contos

Índice

1 - Eu Te Amo
2 - A Bela do Dia
3 - Versos ao Vento

4 - Sob o Sol da Bahia
5 - A Flor do Ciúme



Eu Te Amo

       _Você está com medo?
Eu não sabia do que ele estava falando. Medo de dar o último passo que separava nossos pés do abismo? Medo de me jogar na imensidão? Medo físico de pular no vazio, ou medo emocional de ser feliz demais?… Ah! Havia tantos medos!…A excessão é quando eu não estava com medo. O que não era o caso.
       _Sim.
       Ele sorriu.
       _Ótimo. Comece a correr com força e não páre nem mesmo no momento em que não estiver sentindo mais o chão embaixo dos seus pés.
       Correr. Com força! Esta era boa. Se ele tivesse dito "eu quero que você se mate e goze ao mesmo tempo", eu não acharia aquilo mais grotesco do que o que ele havia acabado de me dizer. Senti a respiração dele quente em meu pescoço. Como eu gostava de sentir aquela brisa perfumada soprando através das narinas másculas e por entre aqueles carnosos lábios! Eu imaginava o ar entrando virgem naquele corpo, e descendo até as profundezas daquele ventre, tão próximo do pecado, e voltando deflorado para mim… Aquele hálito maciço me falava de coragem, de rebeldia, de sensualidade. De homem, enfim.
       Fechei os olhos, mas resolvi abri-los de novo. Tudo bem. Tudo bem. Levantei o pé direito, afinal, é bom sempre entrar com o pé direito em tudo, até mesmo no vazio. E eu corri! Meu Deus, eu corri! De repente meus pés já não existiam mais, eu era uma bostinha pendurada por fios, uma marionete do vento. Minhas pernas entortaram, comecei a ir para a esquerda ao invés de ir em frente, como eu achava que devia ser. Pensei, e nem mesmo me importei, que estava morrendo. Não havia tempo para chiliques.
       Creio que é sempre assim quando nos apaixonamos. Fazemos de tudo, desafiamos nossos medos, nos humilhamos, até mergulhamos na loucura atrás do encantamento daquele alguém desejado... Isto é maravilhoso porque nos faz sair de nós, e ao mesmo tempo pode ser uma armadilha porque nos arranca a identidade, faz com que não vejamos mais nada. Um tempo depois, de repente, percebemos que, de alguma estranha ou maligna forma, fomos corrompidos. Se não voltarmos logo à superfície, nós nos afogaremos. Apenas o desespero é mais forte que a sublimação do vício. O poder do pavor faz com que nossas cabeças emerjam da sujeira. Nadar no lodo nos emporcalha, mas o embevecimento de nos descobrir vivos depois disso nos torna lindos. Por isso, provavelmente, a flor de lótus nasce da lama. Para nos extasiar e para que reconheçamos nosso próprio reflexo quando morremos e renascemos, graças à paixão. É simplesmente bonito, ainda que não faça sentido algum.
       Meu Deus! Eu estou voando! Eu estou voando!!! Eu vôo e me esbaldo, vôo e descubro que a maravilha é entregar-se, ainda que seja necessário morrer disso.
Pelo menos foi isso que senti ali, naquela manhã, pulando com aquele homem de pára-pente da Pedra Bonita em direção às alturas da praia da Barra da Tijuca, em um dia qualquer no Rio de Janeiro. Os carros e as pessoas se tornaram formigas nervosas da civilização, e lá estava, sobrevoada por mim e, vista de cima, a cidade mais linda do mundo, para quem se dá o tempo de admirá-la. Quem diria: eu era como qualquer uma daquelas gaivotas à minha frente, brincando de planar acima do mundo.
       _Você está bem?
       _Eu… É lindo.
       Minha voz, entrecortada. A mão dele sobre a minha. Enqüanto nós escorregávamos no espaço, flashes de nossos corpos simulavam aquela dança sublime de ontem à noite, colados como miragem sobre a cidade. Ah! Como fora doce o seu beijo, seus dedos perdendo-se na curva de meu pescoço, examinando os ossos que pareciam saltar por debaixo de minha garganta, formando reservatórios para sua saliva… Descobrir minha carne nada mais que uma extensão dos arrepios provocados por aqueles toques trêmulos, descendo em direção ao meu seio, por debaixo do decote ofegante da blusa…
       _Estamos com sorte. Há muitos ventos ascendentes.
       Disse ele e eu sorrindo para qualquer coisa que ele dissesse.
       Sim. Sim. De repente parecia até que eu entendia a essência da beleza. Nada a ver com aquilo que nos ensinam nas escolas. Todos os dias somos meros mortais, cheios de medos, caminhando pelas ruas de uma cidade onde a morte parece espreitar-nos de cada esquina. Já nos chateia saber que vamos morrer, mas chato mesmo é que, ainda por cima, ficam falando disso na televisão, nos jornais, o comentam a cada vez que conversamos, nos dizem: vamos morrer! Mas não nos ensinam a ajudar e amar uns aos outros, a parar de sofrer, a começar a refletir e agir, o que certamente seria mais inteligente, diante desta única evidência que se pode conhecer. Não! Os paranóicos gritam: tenham medo! Escondam-se! É o fim do mundo! Não se arrisquem!
       Ui. Estamos balançando! Vamos cair? Vamos morrer agora?
       Como se lessem o meu pensamento, as palavras dele chegam para me socorrer, a voz dele desmanchando-as tal açúcar mascavo em meus ouvidos:
       _Você está sentindo o vento? Ele está maravilhoso! O momento não poderia ser mais propício para você voar pela primeira vez!
       Voar… Voar… Beleza mesmo é voar. É afastar-se das coisas, sobrevoá-las e descobrir, naquele vão entre nós e o mundo, a nossa própria pequenez. E desfrutá-la! Jogar-se no medo, e pensar…
       De novo a voz dele, despertando-me de meus devaneios, fazendo-me sentir um gosto de caramelo quente na ponta da língua:
       _E então, o que você está pensando? O que acha disso?
       Como não sorrir para este homem? Nem importa que ontem tenha sido nossa primeira noite juntos. Parece que nos conhecemos há séculos. Como não venerá-lo depois disso ? Ele me faz cagar de medo para, depois, bêbada de mim, me levar a descobrir que estou viva… Ontem, quando fazíamos amor, ele me olhou nos olhos, e disse: "Nao quero que cheguemos ao orgasmo agora. Quero, antes, voar com você."
       Eu havia rido, sem entender o grau de insanidade ao qual a paixão pode nos levar. Apenas hoje de manhã, quando entrávamos na floresta densa e deixávamos as ruas de meu dia-a-dia, nas quais, às vezes, nos espelhos provocados pelas poças da rotina, chego a me perder, eu comecei a compreender. Aliás, adoro entrar nestas estradinhas serpenteadas que de repente transformam as ruas de minha cidade em um estranho esconderijo florestal, como se fosse a cavidade entre as pernas de uma mulher, camuflada apenas por uma cortina de verdes e densos pêlos púbicos.
       _Aonde vamos? - Eu perguntei.
       _Vamos terminar o que começamos ontem.
       Ele respondeu e, na suave serenidade de sua expressão, revi a dor de seu rosto na noite anterior enquanto ele, duro como uma rocha, se despregava de meu corpo e nos privava de um prazer estrondoso, porém fácil. Não. Antes ele queria atravessar a floresta, chegar ao pico, jogar-se no abismo comigo…
       _Você não me respondeu.
       Ele falou, despertando-me de meu delírio. Estávamos de novo voando.
       _Qual foi mesmo a sua pergunta?
       _Se você está gostando. O que está sentindo…
       Senti o tal do vento ascendente levando-nos mais alto, mais longe, mais próximos da imensidão do mar. Olhe! Eu queria dizer, gritar, dançar. Olhem! A gaivota abandonando o conforto, parando de planar e mergulhando, frenética, além de si mesma, no oceano. Nascer é o risco. Viver é o desafio.
       Aspirei o perfume aveludado de meu amante envolvendo-me com tufões de ar quente, expulsando meus demônios, minhas dores passadas, meus medos, como o melhor dos incensos. Percebi, também, meu sangue fervendo nas veias, como se eu tivesse bebido um daqueles vinhos que nos fazem esquecer o ano em que estamos, a nossa idade e o nosso nome, aquele tipo de vinho bom que nos transporta aos metros de pele que cobrem nosso corpo e serão tocados em breve. Eu queria dizer: obrigada. Àquele homem, a minha cidade, à vida, por me permitir viver até aquele momento. Queria gritar de felicidade, dizer que… Agora sim, agora eu poderia ser sequestrada, receber salário atrasado, ficar parada no trânsito, eu poderia até mesmo morrer e tanto fazia. Antes o mundo era do tamanho do meu medo e eu era escrava dele. Agora ele era um universo sem tamanho e tinha o sabor da minha paixão. Juntos, o mundo e eu, derrotaríamos todos os dragões. Eu estava viva!
       Mas achei melhor não dizer nada daquilo, pular plenamente no abismo da vida com ele, e responder:
       _Eu te amo.

