao estado, oferecer vantagens empregatícias,
apoio psicológico e espiritual a todas essas
mulheres, tão desprezadas pela sociedade. Nunca
se soube quem estava por detrás daquela ação
tão revolucionária. Mas em um quarto,
em um elegante bairro da cidade, para seguir dando o
apoio necessário a seu projeto, a fundadora despia-se
todas as tardes. Quando o fazia sua pele já não
lhe pertencia. Inúmeras mãos por ela passeavam,
cheiros se impregnavam em suas narinas, novos passos
da dança dos corpos germinavam, diferentes timbres
de voz colavam-se à sua memória, histórias
de vida brotavam em seus ouvidos, e saíam transformadas
de seus braços. No final da tarde, ela lavava
tudo debaixo do chuveiro. Pura e virginal, trêmula
e exultante, ela voltava para casa e gozava nos braços
do homem de sua vida. Finalmente, ela havia descoberto
a textura da felicidade.
No casebre
da família de Tião, vivia-se cada dia
como se fosse o primeiro e o último da vida.
Quando fazia Sol, a poeira da rua de barro deitava-se
em grossas camadas sobre a louça, os móveis
e as peles. Era necessário tomar banho de bica
e sacudir bem a roupa antes de sair para algum lugar,
pois em casa o pó impregnava até mesmo
os sonhos. De outro lado, em dias de chuva, baldes bebiam
a água das inúmeras goteiras. Em caso
de tempestade, uniam-se para fazer orações
e pedir aos céus que o barraco não caísse.
Como muitos
aventureiros antes deles, os jovens pais de Tião
haviam decidido deixar a aridez do sertão e tentar
a sorte em uma metrópole. Uma dura sina urbana
esperava por eles. Embora fosse forte, não era
fácil para Genésio achar trabalho em obras.
Quando conseguia, o salário mal dava para sustentar
os cinco filhos. Sua mulher, Dina, não podia
sair de casa porque o bebê ainda era muito pequeno.
Freqüentemente as lágrimas dela gotejavam,
deixando arroios salgados sobre o rostinho empoeirado
do recém-nascido, que sugava o pouco leite que
ela tinha e também as suas forças. Cantarolando
canções agrestes, ela rezava para que
nenhum de seus filhos adoecesse, para que o pequenino
parasse logo de mamar, começasse a andar e para
voltar a trabalhar como empregada doméstica.
Graças a Deus, pensava ela, os mais velhos não
haviam enveredado por caminhos tortos e já ajudavam
como podiam. O rapaz de 16 anos ganhava pelo vigor de
seus braços, como o pai. As duas meninas de 11
e 13 anos ainda não sabiam cozinhar, mas faziam
biscates como babás e faxineiras em casas de
família. Tião era o quarto filho. Ele
devia ter menos de seis anos quando anunciou cheio de
orgulho diante dos pais e irmãos:
_Um dia eu
vou ser um poeta famoso e vocês vão melhorar
de vida!
Neste momento,
um raio de sol entrou pela fresta da parede, o bebê
parou de berrar, as duas irmãs desistiram da
briga, o mais velho engasgou com a rapadura que estava
comendo, e a mãe enxugou uma lágrima do
canto do olho. Mas o pai não percebeu nada e
pisou nos castelos de vento do garoto:
_Ora, meu
filho, que idéia é essa? Nem mesmo o seu
pai sabe ler e escrever! Isso não é trabalho
para pobre. Não comece a sonhar com coisas impossíveis.
Eu já expliquei a você que a vida é
feita de dureza e luta. Semana que vem você começará
a engraxar sapatos no ponto do Macedo
Tião
assentiu em silêncio, foi se sentar do lado de
fora e olhar o movimento da rua. Não adiantava
falar com os adultos, eles não entendiam nada.
Porém estava contente. Os engraxates sempre conversavam
com seus clientes e escutavam histórias. Resolveu
anotar mentalmente todos os relatos e guardá-los
nas gavetas de sua boa memória. Quando finalmente
fosse alfabetizado, ele escreveria grandiosos versos
sobre eles e o país inteiro se comoveria ao lê-los.