                                   FIM

Antonella Zara


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A Bela do Dia

       Ela era dessas mulheres que preferem sentir a pensar. Seu nome era Joana, mas poderia ser qualquer outro e, de fato, era, quando ela encarnava seu alter ego. Nem mesmo ela sabia como sua vida havia mudado tanto de um dia para o outro. Ela deixara de ser apenas a elegante e culta moça de refinadas maneiras e berço de ouro, a esposa apaixonada, dedicada e perfeita. Aconteceu durante as horas silenciosas, enquanto seu marido trabalhava, em uma daquelas úmidas tardes de verão, quando ela normalmente se dedicava à costura, à leitura de clássicos do pensamento, aos cursos de gastronomia, às aulas de piano, canto e dança contemporânea, aos intermináveis chás com amigas, todas casadas e de boas famílias. Uma bela tarde ela incorporou "a outra". Aquela cuja existência era desconhecida por familiares, amigos e principalmente por Randolfo, seu venerado e magnífico marido...
       Tudo havia sido tão natural quanto uma súbita chuva tropical. O dia do despertar começou sereno e límpido. As empregadas chegariam mais tarde. Joana tivera o cuidado de organizar os dias de forma que os poucos momentos que o casal tinha um para o outro fossem reservados apenas para os dois. Ela se levantou da cama bem antes dele, como sempre insistia em fazer, comprou rosas frescas, preparou com esmero o café forte e aromático, o suco de laranja-cravo, a torrada beurré, e sobre ela uma fatia de peito de peru e uma colher de confiture de mirtilles. Arrumou carinhosamente a mesa de vidro com as flores no centro, admirou uma vez mais os detalhados pés de cedro do móvel, a palha delicadamente trançada do serviço americano, a prata sulcada dos talheres. Acordou Randolfo com um terno beijo e carícias nas costas, como de costume, estendeu-lhe a toalha após sua sonolenta ducha, apertou o nó em sua gravata, colocou o Cd de música clássica durante o desjejum, como ele gostava, assegurou-se de que ele não estava esquecendo de nada, e até o lembrou de um compromisso importante enquanto o ajudava a entrar no paletó impecavelmente engomado.
       _Você é adorável.
       Ele disse, e partiu para mais uma jornada em seu importante universo repleto de homens engravatados e negociações milionárias. Ambos eram ricos, jovens, ainda queriam viajar muito e concordavam que era cedo para ter filhos. "A menos que queira, você não precisa trabalhar", ele havia sugerido e ela assentiu de imediato, inteiramente de acordo. Estudara filosofia por apreciação própria, mas também para agradar a família e ninguém esperava dela que fosse lecionar, competir ou se sacrificar no rudimentar mercado de trabalho.
       Entretanto, naquela específica tarde de verão sentia-se lânguida e sôfrega ao mesmo tempo. Nenhuma aula, ida ao cabeleireiro, depilação, massagem linfática, nem mesmo um tête-à-tête com uma amiga, programa algum estava marcado e não tinha nada para fazer. Sentou-se em frente à televisão, mas não conseguia prestar atenção. Examinou suas unhas, passou o dedo para conferir se os móveis estavam limpos, foi ao quarto arrumar suas jóias, pensou em ler um livro de um jovem filósofo aclamado pelos críticos, mas fazia meses que havia perdido o sabor da leitura. Lia apenas algumas frases de cada capítulo para manter-se informada e ser capaz de pimpar durante algum jantar com amigos ou clientes de Randolfo. Acabou por optar por uma revista. Folheou-a desinteressadamente, até que seus olhos se viram sugados por uma reportagem.
       Tratava-se de uma entrevista com uma proprietária de um bordel de luxo. Na foto uma soberba e altiva mulher cruzava sensualmente suas longas pernas, recostada sobre um canapé cor de creme. A imagem da caftina era de uma força ímpar, evocava em Joana seu fascínio infantil pela história das amazonas e as fantasias relativas à aparência e vida delas. Mais incrível era a trajetória daquela mulher, repleta de impetuosidade, inúmeras dores e prazeres, abundantes e dramáticas vivências. Era notável o amor dela pela própria profissão e a absoluta convicção que seu trabalho servia a sociedade. Segundo ela, não fossem as meretrizes, guerras estourariam, famílias se dissolveriam, homens se suicidariam, as mulheres não teriam conquistado seu espaço e seriam ainda mais maltratadas do que já eram. Sem saber exatamente por que, deparar-se com aquele universo, tão distante e subitamente tão próximo, foi para Joana como banhar-se em uma fonte de água benta e milagrosa. Era daquilo que ela precisava.
       Na verdade, até aquele momento ela nem sabia que lhe faltava algo. Vivia seus dias em plena aceitação de seu destino. Os eventuais pesadelos, as repentinas angústias, a sensação de estar em um corredor cheio de portas e não saber qual delas escolher, tudo aquilo eram fantasmas transitórios, menos interessantes ou importantes que as bolhas no copo de Champagne que tomava como aperitivo todas as noites, antes do jantar. Estudos, teorias, política, debates ou livros, nada daquilo tornara o mundo menos sórdido. Muito cedo Joana se resignara à transitoriedade e à inevitabilidade da tragédia, características inerentes à vida. Para ela, não havia caminho a trilhar senão o da satisfação pessoal. Não era daquele tipo idealista nem se sentia na obrigação de fazer caridade ou inventar moda simplesmente por fazer. No entanto, ao ler aquele artigo, foi como se o imenso vazio de sua vida se abatesse sobre ela. A criança que sonhava com um mundo melhor ressurgiu do oco de suas entranhas. Ela sabia que era impossível criar uma lei que dissipasse o ódio, a inveja, o orgulho, o medo, o egoísmo, a falta de consciência, a percepção errônea e os vícios doentios. Apenas idéias e boas intenções não cortavam a raiz de todos os males. Era inviável mudar o estado das coisas apenas com palavras supostamente inteligentes. Mas no reino dos sentidos, nos vãos espaços da matéria e da criação, no abismo obscuro das carnes, tudo era possível. Sem pestanejar, ela foi até o armário, arrumou uma bolsa com alguns pertences, retocou a maquiagem, vaporizou com uma cara fragrância egípcia o decote da blusa, os lóbulos das orelhas, os pêlos perfeitamente tosados sob a lingerie de seda.
       O encontro com sua futura patroa foi tão fácil e óbvio quanto tudo aquilo que acontece por obra do destino. Ambas se contaram suas respectivas vidas, riram muito bebericando um suco de frutas do bosque, e descobriram uma notável afinidade. Naquela mesma tarde, já devidamente empregada, Joana representou quatro diferentes mulheres. Trabalhando de duas a três vezes por semana, em pouco tempo já havia conhecido vários tipos de homens, gordos e magros, cultos e brutos, fortes e fracos, poderosos e subordinados. Por cada um deles sentiu infinda compaixão, comiserou-se sinceramente de suas dores, e adicionou conselhos ao remédio dos prazeres.
       De manhã e de noite ela ainda portava digna e tranqüilamente sua identidade, mas muitos notaram nela um novo brilho, uma qualidade mais aberta de presença, uma forma generosa de interceder menos por si mesma e mais a favor dos outros. A serenidade sorria de seus gestos, a feminilidade exalava de seus trejeitos, um secreto e desconhecido perfume, um sutil e vibrante espírito permeava cada uma de suas ações.
       Randolfo reinflamou-se de paixão por sua adorada esposa. Há muito tempo não a havia visto assim, ou talvez nunca percebera o quão absurdamente deslumbrante era a mulher que tinha. Descobrindo em si uma saudável intensidade e discretos ciúmes, disfarçou um novo tremor na alma e presenteou-a com flores, jóias, objetos de arte, passeios de helicóptero e uma casa em uma ilha.
       Alguns anos depois ficou muito conhecida uma fundação criada por um patrocinador anônimo. Era uma instituição que visava ajudar o meretrício, legalizá-lo junto ao estado, oferecer vantagens empregatícias, apoio psicológico e espiritual a todas essas mulheres, tão desprezadas pela sociedade. Nunca se soube quem estava por detrás daquela ação tão revolucionária. Mas em um quarto, em um elegante bairro da cidade, para seguir dando o apoio necessário a seu projeto, a fundadora despia-se todas as tardes. Quando o fazia sua pele já não lhe pertencia. Inúmeras mãos por ela passeavam, cheiros se impregnavam em suas narinas, novos passos da dança dos corpos germinavam, diferentes timbres de voz colavam-se à sua memória, histórias de vida brotavam em seus ouvidos, e saíam transformadas de seus braços. No final da tarde, ela lavava tudo debaixo do chuveiro. Pura e virginal, trêmula e exultante, ela voltava para casa e gozava nos braços do homem de sua vida. Finalmente, ela havia descoberto a textura da felicidade.

Antonella Zara

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Versos ao Vento

       No casebre da família de Tião, vivia-se cada dia como se fosse o primeiro e o último da vida. Quando fazia Sol, a poeira da rua de barro deitava-se em grossas camadas sobre a louça, os móveis e as peles. Era necessário tomar banho de bica e sacudir bem a roupa antes de sair para algum lugar, pois em casa o pó impregnava até mesmo os sonhos. De outro lado, em dias de chuva, baldes bebiam a água das inúmeras goteiras. Em caso de tempestade, uniam-se para fazer orações e pedir aos céus que o barraco não caísse.
       Como muitos aventureiros antes deles, os jovens pais de Tião haviam decidido deixar a aridez do sertão e tentar a sorte em uma metrópole. Uma dura sina urbana esperava por eles. Embora fosse forte, não era fácil para Genésio achar trabalho em obras. Quando conseguia, o salário mal dava para sustentar os cinco filhos. Sua mulher, Dina, não podia sair de casa porque o bebê ainda era muito pequeno. Freqüentemente as lágrimas dela gotejavam, deixando arroios salgados sobre o rostinho empoeirado do recém-nascido, que sugava o pouco leite que ela tinha e também as suas forças. Cantarolando canções agrestes, ela rezava para que nenhum de seus filhos adoecesse, para que o pequenino parasse logo de mamar, começasse a andar e para voltar a trabalhar como empregada doméstica. Graças a Deus, pensava ela, os mais velhos não haviam enveredado por caminhos tortos e já ajudavam como podiam. O rapaz de 16 anos ganhava pelo vigor de seus braços, como o pai. As duas meninas de 11 e 13 anos ainda não sabiam cozinhar, mas faziam biscates como babás e faxineiras em casas de família. Tião era o quarto filho. Ele devia ter menos de seis anos quando anunciou cheio de orgulho diante dos pais e irmãos:
       _Um dia eu vou ser um poeta famoso e vocês vão melhorar de vida!
       Neste momento, um raio de sol entrou pela fresta da parede, o bebê parou de berrar, as duas irmãs desistiram da briga, o mais velho engasgou com a rapadura que estava comendo, e a mãe enxugou uma lágrima do canto do olho. Mas o pai não percebeu nada e pisou nos castelos de vento do garoto:
       _Ora, meu filho, que idéia é essa? Nem mesmo o seu pai sabe ler e escrever! Isso não é trabalho para pobre. Não comece a sonhar com coisas impossíveis. Eu já expliquei a você que a vida é feita de dureza e luta. Semana que vem você começará a engraxar sapatos no ponto do Macedo
       Tião assentiu em silêncio, foi se sentar do lado de fora e olhar o movimento da rua. Não adiantava falar com os adultos, eles não entendiam nada. Porém estava contente. Os engraxates sempre conversavam com seus clientes e escutavam histórias. Resolveu anotar mentalmente todos os relatos e guardá-los nas gavetas de sua boa memória. Quando finalmente fosse alfabetizado, ele escreveria grandiosos versos sobre eles e o país inteiro se comoveria ao lê-los.
       Por obra da sorte ou do destino, um dos primeiros fregueses de Tião gostou muito dele. Roberto era um solitário português aposentado. Havia perdido a esposa, vítima de um fulminante câncer, e desde então passava seus dias a ler e jogar xadrez na praça com outros senhores de idade. Seus filhos sempre estavam ocupados demais para lidar com as manias de um homem idoso e ranzinza. Não sabiam que o sofrimento e a idade amansam uma pessoa, nem que seu velho corpo ainda abrigava um sonhador. Enquanto seus sapatos eram lustrados com esmero, Roberto viu duas estrelas brilharem nos olhos do menino ao perguntar o que este queria ser quando crescesse. Diante da surpreendente resposta, o português retrucou:
       _Poeta? Por acaso sabes ler e escrever? Se quiseres realizar este sonho, terás que ir para a escola e estudar muito.
       _Não sei, não senhor, e não posso ir para a escola porque preciso ajudar meus pais. Mas tenho fé em Deus e sei que aprendo rápido. Um dia alguém vai me ensinar.
       O coração do homem se apertou, e ele comiserou-se de seu jovem interlocutor. Talvez tenha sido compaixão, solidão, ou quem sabe as duas coisas juntas, que o levaram a decidir falar com Macedo. Ofereceu-se para, na hora do almoço, tomar conta, dar comida, ensinar a leitura e a escrita ao simpático miúdo. Ao saber daquilo, o pai de Tião ficou desconfiado. Generosidade não era comum na vasta selva de pedras. Não obstante, depois de ouvir que se tratava de um antigo e confiável cliente, resolveu aceitar. Afinal, era possível que aquilo realmente melhorasse as chances do filho conseguir um emprego no futuro.
       Em um ano, professor e aluno se tornaram grandes amigos. O garoto não somente assimilou bem aquilo que lhe fora ensinado, como também começou a ler os clássicos da literatura infantil. Além disso, encorajado pelo amigo, se arriscou a dar seus primeiros passos no misterioso universo da emoção escrita. Por sua vez, grato a Tião por ter encontrado um sentido para a sua cansada vida, Roberto prometeu ajudar a família do pequeno prodígio para que este pudesse freqüentar um colégio. Entretanto, um dia após ter tomado tal resolução, um ataque cardíaco o matou, e junto com ele foram-se também as esperanças de Tião de um dia poder vir a estudar.