Por obra da
sorte ou do destino, um dos primeiros fregueses de Tião
gostou muito dele. Roberto era um solitário português
aposentado. Havia perdido a esposa, vítima de
um fulminante câncer, e desde então passava
seus dias a ler e jogar xadrez na praça com outros
senhores de idade. Seus filhos sempre estavam ocupados
demais para lidar com as manias de um homem idoso e
ranzinza. Não sabiam que o sofrimento e a idade
amansam uma pessoa, nem que seu velho corpo ainda abrigava
um sonhador. Enquanto seus sapatos eram lustrados com
esmero, Roberto viu duas estrelas brilharem nos olhos
do menino ao perguntar o que este queria ser quando
crescesse. Diante da surpreendente resposta, o português
retrucou:
_Poeta? Por
acaso sabes ler e escrever? Se quiseres realizar este
sonho, terás que ir para a escola e estudar muito.
_Não
sei, não senhor, e não posso ir para a
escola porque preciso ajudar meus pais. Mas tenho fé
em Deus e sei que aprendo rápido. Um dia alguém
vai me ensinar.
O coração
do homem se apertou, e ele comiserou-se de seu jovem
interlocutor. Talvez tenha sido compaixão, solidão,
ou quem sabe as duas coisas juntas, que o levaram a
decidir falar com Macedo. Ofereceu-se para, na hora
do almoço, tomar conta, dar comida, ensinar a
leitura e a escrita ao simpático miúdo.
Ao saber daquilo, o pai de Tião ficou desconfiado.
Generosidade não era comum na vasta selva de
pedras. Não obstante, depois de ouvir que se
tratava de um antigo e confiável cliente, resolveu
aceitar. Afinal, era possível que aquilo realmente
melhorasse as chances do filho conseguir um emprego
no futuro.
Em um ano,
professor e aluno se tornaram grandes amigos. O garoto
não somente assimilou bem aquilo que lhe fora
ensinado, como também começou a ler os
clássicos da literatura infantil. Além
disso, encorajado pelo amigo, se arriscou a dar seus
primeiros passos no misterioso universo da emoção
escrita. Por sua vez, grato a Tião por ter encontrado
um sentido para a sua cansada vida, Roberto prometeu
ajudar a família do pequeno prodígio para
que este pudesse freqüentar um colégio.
Entretanto, um dia após ter tomado tal resolução,
um ataque cardíaco o matou, e junto com ele foram-se
também as esperanças de Tião de
um dia poder vir a estudar.
Sem seu grande
amigo, livros para ler, nem dinheiro para comprá-los,
Tião chorou uma tarde inteira, sentado ao lado
de casa. Semanas mais tarde, ali onde suas lágrimas
beijaram o chão, nasceu uma mangueira sem que
ninguém a plantasse. Muito tempo depois, a frondosa
árvore não somente oferecia uma generosa
sombra a quem se sentasse sob seus ramos, como também
toda a vizinhança ficou sabendo que ela dava
as melhores mangas de toda a região. Mas o menino
Tião nada sabia do poder mágico das lágrimas.
Passou semanas e meses engraxando desconsolado, até
despertar em uma noite de lua cheia e não mais
conseguir dormir. Uma idéia havia brotado do
nada do sonho da mesma forma que o bebê saíra
do ventre da mãe e a árvore germinara
milagrosamente da terra. No dia seguinte, em seu horário
de almoço, comprou uma grande cartolina sobre
a qual escreveu: "Para um menino pobre e acanhado,
façam um generoso e grande favor. Doem um livro
por ele desejado, sejam a graça e a bênção
do Senhor.". Com essas palavras, prostrou-se
na porta de uma famosa livraria. Não tardou para
que alguns dos que dali saíam, carregando o peso
de caros volumes em sacolas, se sentissem tocados por
aquele olhar imenso e pelo sorriso de marfim. Foi assim,
mendigando livros e despertando a generosidade alheia,
que Tião conseguiu conhecer várias pérolas
de nossa poesia e literatura e aprimoradas traduções
de obras escritas em outros idiomas. Anos depois, todo
mundo que o conhecia sabia que ele era um grande contador
de histórias e um homem muito sábio e
culto. Mas por ter que ajudar seus pais e irmãos,
e mais tarde também sustentar sua amada esposa
e seus filhos, ou simplesmente porque assim é
a realidade, Tião se esqueceu de seu sonho.