       Sem seu grande amigo, livros para ler, nem dinheiro para comprá-los, Tião chorou uma tarde inteira, sentado ao lado de casa. Semanas mais tarde, ali onde suas lágrimas beijaram o chão, nasceu uma mangueira sem que ninguém a plantasse. Muito tempo depois, a frondosa árvore não somente oferecia uma generosa sombra a quem se sentasse sob seus ramos, como também toda a vizinhança ficou sabendo que ela dava as melhores mangas de toda a região. Mas o menino Tião nada sabia do poder mágico das lágrimas. Passou semanas e meses engraxando desconsolado, até despertar em uma noite de lua cheia e não mais conseguir dormir. Uma idéia havia brotado do nada do sonho da mesma forma que o bebê saíra do ventre da mãe e a árvore germinara milagrosamente da terra. No dia seguinte, em seu horário de almoço, comprou uma grande cartolina sobre a qual escreveu: "Para um menino pobre e acanhado, façam um generoso e grande favor. Doem um livro por ele desejado, sejam a graça e a bênção do Senhor.". Com essas palavras, prostrou-se na porta de uma famosa livraria. Não tardou para que alguns dos que dali saíam, carregando o peso de caros volumes em sacolas, se sentissem tocados por aquele olhar imenso e pelo sorriso de marfim. Foi assim, mendigando livros e despertando a generosidade alheia, que Tião conseguiu conhecer várias pérolas de nossa poesia e literatura e aprimoradas traduções de obras escritas em outros idiomas. Anos depois, todo mundo que o conhecia sabia que ele era um grande contador de histórias e um homem muito sábio e culto. Mas por ter que ajudar seus pais e irmãos, e mais tarde também sustentar sua amada esposa e seus filhos, ou simplesmente porque assim é a realidade, Tião se esqueceu de seu sonho.
       Logo que cresceu, foi juntar-se ao pai e ao irmão quebrando pedras e cimentando tijolos. Em dias de sol escaldante, sua pele rachava e a cabeça ardia e em dias de frio cortante, os lábios sangravam e os dedos endureciam. Incansável e humildemente, Tião trabalhava. Nada sobrava das fantasias de menino senão versos que borbulhavam da nascente de seus pensamentos desatentos. Como bolhas que divertem a moçada e em seguida explodem no ar, ou um arco-íris que fascina para desaparecer logo em seguida, também seus poemas surgiam, o distraíam e partiam sem deixar rastros à medida que as paredes das construções subiam. Com o passar dos anos, e o multiplicar das desgraças, eles foram se tornando cada vez mais tristes.
       Sob tais pobres condições de vida, os pais dele não demoraram a deixar este mundo. Dos seis filhos de Tião, um morreu por falta de leite, outro de remédio e o mais jovem desapareceu durante as guerras do morro. Com tamanho sofrimento e de pura tristeza, faleceu também a esposa dele. No dia em que ela se foi, a poesia finalmente se calou na alma de Tião. Ele parou de lutar e saiu caminhando a esmo pelas ruas. Começou a beber cachaça e dormir sobre caixas de papelão em esquinas cheirando a urina. Derrubado pela birita, às vezes até no meio da calçada ele acordava. Em uma dessas quedas, bateu a testa com tanta força no chão que, ao despertar, sua face estava toda suja de sangue.
       Pela intensidade do golpe ou porque a vida não é só feita de infortúnios, ao abrir os olhos Tião começou a rir. Riu tanto que até chorou e suas lágrimas limparam seu rosto e sua alma. Levantou e a primeira coisa que fez foi entrar em uma padaria e pedir por um papel e uma caneta. Naquela manhã escreveu o primeiro dos inúmeros poemas que agora fervilhavam em sua cabeça. Rabiscou-os sobre panfletos achados na rua, guardanapos doados por bares, papel de embrulho amassado, catado no lixo, nas próprias mãos, braços e pernas ele escreveu. Jogou versos aos ares e ventos, escrevinhou e recitou tanto, em voz alta de alegria inflamada e trovejante, que passantes pobres e ricos acabaram por escutá-lo. Curiosos e infelizes, românticos e eruditos, até mesmo rádio e televisão vieram a ele. Sua súbita fama alastrou-se país afora, sua poesia virou música e livros, e foi tão longe que abriu as portas para que seus filhos e parentes fossem encontrados pela imprensa, entrevistados, reconhecidos, conseguissem direitos autorais, melhores empregos e moradias, e até pudessem aprimorar o jazigo dos entes queridos que se foram. Mas embora a família insistisse, Tião nunca mais quis deixar a vida das ruas. Continuou a escrever sem nada saber da força mágica dos versos nem se lembrar de seu próprio nome. Um belo dia, em uma esquina qualquer, morreu subitamente com um sorriso de marfim. Como a própria vida dele, o poema que tinha na mão soltou-se e foi levado pelo vento
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Antonella Zara

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Sob o Sol da Bahia

       O Sol do fim da tarde coloria a vida de tons rosados e dourados, a pele flutuava entre os movimentos arredondados do caminhar, tudo era delicado e inocente. Aproximava-se uma noite de Lua cheia, e a maré estava especialmente baixa. Os pés deixavam seu rastro molhado de passos na areia, e eu brincava de multiplicá-los um ao lado do outro. Fui andando pela praia deserta rumo ao centro da cidadezinha. Eu nunca havia sido mais eu do que naquele momento no qual o passado não existia.
       Acercando-me da curva do mar, ali onde se podia avistar a continuação infinita da areia, sugerindo futuras caminhadas rumo ao esquecimento, vi de perto os barcos dos pescadores. Ancorados e coloridos, eles boiavam placidamente, remetendo a algumas canções de Dorival Caymmi. A bela imagem me surpreendeu. Parecia que eu podia ouvir as notas de música no balanço dos barcos, e a beleza era tão absoluta e genuína que ela me doeu. Fiquei sem ar por alguns segundos, e me sentei na areia para me recuperar. Onde eu havia estado, o que eu havia feito, quem eu havia sido? Nada disso existia nem importava ou era real diante daquela imagem que inundava os meus sentidos. Não sei quanto tempo se passou, mas a noite caía quando pensei em me levantar. Fiz menção de erguer o corpo, quando uma voz soou atrás de mim:
       _Não vá embora ainda. A Lua cheia vai nascer do mar daqui a pouco.
Eu não me assustei, e olhei para trás com serenidade. O homem se aproximou e se sentou ao meu lado. Ele trazia consigo um berimbau. Sem se apresentar, começou a tocar algumas notas, jogando feitiços sobre o arame com uma varinha, e o som partia em espirais ascendentes, variando diferentes tonalidades. Finalmente ele deitou o instrumento ao seu lado, e virou-se para mim.
       _Você toca berimbau?
       _Não.
       _Você não é daqui? Eu nunca a vi.
       _Sou alemã.
       _Qual é o seu nome?
       Olhei para ele. Os olhos do rapaz não fugiram dos meus, e neles eu vi refletidos o mar, os barcos, e o primeiro raio vermelho de uma lua que se erguia miraculosamente do horizonte. Virei a cabeça rapidamente para não perder sequer um instante daquele espetáculo, e talvez a minha respiração acelerada o tenha divertido, ou surpreendido, pois ele disse:
       _Minha Lua. Eu chamarei você de Minha Lua.
       Eu tive que sorrir, e responder:
       _Se eu sou a sua Lua, você é o Meu Sol.
Ele não concordou nem contestou, mas seu silêncio não era uma ausência, tudo nele era presença sem que ele nada precisasse dizer. Esperei a Lua descolar do mar e começar a flutuar no céu, imensa em sua vermelhidão, antes de olhar novamente para ele. Primeiro olhei de soslaio, descobrindo o braço, reteso e robusto rente ao meu. Depois veio a cor da pele, como é que podiam chamar aquilo apenas de negro, tratava-se de uma profusão de cores! Mesmo embora estivesse escuro adivinhei tons de roxo, carmim, verde e ocre. A pele reluzia, e eu não saberia dizer se ela refletia a noite e o rubor da Lua, ou se era em mim que já estava se tatuando o reflexo do Meu Sol.
       Eu gostaria de ver você de dia, nu e solto na imensidão. O meu pensamento me perturbou e fixei o rosto, que também se inclinava para o meu, estudando-me em silêncio. Sua cabeça era oval e sem pêlos, e deixei o meu olhar deslizar pela testa marcada de vida e de sol, pelas sobrancelhas mansas, pelos olhos estrelados, o nariz alargando-se rumo à boca perfumada por um sorriso tímido, mas reluzente. Em volta daquele homem havia um aro de partículas brilhantes como aqueles que envolviam a Lua cheia que escalava o céu, e que eu apenas havia visto naquele lugar, na Bahia. Se alguém me falasse de paixão, ou de amor predestinado, meu cinismo e ceticismo não me permitiriam usar aquelas palavras, pelo menos não ainda. Eu pensava mais em termos de fenômenos naturais, que a ciência havia explicado tão bem, mas nunca decifrado, enfim, dos milagres diários como a chuva e o vento, a Lua e o Sol, a Lua Dele e o Meu Sol...
       Marianne. Nos lábios dele eu fui Mariana com o R rolando na ponta da língua, coisa que a maioria dos alemães nem sonha em saber fazer, mas eu sei. Depois eu fui também Minha Galega, Minha Gringa, Minha Amada, Minha Sereia, Meu Bichinho, e o inesquecível Minha Lua... Nas noites suadas e transbordantes de sexo eu era Minha Devassa, Minha Cadela, Minha Loba, Minha Perversa, Minha Gostosa, Minha Bomba e Minha Mulher. Quando ele começou a falar na possibilidade de morarmos juntos, e eu comecei a ser "Minha Mulher" para ele, aquilo foi o início do fim, mas eu só soube disso depois. Durante aquele ano eu fui acima de tudo Mariana. Ouvir aquele nome deslizando e pingando como um pedaço de manga por entre os lábios carnosos e suculentos, aquilo me deu uma nova dimensão de mim.