Logo que cresceu,
foi juntar-se ao pai e ao irmão quebrando pedras
e cimentando tijolos. Em dias de sol escaldante, sua
pele rachava e a cabeça ardia e em dias de frio
cortante, os lábios sangravam e os dedos endureciam.
Incansável e humildemente, Tião trabalhava.
Nada sobrava das fantasias de menino senão versos
que borbulhavam da nascente de seus pensamentos desatentos.
Como bolhas que divertem a moçada e em seguida
explodem no ar, ou um arco-íris que fascina para
desaparecer logo em seguida, também seus poemas
surgiam, o distraíam e partiam sem deixar rastros
à medida que as paredes das construções
subiam. Com o passar dos anos, e o multiplicar das desgraças,
eles foram se tornando cada vez mais tristes.
Sob tais pobres
condições de vida, os pais dele não
demoraram a deixar este mundo. Dos seis filhos de Tião,
um morreu por falta de leite, outro de remédio
e o mais jovem desapareceu durante as guerras do morro.
Com tamanho sofrimento e de pura tristeza, faleceu também
a esposa dele. No dia em que ela se foi, a poesia finalmente
se calou na alma de Tião. Ele parou de lutar
e saiu caminhando a esmo pelas ruas. Começou
a beber cachaça e dormir sobre caixas de papelão
em esquinas cheirando a urina. Derrubado pela birita,
às vezes até no meio da calçada
ele acordava. Em uma dessas quedas, bateu a testa com
tanta força no chão que, ao despertar,
sua face estava toda suja de sangue.
Pela intensidade
do golpe ou porque a vida não é só
feita de infortúnios, ao abrir os olhos Tião
começou a rir. Riu tanto que até chorou
e suas lágrimas limparam seu rosto e sua alma.
Levantou e a primeira coisa que fez foi entrar em uma
padaria e pedir por um papel e uma caneta. Naquela manhã
escreveu o primeiro dos inúmeros poemas que agora
fervilhavam em sua cabeça. Rabiscou-os sobre
panfletos achados na rua, guardanapos doados por bares,
papel de embrulho amassado, catado no lixo, nas próprias
mãos, braços e pernas ele escreveu. Jogou
versos aos ares e ventos, escrevinhou e recitou tanto,
em voz alta de alegria inflamada e trovejante, que passantes
pobres e ricos acabaram por escutá-lo. Curiosos
e infelizes, românticos e eruditos, até
mesmo rádio e televisão vieram a ele.
Sua súbita fama alastrou-se país afora,
sua poesia virou música e livros, e foi tão
longe que abriu as portas para que seus filhos e parentes
fossem encontrados pela imprensa, entrevistados, reconhecidos,
conseguissem direitos autorais, melhores empregos e
moradias, e até pudessem aprimorar o jazigo dos
entes queridos que se foram. Mas embora a família
insistisse, Tião nunca mais quis deixar a vida
das ruas. Continuou a escrever sem nada saber da força
mágica dos versos nem se lembrar de seu próprio
nome. Um belo dia, em uma esquina qualquer, morreu subitamente
com um sorriso de marfim. Como a própria vida
dele, o poema que tinha na mão soltou-se e foi
levado pelo vento.
O Sol do fim
da tarde coloria a vida de tons rosados e dourados,
a pele flutuava entre os movimentos arredondados do
caminhar, tudo era delicado e inocente. Aproximava-se
uma noite de Lua cheia, e a maré estava especialmente
baixa. Os pés deixavam seu rastro molhado de
passos na areia, e eu brincava de multiplicá-los
um ao lado do outro. Fui andando pela praia deserta
rumo ao centro da cidadezinha. Eu nunca havia sido mais
eu do que naquele momento no qual o passado não
existia.
Acercando-me
da curva do mar, ali onde se podia avistar a continuação
infinita da areia, sugerindo futuras caminhadas rumo
ao esquecimento, vi de perto os barcos dos pescadores.
Ancorados e coloridos, eles boiavam placidamente, remetendo
a algumas canções de Dorival Caymmi. A
bela imagem me surpreendeu. Parecia que eu podia ouvir
as notas de música no balanço dos barcos,
e a beleza era tão absoluta e genuína
que ela me doeu. Fiquei sem ar por alguns segundos,
e me sentei na areia para me recuperar. Onde eu havia
estado, o que eu havia feito, quem eu havia sido? Nada
disso existia nem importava ou era real diante daquela
imagem que inundava os meus sentidos. Não sei
quanto tempo se passou, mas a noite caía quando
pensei em me levantar. Fiz menção de erguer
o corpo, quando uma voz soou atrás de mim:
_Não
vá embora ainda. A Lua cheia vai nascer do mar
daqui a pouco.
Eu não me assustei, e olhei para trás
com serenidade. O homem se aproximou e se sentou ao
meu lado. Ele trazia consigo um berimbau. Sem se apresentar,
começou a tocar algumas notas, jogando feitiços
sobre o arame com uma varinha, e o som partia em espirais
ascendentes, variando diferentes tonalidades. Finalmente
ele deitou o instrumento ao seu lado, e virou-se para
mim.
_Você
toca berimbau?
_Não.
_Você
não é daqui? Eu nunca a vi.
_Sou alemã.
_Qual é
o seu nome?
Olhei para
ele. Os olhos do rapaz não fugiram dos meus,
e neles eu vi refletidos o mar, os barcos, e o primeiro
raio vermelho de uma lua que se erguia miraculosamente
do horizonte. Virei a cabeça rapidamente para
não perder sequer um instante daquele espetáculo,
e talvez a minha respiração acelerada
o tenha divertido, ou surpreendido, pois ele disse:
_Minha Lua.
Eu chamarei você de Minha Lua.
Eu tive que
sorrir, e responder:
_Se eu sou
a sua Lua, você é o Meu Sol.
Ele não concordou nem contestou, mas seu silêncio
não era uma ausência, tudo nele era presença
sem que ele nada precisasse dizer. Esperei a Lua descolar
do mar e começar a flutuar no céu, imensa
em sua vermelhidão, antes de olhar novamente
para ele. Primeiro olhei de soslaio, descobrindo o braço,
reteso e robusto rente ao meu. Depois veio a cor da
pele, como é que podiam chamar aquilo apenas
de negro, tratava-se de uma profusão de cores!
Mesmo embora estivesse escuro adivinhei tons de roxo,
carmim, verde e ocre. A pele reluzia, e eu não
saberia dizer se ela refletia a noite e o rubor da Lua,
ou se era em mim que já estava se tatuando o
reflexo do Meu Sol.
Eu gostaria
de ver você de dia, nu e solto na imensidão.
O meu pensamento me perturbou e fixei o rosto, que também
se inclinava para o meu, estudando-me em silêncio.
Sua cabeça era oval e sem pêlos, e deixei
o meu olhar deslizar pela testa marcada de vida e de
sol, pelas sobrancelhas mansas, pelos olhos estrelados,
o nariz alargando-se rumo à boca perfumada por
um sorriso tímido, mas reluzente. Em volta daquele
homem havia um aro de partículas brilhantes como
aqueles que envolviam a Lua cheia que escalava o céu,
e que eu apenas havia visto naquele lugar, na Bahia.
Se alguém me falasse de paixão, ou de
amor predestinado, meu cinismo e ceticismo não
me permitiriam usar aquelas palavras, pelo menos não
ainda. Eu pensava mais em termos de fenômenos
naturais, que a ciência havia explicado tão
bem, mas nunca decifrado, enfim, dos milagres diários
como a chuva e o vento, a Lua e o Sol, a Lua Dele e
o Meu Sol...
Marianne.
Nos lábios dele eu fui Mariana com o R rolando
na ponta da língua, coisa que a maioria dos alemães
nem sonha em saber fazer, mas eu sei. Depois eu fui
também Minha Galega, Minha Gringa, Minha Amada,
Minha Sereia, Meu Bichinho, e o inesquecível
Minha Lua... Nas noites suadas e transbordantes de sexo
eu era Minha Devassa, Minha Cadela, Minha Loba, Minha
Perversa, Minha Gostosa, Minha Bomba e Minha Mulher.
Quando ele começou a falar na possibilidade de
morarmos juntos, e eu comecei a ser "Minha Mulher"
para ele, aquilo foi o início do fim, mas eu
só soube disso depois. Durante aquele ano eu
fui acima de tudo Mariana. Ouvir aquele nome deslizando
e pingando como um pedaço de manga por entre
os lábios carnosos e suculentos, aquilo me deu
uma nova dimensão de mim.