       As primeiras vezes que eu me aventurei no território inexplorado do corpo daquele homem, eu senti como se estivesse devorando a Bahia milímetro por milímetro, literalmente espremendo seu suco e absorvendo sua essência. Ele tinha um quê que me ensandecia, um cheiro de jabuticaba, um sabor de fruta madura, pronta para ser colhida e desmanchar na língua. Tocar aqueles metros de pele açucarada ao som da música tilintante das folhas dos coqueiros era muito próximo a qualquer coisa que eu havia imaginado como paraíso.
       Edivaldo de Souza Filho, este era o nome dele, foi para mim Meu Sol, Meu Ed, com o D macio - é preciso saber dizer Édji - Meu Edinho, Meu Delírio, Meu Deus Baiano, Minha Delícia, Minha Paixão, e nas horas ardentes e úmidas, Meu Homem, Meu Tesão, Meu Cavalo, Meu Insaciável, e Meu Marido. Mas ele nunca chegou a ser realmente meu marido. Ed era um bicho arredio, um ser do oceano, e a mulher para ele era uma vitrine, um troféu, um peixe que ele conseguiu pescar e que lhe permitia se gabar perante seus amigos. Embora fosse alguns anos mais velho que eu, ele não passava de um menino, um ser intocado pela sociedade moderna, no bom e no mau sentido, e havia uma inocência com gosto de maresia que emanava de tudo aquilo que ele fazia e dizia. Ele teria até ficado comigo, mas eu não seria nada mais que sua esposa. Aquela que fica em casa e em silêncio quando ele retorna perfumado de outros braços, a que o faz gozar quando ele está com preguiça de sair, mas que nunca consegue ter seu próprio prazer plenamente orquestrado, porque ele tem medo de se entregar real e totalmente. A mulher é, para um homem como ele, apenas um recipiente morno e úmido onde ele ejeta o seu esperma. Mas ele tem pavor de mergulhar realmente nela, de lambê-la até o esquecimento, beber de seu gozo com avidez e abraçar-se a ela a noite inteira, pois isto significaria eventual dependência, entrega e uma fragilidade que os outros nunca podem sequer suspeitar que ele tenha... Ed tinha medo de me amar demais, e por isso ele me amou de menos. Eu logo compreendi que ele era assim, ele era um pescador, um homem que pertencia ao mar e nunca pertenceria a mim.
       Mas eu gostei de entrar na pele de uma daquelas mulheres que olhavam languidamente para o horizonte. Cada vez que Ed ia pescar na madrugada, ali ficava eu, em pé na praia, doente de paixão, rezando a cada minuto do dia para o meu amado voltar são e salvo para os meus braços, e acima de tudo para a minha cama. Ele era a parte de um poema, e de uma eterna noite de Lua encantada. Quando em uma tarde praiana uma pornográfica sueca cintilou nos olhos dele, e se tornou subitamente o centro de suas atenções, eu me preparei para deixá-lo. Naquela mesma noite, coçando a orelha e esquivando o olhar, ele me disse:
       _Vou sair. Não me espere para dormir.
       Eu coloquei as mãos em volta de seu pescoço, dei-lhe um beijo de língua, olhei longamente em seus olhos, e disse:
       _Obrigada.
       Ele tossiu, se desvencilhou, me perguntou do que eu estava falando. Eu queria lhe dizer, obrigada, por ter sido o meu Sol, por ter me enlouquecido e mostrado uma paixão que eu tinha em mim e nem sabia. Obrigada por ter me dado pedaços do paraíso embrulhados em momentos inesquecíveis, pela maneira como a sua pele brilhou sob os meus dedos, e como o seu cheiro inundou a minha vida, e finalmente, obrigada por me devolver a mim mesma. Mas ele não entenderia, estava já inquieto para sair e apalpar o silicone das tetas suecas, e eu apenas disse:
       _Simplesmente obrigada.
       Ao dizer isso eu sorri, ele se esforçou para sorrir de volta e foi embora, desatento e entediado como a pior caricatura dos maridos. Deixei Ed ainda enlouquecida por ele, e só de pensar em nunca mais aspirar o ar que saía de suas narinas todo o meu corpo tremia, como se eu já estivesse surtando pela falta de minha droga. Saí daquele barraco que durante um ano havia sido meu castelo, as lágrimas descendo soltas pelo meu rosto, mas eu não me importava. Eu sabia que era o fim.
       Curiosamente, não demorei muito para esquecê-lo. Sozinha, em um país estrangeiro, pela primeira vez na minha vida eu desfrutava realmente de minha própria companhia. Eu ousava dizer aquela palavra, feliz, em português, eu a cantarolava no banheiro, feliz, eu a oferecia ao mar. Eu nunca tive religião, mas se houvesse existido uma crença que falasse da terra, do sol, da lua, do céu, do mar e das estrelas, das coisas vividas pouco a pouco ao invés de serem pensadas, do saber viver com qualidade, dos momentos sentidos na pele, do tempo que desaparece, esta religião com certeza se chamaria Bahia. Aquele lugar me havia feito compreender o que é paixão pela vida, um estado de espírito além de todos os estados, uma compreensão emocional e uma gratidão constante pelo simples fato de estar viva. Viver sem paixão é não conhecer o sabor da vida, não mergulhar no espanto, não entender que nada se entende, é nunca se transcender. Muitas pessoas ricas não são felizes. Como será que elas reagiriam se, um dia, despertando de seu sono, percebessem que para ser feliz é preciso apenas sentir-se vivo?