As primeiras
vezes que eu me aventurei no território inexplorado
do corpo daquele homem, eu senti como se estivesse devorando
a Bahia milímetro por milímetro, literalmente
espremendo seu suco e absorvendo sua essência.
Ele tinha um quê que me ensandecia, um cheiro
de jabuticaba, um sabor de fruta madura, pronta para
ser colhida e desmanchar na língua. Tocar aqueles
metros de pele açucarada ao som da música
tilintante das folhas dos coqueiros era muito próximo
a qualquer coisa que eu havia imaginado como paraíso.
Edivaldo de
Souza Filho, este era o nome dele, foi para mim Meu
Sol, Meu Ed, com o D macio - é preciso saber
dizer Édji - Meu Edinho, Meu Delírio,
Meu Deus Baiano, Minha Delícia, Minha Paixão,
e nas horas ardentes e úmidas, Meu Homem, Meu
Tesão, Meu Cavalo, Meu Insaciável, e Meu
Marido. Mas ele nunca chegou a ser realmente meu marido.
Ed era um bicho arredio, um ser do oceano, e a mulher
para ele era uma vitrine, um troféu, um peixe
que ele conseguiu pescar e que lhe permitia se gabar
perante seus amigos. Embora fosse alguns anos mais velho
que eu, ele não passava de um menino, um ser
intocado pela sociedade moderna, no bom e no mau sentido,
e havia uma inocência com gosto de maresia que
emanava de tudo aquilo que ele fazia e dizia. Ele teria
até ficado comigo, mas eu não seria nada
mais que sua esposa. Aquela que fica em casa e em silêncio
quando ele retorna perfumado de outros braços,
a que o faz gozar quando ele está com preguiça
de sair, mas que nunca consegue ter seu próprio
prazer plenamente orquestrado, porque ele tem medo de
se entregar real e totalmente. A mulher é, para
um homem como ele, apenas um recipiente morno e úmido
onde ele ejeta o seu esperma. Mas ele tem pavor de mergulhar
realmente nela, de lambê-la até o esquecimento,
beber de seu gozo com avidez e abraçar-se a ela
a noite inteira, pois isto significaria eventual dependência,
entrega e uma fragilidade que os outros nunca podem
sequer suspeitar que ele tenha... Ed tinha medo de me
amar demais, e por isso ele me amou de menos. Eu logo
compreendi que ele era assim, ele era um pescador, um
homem que pertencia ao mar e nunca pertenceria a mim.
Mas eu gostei
de entrar na pele de uma daquelas mulheres que olhavam
languidamente para o horizonte. Cada vez que Ed ia pescar
na madrugada, ali ficava eu, em pé na praia,
doente de paixão, rezando a cada minuto do dia
para o meu amado voltar são e salvo para os meus
braços, e acima de tudo para a minha cama. Ele
era a parte de um poema, e de uma eterna noite de Lua
encantada. Quando em uma tarde praiana uma pornográfica
sueca cintilou nos olhos dele, e se tornou subitamente
o centro de suas atenções, eu me preparei
para deixá-lo. Naquela mesma noite, coçando
a orelha e esquivando o olhar, ele me disse:
_Vou sair.
Não me espere para dormir.
Eu coloquei
as mãos em volta de seu pescoço, dei-lhe
um beijo de língua, olhei longamente em seus
olhos, e disse:
_Obrigada.
Ele tossiu,
se desvencilhou, me perguntou do que eu estava falando.
Eu queria lhe dizer, obrigada, por ter sido o meu Sol,
por ter me enlouquecido e mostrado uma paixão
que eu tinha em mim e nem sabia. Obrigada por ter me
dado pedaços do paraíso embrulhados em
momentos inesquecíveis, pela maneira como a sua
pele brilhou sob os meus dedos, e como o seu cheiro
inundou a minha vida, e finalmente, obrigada por me
devolver a mim mesma. Mas ele não entenderia,
estava já inquieto para sair e apalpar o silicone
das tetas suecas, e eu apenas disse:
_Simplesmente
obrigada.
Ao dizer isso
eu sorri, ele se esforçou para sorrir de volta
e foi embora, desatento e entediado como a pior caricatura
dos maridos. Deixei Ed ainda enlouquecida por ele, e
só de pensar em nunca mais aspirar o ar que saía
de suas narinas todo o meu corpo tremia, como se eu
já estivesse surtando pela falta de minha droga.
Saí daquele barraco que durante um ano havia
sido meu castelo, as lágrimas descendo soltas
pelo meu rosto, mas eu não me importava. Eu sabia
que era o fim.
Curiosamente,
não demorei muito para esquecê-lo. Sozinha,
em um país estrangeiro, pela primeira vez na
minha vida eu desfrutava realmente de minha própria
companhia. Eu ousava dizer aquela palavra, feliz, em
português, eu a cantarolava no banheiro, feliz,
eu a oferecia ao mar. Eu nunca tive religião,
mas se houvesse existido uma crença que falasse
da terra, do sol, da lua, do céu, do mar e das
estrelas, das coisas vividas pouco a pouco ao invés
de serem pensadas, do saber viver com qualidade, dos
momentos sentidos na pele, do tempo que desaparece,
esta religião com certeza se chamaria Bahia.
Aquele lugar me havia feito compreender o que é
paixão pela vida, um estado de espírito
além de todos os estados, uma compreensão
emocional e uma gratidão constante pelo simples
fato de estar viva. Viver sem paixão é
não conhecer o sabor da vida, não mergulhar
no espanto, não entender que nada se entende,
é nunca se transcender. Muitas pessoas ricas
não são felizes. Como será que
elas reagiriam se, um dia, despertando de seu sono,
percebessem que para ser feliz é preciso apenas
sentir-se vivo?
Era como uma
fera obscura mordendo o corpo por dentro e cravando
as garras prateadas na boca do estômago. Era uma
dor milenar, dessas que despontam de repente, tal qual
um tumor da alma, uma flor carnívora, ulcerosa
e purulenta, um buraco negro orgânico comendo
toda a vida que há em volta. Manuela era o nome
do desabrochar.
A história
deles não tinha muito mistério, era um
entre vários romances açucarados. Um rapaz
e uma moça se conhecem em uma festa. Logo, descobrem
que não somente estão prestes a estudar
medicina na mesma universidade, como também moram
no mesmo bairro e têm muitas outras coisas em
comum: freqüentam as mesmas praias, assistem aos
mesmos filmes, gostam das mesmas músicas, apreciam
a mesma moda. Enfim, pertencem à mesma classe.
Ele, aspirante a cirurgião, devoto da razão,
crê que buscando, tudo se acha, aprecia as coisas
esmiuçadas, abertas e pulsantes. Ela, mais emocional,
futura pediatra, gostaria de mudar o mundo, mas como
este é grande e complexo demais, apenas faz a
sua parte, acreditando na infância saudável
e promissora. Carismáticos, bonitos, inteligentes,
rapidamente tornam-se um casal popular que todos convidam
para as festas. São alvo de admiração,
inveja, desejos e fofocas, mas fingem não notar.
Às vezes, até divertem-se com isso. Adeptos
dos ideais impermeáveis e inabaláveis,
formandos com primor, casam com pompa e sorrisos. Figuram
em colunas sociais, viajam pelos Estados Unidos e pela
Europa. No álbum de fotografias, acessível
na Internet para os amigos mais próximos, as
fotos de abraços e beijos abundam, em ruas floridas,
praças cheias de pombos, avenidas triunfais,
os olhares altivos e esperançosos, as mãos
entrelaçadas, enquanto nas outras balançam
sacolas das quais transbordam roupas de marca.
João
não saberia dizer do que gostou primeiro nela.
Se fora seu cabelo cor de trigo, liso, sedoso e perfumado,
o corpo esbelto, mas generoso nos lugares certos, a
voz doce, quase lânguida, os lábios cheios
e inocentes, o olhar sereno, meio profundo meio triste,
roubando sempre a alma. Querê-la foi uma certeza
contundente e seca, como o estudo da medicina. Já
nas primeiras semanas de namoro ele soubera que ela
era a mulher da vida dele, aquela que o acompanharia
nos bons momentos e nas fases mais difíceis.