Antonella Zara

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A Flor do Ciúme

       Era como uma fera obscura mordendo o corpo por dentro e cravando as garras prateadas na boca do estômago. Era uma dor milenar, dessas que despontam de repente, tal qual um tumor da alma, uma flor carnívora, ulcerosa e purulenta, um buraco negro orgânico comendo toda a vida que há em volta. Manuela era o nome do desabrochar.
       A história deles não tinha muito mistério, era um entre vários romances açucarados. Um rapaz e uma moça se conhecem em uma festa. Logo, descobrem que não somente estão prestes a estudar medicina na mesma universidade, como também moram no mesmo bairro e têm muitas outras coisas em comum: freqüentam as mesmas praias, assistem aos mesmos filmes, gostam das mesmas músicas, apreciam a mesma moda. Enfim, pertencem à mesma classe. Ele, aspirante a cirurgião, devoto da razão, crê que buscando, tudo se acha, aprecia as coisas esmiuçadas, abertas e pulsantes. Ela, mais emocional, futura pediatra, gostaria de mudar o mundo, mas como este é grande e complexo demais, apenas faz a sua parte, acreditando na infância saudável e promissora. Carismáticos, bonitos, inteligentes, rapidamente tornam-se um casal popular que todos convidam para as festas. São alvo de admiração, inveja, desejos e fofocas, mas fingem não notar. Às vezes, até divertem-se com isso. Adeptos dos ideais impermeáveis e inabaláveis, formandos com primor, casam com pompa e sorrisos. Figuram em colunas sociais, viajam pelos Estados Unidos e pela Europa. No álbum de fotografias, acessível na Internet para os amigos mais próximos, as fotos de abraços e beijos abundam, em ruas floridas, praças cheias de pombos, avenidas triunfais, os olhares altivos e esperançosos, as mãos entrelaçadas, enquanto nas outras balançam sacolas das quais transbordam roupas de marca.
       João não saberia dizer do que gostou primeiro nela. Se fora seu cabelo cor de trigo, liso, sedoso e perfumado, o corpo esbelto, mas generoso nos lugares certos, a voz doce, quase lânguida, os lábios cheios e inocentes, o olhar sereno, meio profundo meio triste, roubando sempre a alma. Querê-la foi uma certeza contundente e seca, como o estudo da medicina. Já nas primeiras semanas de namoro ele soubera que ela era a mulher da vida dele, aquela que o acompanharia nos bons momentos e nas fases mais difíceis. Além de ser também a perfeita mãe para seus filhos, sendo que estes certamente haveriam de ser belos e saudáveis. Eles formavam um casal poderoso e estavam destinados a um futuro glorioso, construído passo a passo, como o melhor e mais imponente dos currículos.
       Por ser ele tão metódico, o enamoramento não cedeu às primeiras investidas do tempo. Pelo contrário, como com a outra paixão, a medicina, o amor por Manuela apenas crescia, proliferava em exaltação e fascinação. Sua mulher era um fantástico objeto de estudo. Desses que induzem horas de reflexão, logo roubam parte cada vez mais largas dos dias e inteiras noites de sono. João não tardou em perceber que a complexidade desta ciência em muito ultrapassava aquela do funcionamento dos organismos, na qual ele fora aluno e depois profissional exemplar. No entanto, diferente da profissão, onde os frutos do conhecimento germinam inevitavelmente se regados com doses cavalares de trabalho e dedicação, aprofundar-se em Manuela era, pouco a pouco, afundar no lodo da ignorância.
       Não foi sem preocupação que ele rapidamente concluiu que ela não era a mulher com quem ele pensava ter casado. Tudo aquilo que ele inicialmente nela vira era uma fachada frágil, um castelo de areia que desmoronava a cada novo encontro, fosse na aparente frescura da manhã ou à noite, após uma intensa jornada de trabalho. Entretanto, não era o entusiasmo que perigava sob o ataque da verdade. Este somente inflava e crescia, desmesurado, como o pior fogaréu. Não era isso. Diante de seu próprio atônito olhar aquilo que desvanecia e obnubilava-se mais a cada dia que passava era a sua própria sanidade.
       Mas como ficar são diante das mudanças que ele acompanhava na amada esposa? Ele as observava desde o primeiro abrir de olhos, no momento do despertar, se noite de sono houvera, pois estas se tornavam mais e mais raras. A transformação não era somente física, ela poderia preencher páginas inteiras, mais de um tratado ser escrito e nunca as descreveria por completo. Como explicar a pele perdendo dia a dia a viscosidade infantil, não a seu detrimento, mas trazendo à luz outro ser totalmente diferente, realizando a mais diáfana metamorfose da menina adolescente e sonhadora à inacessível e brumosa mulher. A latente imprevisibilidade dela o surpreendia nos momentos mais inoportunos, quando ela deslizava pela casa como um silencioso fantasma ou vinha abraçá-lo na cama, no meio da noite, quando olhava para ele com aqueles olhos grandes cuja doçura já não o enganava, era uma armadilha, um artifício biológico de sedução, uma forma de atrair todo e qualquer macho. E o que dizer das fases da lua? Quanto mais esta crescia, mais algo pernicioso borbulhava em Manuela, uma besta soturna brotava de seu ventre e subia até seus olhos brilhantes e sedentos de lua cheia. Nesses dias, ela era capaz de desvendar o mais íntimo pensamento do marido e pronunciá-lo da forma mais brutal, e não raro ele tinha certeza de surpreender um leve sorriso de escárnio nos lábios supostamente pueris. Seus longos cílios tornavam-se então armas fatais, desfechavam tiros em todas as direções enquanto baixavam e subiam em lenta dança diante de cada homem que dela se aproximava. E quando ela finalmente menstruava suas palavras tornavam-se ferozes, suas veias palpitavam em busca da próxima vítima de seus humores mutantes, ela era um vulcão em ebulição do qual jorrava o próprio fogo do inferno e a lava ardente de sua presença queimava-o irremediavelmente.