Além de ser também a perfeita mãe
para seus filhos, sendo que estes certamente haveriam
de ser belos e saudáveis. Eles formavam um casal
poderoso e estavam destinados a um futuro glorioso,
construído passo a passo, como o melhor e mais
imponente dos currículos.
Por ser ele
tão metódico, o enamoramento não
cedeu às primeiras investidas do tempo. Pelo
contrário, como com a outra paixão, a
medicina, o amor por Manuela apenas crescia, proliferava
em exaltação e fascinação.
Sua mulher era um fantástico objeto de estudo.
Desses que induzem horas de reflexão, logo roubam
parte cada vez mais largas dos dias e inteiras noites
de sono. João não tardou em perceber que
a complexidade desta ciência em muito ultrapassava
aquela do funcionamento dos organismos, na qual ele
fora aluno e depois profissional exemplar. No entanto,
diferente da profissão, onde os frutos do conhecimento
germinam inevitavelmente se regados com doses cavalares
de trabalho e dedicação, aprofundar-se
em Manuela era, pouco a pouco, afundar no lodo da ignorância.
Não
foi sem preocupação que ele rapidamente
concluiu que ela não era a mulher com quem ele
pensava ter casado. Tudo aquilo que ele inicialmente
nela vira era uma fachada frágil, um castelo
de areia que desmoronava a cada novo encontro, fosse
na aparente frescura da manhã ou à noite,
após uma intensa jornada de trabalho. Entretanto,
não era o entusiasmo que perigava sob o ataque
da verdade. Este somente inflava e crescia, desmesurado,
como o pior fogaréu. Não era isso. Diante
de seu próprio atônito olhar aquilo que
desvanecia e obnubilava-se mais a cada dia que passava
era a sua própria sanidade.
Mas como ficar
são diante das mudanças que ele acompanhava
na amada esposa? Ele as observava desde o primeiro abrir
de olhos, no momento do despertar, se noite de sono
houvera, pois estas se tornavam mais e mais raras. A
transformação não era somente física,
ela poderia preencher páginas inteiras, mais
de um tratado ser escrito e nunca as descreveria por
completo. Como explicar a pele perdendo dia a dia a
viscosidade infantil, não a seu detrimento, mas
trazendo à luz outro ser totalmente diferente,
realizando a mais diáfana metamorfose da menina
adolescente e sonhadora à inacessível
e brumosa mulher. A latente imprevisibilidade dela o
surpreendia nos momentos mais inoportunos, quando ela
deslizava pela casa como um silencioso fantasma ou vinha
abraçá-lo na cama, no meio da noite, quando
olhava para ele com aqueles olhos grandes cuja doçura
já não o enganava, era uma armadilha,
um artifício biológico de sedução,
uma forma de atrair todo e qualquer macho. E o que dizer
das fases da lua? Quanto mais esta crescia, mais algo
pernicioso borbulhava em Manuela, uma besta soturna
brotava de seu ventre e subia até seus olhos
brilhantes e sedentos de lua cheia. Nesses dias, ela
era capaz de desvendar o mais íntimo pensamento
do marido e pronunciá-lo da forma mais brutal,
e não raro ele tinha certeza de surpreender um
leve sorriso de escárnio nos lábios supostamente
pueris. Seus longos cílios tornavam-se então
armas fatais, desfechavam tiros em todas as direções
enquanto baixavam e subiam em lenta dança diante
de cada homem que dela se aproximava. E quando ela finalmente
menstruava suas palavras tornavam-se ferozes, suas veias
palpitavam em busca da próxima vítima
de seus humores mutantes, ela era um vulcão em
ebulição do qual jorrava o próprio
fogo do inferno e a lava ardente de sua presença
queimava-o irremediavelmente.
Às
vezes, quando o sono seqüestrava a consciência,
João desmaiava em sonhos inquietos, caía
em pesadelos sinistros nos quais Manuela era um bicho
sanguinário e ele a temia mais que a própria
morte. De certa maneira, era realmente aquilo que estava
acontecendo, ela o matava de um amor hemorrágico,
provavelmente vingava-se de sua condição
de animal aberrante, de vampiro no cio, sangrando a
alma de seu marido até que este enlouquecesse.