       Às vezes, quando o sono seqüestrava a consciência, João desmaiava em sonhos inquietos, caía em pesadelos sinistros nos quais Manuela era um bicho sanguinário e ele a temia mais que a própria morte. De certa maneira, era realmente aquilo que estava acontecendo, ela o matava de um amor hemorrágico, provavelmente vingava-se de sua condição de animal aberrante, de vampiro no cio, sangrando a alma de seu marido até que este enlouquecesse. João já não sabia se era pavor ou fascinação que sentia por ela, mas não tinha dúvidas de que a psiquiatria chamaria de obsessão seu interesse excessivo nos fenômenos presenciados em casa. Entretanto, se antes alguém tivesse lhe dito que o amor, do qual todos falavam como se fosse um piquenique, um passeio informal e inofensivo, que não era nada disso, que amar doía, que viver com uma mulher era, na verdade, uma viagem no expresso oriente da morte, um salto no nada quântico, uma ascensão ao mistério, ele talvez tivesse pensado duas vezes antes de se aventurar desta forma. Mas agora era tarde demais e ele não era homem de coisas feitas pela metade.
       Por isso, logo ficou claro que, sem dormir direito nem pensar em outra coisa que não fosse ela, ele não podia mais trabalhar. Tentou algumas vezes explicar a Manuela o que lhe acontecia, mas ela parecia alheia em seus pensamentos e vaga em suas respostas. Presenteava-o então com um carinho condescendente, chamava-o de tolinho e ciumento, esquivava-se como uma cobra sinuosa, sempre pérfida e maravilhosa, sempre disposta a dar o bote mortal. E ele então calava, amando-a apesar de seu veneno e provavelmente por causa dele, querendo-a como nunca antes a quisera, embora já nem pudesse tocá-la, pois cada toque transportava-o para cavernas entranháveis, lembrava-o de que a fonte de toda a vida dormitava naquele útero, dava-lhe a vertigem das alturas do sexo, do abismo que era uma mulher. Seguia Manuela pelas ruas então, sem que ela o visse, examinava seu correio eletrônico, suas cartas, seus escritos e suas roupas. Recordava-se com pesar de si mesmo no passado, quando intocado pelo fogo da paixão, como a própria mente despia e fornicava cada mulher que lhe cruzava o caminho. O que acontecia na mente de Manuela? Onde passeavam seus pensamentos? A quem oferecia aqueles sorrisos e olhares, tão cheios de enigmas impossíveis de decifrar? Pensar naquilo o enlouquecia, pois ninguém era capaz de ver além do corpo. Amigas, amigos, familiares, conhecidos e colegas, todos queriam apenas o deleite da voz melodiosa, a fragrância mágica dos movimentos, a sabedoria cálida das palavras bem escolhidas. Mas ninguém sabia dos recôncavos submersos, do silêncio insondável de um oceano visceral, vibrante e fecundo, que se expandia muito além da pele sedosa e dos membros agradáveis ao olhar. Na verdade, ninguém deveria ter direito de aproximar-se de Manuela, pois ela era a própria vida e seu corpo era a via sacra, o divino e o profano, o início e o fim. Como suportar a dor da normalidade à qual, por caridade ou por malícia, ela se curvava, da mediocridade da rotina que a vulgarizava, das sombras humanas que a circundavam, famintas e ávidas do bálsamo de sua presença fulgurante?
       Tivesse João tendências assassinas, provavelmente ele a mataria, com planejamento e precisão. Ciente da inviolabilidade da essência, ele a cremaria, a poria em uma pequena caixa entalhada, faria o mais belo dos altares e diante deste realizaria vários cultos diários até o último de seus dias terrestres. Mas bem sabia ele que nada poderia expressar a gratidão pelo conhecimento que o amor por Manuela nele finalmente fizera brotar. No quinto ano de casamento, João abandonou a carreira, a esposa, o lar e a cidade onde vivia. Ninguém nunca soube de seu paradeiro. Desconsolada, Manuela chorou rios de lágrimas. Fazia tempo que ela desconfiava que ele tivesse outra mulher. Mas o seu choro não durou muito, foi rapidamente consolado por um atraente colega de trabalho no hospital. Anos depois, correram boatos que João fora visto no oriente, que virara um santo de olhos reluzentes e expressão agreste. Diziam até que fazia paralíticos andar e cegos enxergar. Tão humilde e luminoso era ele que, quando questionado sobre de onde vinha ou como se chamava, a sua resposta enigmática era sempre a mesma: sou um homem apaixonado.

                                   FIM

Antonella Zara


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