João já não sabia se era pavor
ou fascinação que sentia por ela, mas
não tinha dúvidas de que a psiquiatria
chamaria de obsessão seu interesse excessivo
nos fenômenos presenciados em casa. Entretanto,
se antes alguém tivesse lhe dito que o amor,
do qual todos falavam como se fosse um piquenique, um
passeio informal e inofensivo, que não era nada
disso, que amar doía, que viver com uma mulher
era, na verdade, uma viagem no expresso oriente da morte,
um salto no nada quântico, uma ascensão
ao mistério, ele talvez tivesse pensado duas
vezes antes de se aventurar desta forma. Mas agora era
tarde demais e ele não era homem de coisas feitas
pela metade.
Por isso,
logo ficou claro que, sem dormir direito nem pensar
em outra coisa que não fosse ela, ele não
podia mais trabalhar. Tentou algumas vezes explicar
a Manuela o que lhe acontecia, mas ela parecia alheia
em seus pensamentos e vaga em suas respostas. Presenteava-o
então com um carinho condescendente, chamava-o
de tolinho e ciumento, esquivava-se como uma cobra sinuosa,
sempre pérfida e maravilhosa, sempre disposta
a dar o bote mortal. E ele então calava, amando-a
apesar de seu veneno e provavelmente por causa dele,
querendo-a como nunca antes a quisera, embora já
nem pudesse tocá-la, pois cada toque transportava-o
para cavernas entranháveis, lembrava-o de que
a fonte de toda a vida dormitava naquele útero,
dava-lhe a vertigem das alturas do sexo, do abismo que
era uma mulher. Seguia Manuela pelas ruas então,
sem que ela o visse, examinava seu correio eletrônico,
suas cartas, seus escritos e suas roupas. Recordava-se
com pesar de si mesmo no passado, quando intocado pelo
fogo da paixão, como a própria mente despia
e fornicava cada mulher que lhe cruzava o caminho. O
que acontecia na mente de Manuela? Onde passeavam seus
pensamentos? A quem oferecia aqueles sorrisos e olhares,
tão cheios de enigmas impossíveis de decifrar?
Pensar naquilo o enlouquecia, pois ninguém era
capaz de ver além do corpo. Amigas, amigos, familiares,
conhecidos e colegas, todos queriam apenas o deleite
da voz melodiosa, a fragrância mágica dos
movimentos, a sabedoria cálida das palavras bem
escolhidas. Mas ninguém sabia dos recôncavos
submersos, do silêncio insondável de um
oceano visceral, vibrante e fecundo, que se expandia
muito além da pele sedosa e dos membros agradáveis
ao olhar. Na verdade, ninguém deveria ter direito
de aproximar-se de Manuela, pois ela era a própria
vida e seu corpo era a via sacra, o divino e o profano,
o início e o fim. Como suportar a dor da normalidade
à qual, por caridade ou por malícia, ela
se curvava, da mediocridade da rotina que a vulgarizava,
das sombras humanas que a circundavam, famintas e ávidas
do bálsamo de sua presença fulgurante?
Tivesse João
tendências assassinas, provavelmente ele a mataria,
com planejamento e precisão. Ciente da inviolabilidade
da essência, ele a cremaria, a poria em uma pequena
caixa entalhada, faria o mais belo dos altares e diante
deste realizaria vários cultos diários
até o último de seus dias terrestres.
Mas bem sabia ele que nada poderia expressar a gratidão
pelo conhecimento que o amor por Manuela nele finalmente
fizera brotar. No quinto ano de casamento, João
abandonou a carreira, a esposa, o lar e a cidade onde
vivia. Ninguém nunca soube de seu paradeiro.
Desconsolada, Manuela chorou rios de lágrimas.
Fazia tempo que ela desconfiava que ele tivesse outra
mulher. Mas o seu choro não durou muito, foi
rapidamente consolado por um atraente colega de trabalho
no hospital. Anos depois, correram boatos que João
fora visto no oriente, que virara um santo de olhos
reluzentes e expressão agreste. Diziam até
que fazia paralíticos andar e cegos enxergar.
Tão humilde e luminoso era ele que, quando questionado
sobre de onde vinha ou como se chamava, a sua resposta
enigmática era sempre a mesma: sou um homem apaixonado.